Vitória do coração

"A união faz a força, o grupo é forte, não importa quem faça o gol, o time está unido..."

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2011 | 00h00

As explicações para justificar a vitória não fugiram ao lugar-comum. O mundo do futebol está cansado de ouvir frases desse tipo. A melhor definição, porém, veio do lateral Fábio Santos, autor de dois dos três gols corintianos: "A gente sabia que precisava marcar muito." Agora, sim, o discurso se encaixa ao perfil do jogo de ontem no Pacaembu.

Diante de um adversário teoricamente superior, o Corinthians necessitava driblar seu processo de esvaziamento. Pouco criativo nesta temporada, com Ronaldo por perto, mesmo sem mobilidade, ainda havia um certo respeito pelo grupo. Mas sem ele o clássico era sinônimo de risco. Afinal, do outro lado, no Santos em construção, todo mundo conhece o apetite de Neymar.

Os santistas só notaram a presença do goleiro Júlio César quando Elano passou a circular mais pelo meio de campo. Enquanto o jogador manteve-se preso à direita, o Corinthians controlou a partida. Com Diogo no papel de dublê de centroavante e Zé Eduardo, mais acostumado à posição, no banco, a equipe teve dificuldade para penetrar na área corintiana.

Irritado com esse tipo de cobrança, Adilson Batista citou o Barcelona como exemplo de time sem centroavante. É verdade, Messi joga pelo centro, mas não deve ser definido como centroavante. Atenção, o nome do sujeito é Messi. A equipe catalã, no entanto, jamais se apresenta sem referência, sem profundidade no ataque. Pedro, pela direita e Villa, pela esquerda, cumprem essa missão. Nesse campo tático não existe verdade, existe gosto, preferência. A minha é pelo jogador de área. E na área.

A vitória corintiana foi obra da dedicação tática, de um time compacto sem a bola, agrupado. Com menos espaço, Neymar esteve longe do que pode render. Mas essa não é a única explicação para o rendimento ruim do principal jogador do Santos. Marcação forte e pressão é o futuro que o aguarda. Desta vez, faltou-lhe também futebol.

O clássico foi a primeira partida importante depois da aposentadoria de Ronaldo. A realidade dos gramados, entretanto, não permite definir o Corinthians de Tite como um grupo comum, principalmente diante das circunstâncias modeladoras do futebol no País. Mas, a partir de agora, será necessário avaliar o funcionamento da instituição sem sua grande referência por perto.

Nos últimos meses, entre muitas dúvidas e poucas divididas, o Fenômeno ainda emprestou ao Corinthians a sua importância, o seu significado. Era o time do Ronaldo, mesmo do lado de fora, chupando picolé entre torcedores e bajuladores.

Agora, apenas no papel de empresário, ele poderá desenvolver sua vocação para os negócios e produzir dividendos para os dois lados. No campo, entretanto, a influência acabou. O futuro do futebol brasileiro é de Neymar.

Ronaldo incomoda, Ronaldo erra. Atribuir o excesso de peso apenas ao hipotireoidismo foi a última escorregada. O controle da balança deveria ser exercido por ele. Afinal, se em 2009 as condições eram as mesmas de hoje, e naquela época funcionou, por que não deu certo agora? Se a disfunção hormonal o fazia engordar e a administração de remédios poderia levá-lo ao doping (o que não é verdade), então agora, longe dos gramados, e podendo agir como um cidadão normal, significa que o Fenômeno vai ficar magrinho, certo?

Neymar é o futuro, tem futebol e carisma para crescer, para ocupar todos os espaços, no campo do jogo e no das celebridades. Ontem, a vitória foi da dedicação tática, de gente como Jorge Henrique. Mas o futuro é de Neymar.

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