Vitória do goleiro

A percepção de amor à camisa do torcedor corintiano é o jogador que se esparrama na linha de fundo entre fios e placas de publicidade, na busca por uma bola já perdida. É uma forma de expressar o comprometimento com a equipe e com seus seguidores, de assumir em campo o mesmo espírito guerreiro de arquibaldos e geraldinos. É o que Felipão define como time com fome.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2011 | 00h00

O torcedor mais atento, entretanto, acostumado às surpresas do futebol, sabe que a vitória sobre o Palmeiras é importantíssima para ajudar a recuperar o grupo, mas já aprendeu a reconhecer também quando as coisas não funcionam. Como agora.

Foi um grande resultado, apenas isso, alcançado com futebol ruim. E bota ruim nisso. O Corinthians precisou de 82 minutos para fazer uma tabela, a de Moraes com Alessandro, que resultou no gol da vitória, aos 37 do segundo tempo.

A partida não eliminou a letargia da equipe, mas contribuiu para criar um herói, o goleiro Júlio César, responsável direto pelo zero palmeirense no placar.

O time de jogadores famintos de Felipão foi melhor, teve 55% de posse de bola, acertou o gol corintiano dez vezes e transformou o goleiro adversário no melhor do jogo. Não havia nenhum fenômeno, nenhuma jogada genial, o líder do Campeonato Paulista apenas exibia confiança e dedicação tática, preenchendo melhor os espaços do campo, criando dificuldades na condução da bola para o ataque corintiano, que tinha Edno improvisado na função de Ronaldo.

Dentro de suas limitações técnicas, o Palmeiras mostrava segurança, sabia o que estava fazendo, mas parava nas mãos do goleiro. Felipão cuidou bem do Corinthians, definindo a marcação com rigidez: Cicinho x Jorge Henrique, Rivaldo x Danilo, Márcio Araújo x Ramirez, Marcos Assunção x Jucilei, Luan x Alessandro e Tinga x Fábio Santos.

A vitória pode melhorar o clima entre torcedores e jogadores, mas não serve para mostrar um Corinthians diferente, mais organizado ou mais raçudo como sonha sua torcida. Longe disso. É fato: a equipe jogou mal e venceu, apenas isso. É óbvio que o placar servirá para mudar a análise da verdade do campo. Na coletiva de Tite, o time foi muito melhor que na partida.

Vamos para a frieza dos números: foram apenas dois chutes ao gol de Marcos, autor de uma grande defesa aos 5 minutos do primeiro tempo e mais nada.

Momentos como este da história corintiana reafirmam nas cabeças doentes o controle da instituição pela força. Gente que precisa de tratamento médico especializado e de ação firme das autoridades.

Demitir Tite é pura crueldade, é criar um culpado e justificar a atitude desses bandidos, do crime organizado e agora também uniformizado. Gente que vai continuar por aí, aterrorizando, recebendo balas de borracha e bombas de efeito moral. Mas por aí.

Todas as alternativas para explicar o fracasso na Taça Libertadores são verdadeiras: com o time mal fisicamente, os rendimentos técnico e tático mostram-se comprometidos. A venda de Elias criou um problema no meio de campo não solucionado pelo treinador no pouco tempo dedicados aos treinamentos. Faz parte do futebol.

Mas por que será que o início de temporada de muitos clubes grandes é sempre assim, instável? Não está na hora de a cartolagem assumir sua responsabilidade e trabalhar por uma boa preparação?

Após o fracasso na Libertadores qualquer explicação vira desculpa. O mundo todo sabia que o Corinthians precisava de um atacante. Antes para a reserva de Ronaldo, agora, na crise, para ser o titular da posição. Vencer o Palmeiras é o primeiro passo de um grupo muito distante do que pode jogar. Só isso.

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