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Antero Greco
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Vitória também ensina

É comum dizer que grandes derrotas embutem lições preciosas. Forma elegante de consolar o perdedor e de encorajá-lo a dar a volta por cima. O usual tapinha nas costas que não resolve nada, mas conforta. Atitude sábia é captar ensinamentos de vitórias notáveis, como os 2 a 1 de ontem sobre o Uruguai. A seleção não jogou bem, topou com o teste mais complicado até agora na Copa das Confederações, garantiu presença na decisão de domingo, arrancou aplausos da torcida e aumentou a audiência da tevê. Bacana, se aproveitar a euforia e fizer autocrítica firme. Porque precisa dela.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2013 | 02h07

Felipão deu a deixa de que não ficou com a visão ofuscada com a festa no Mineirão. Ainda na adrenalina do final do clássico sul-americano constatou o óbvio e se mostrou sensato: "Sabemos que não jogamos bem. Os jogadores também sabem." Na mosca! O treinador entendeu que funcionou a motivação, ponto forte de seu método e raiz de muitas conquistas. Faltaram, no entanto, técnica e estratégia.

Pessoal, o Brasil ganhou num sufoco tremendo, quase no fim da partida e num momento em que as duas turmas estavam com a língua de fora. Os uruguaios endureceram além do previsto - e por méritos, dedicação e aplicação. E que não se caia na vala comum, no estereótipo de que catimbaram, provocaram nossos bravos e inocentes rapazes, ou de que se comportaram como os homens maus dos filmes de faroeste. Raciocínio raso de quem prepara o caminho para explicar eventual tropeço ou para exaltar o bom resultado.

O Uruguai jogou futebol, explorou deficiências dos anfitriões, enveredou por uma opção e só não provocou mais enrosco porque Forlán desperdiçou pênalti em bela defesa de Julio Cesar no primeiro tempo. Fora isso, nem a posse de bola maior do Brasil na parte inicial resumiu o jogo. Não adianta ser superior nesse quesito, se não significa mais chances claras de gol, que foram raras.

Nem adianta argumentar que os espanhóis também abusam do tique-taque. Eles recorrem a essa artimanha para iludir os adversários, deixá-los grogues e partirem para as estocadas fatais. A seleção ficou com a bola, sem os toques curtos e produtivos dos campeões do mundo; porém, como consequência da dificuldade para furar a boa marcação dos vizinhos. Um ponto a aperfeiçoar. Muslera só não saiu invicto para o intervalo por causa do gol marcado por Fred aos 40 minutos.

No segundo tempo, o Uruguai equilibrou esse detalhe estatístico, também reteve a bola, empatou logo com Cavani - um dos melhores em campo - e perdeu num dos raros momentos de vacilo geral, na cobrança de escanteio que encontrou a cabeçada certeira de Paulinho, aos 40. Nos minutos que restaram, a tentativa de chegar a nova igualdade se limitou ao desespero.

O triunfo alegra, sempre. Só com muito espírito de porco pro sujeito lamentar que o time dele avance numa competição. O Brasil teve qualidades, como a persistência e a obstinação. Não pecou por prostração e inércia. Há jogadores que sobressaem na hora do aperto, como Fred (perfeito na colocação dentro da área para aproveitar rebote do goleiro) ou Paulinho (o volante que teima em surpreender rivais e fazer gols). Ou Neymar, que mesmo fixo no lado esquerdo do ataque participou das jogadas dos dois gols (como Paulinho).

Há o que aperfeiçoar. A saída de bola, por exemplo. Com marcação adiantada, a defesa tem dificuldade para iniciar jogadas; Daniel Alves. Thiago Silva e Marcelo tendem aos lançamentos longos e nem sempre precisos. David Luiz em certas situações confunde vigor com estabanamento, como no lance do pênalti em Lugano. No meio, Oscar busca espaço e parece sufocado por não cair mais pela direita como prefere. Hulk não cansa de lutar e não tem acertado o gol. Bernard entrou bem.

Felipão obteve a base que tanto apregoou no início dos treinamentos. Com essa vai ao Mundial. Mas não vejo como improváveis trocas até lá - e as substituições são pistas.

E agora, Espanha ou Itália.

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