Viúvos de 2002

Somos todos ainda um pouco viúvos de 2002. Não é outro o motivo para que os retornos de Ronaldo, Roberto Carlos, Ronaldinho e Rivaldo, para não falar de Luiz Felipe Scolari, venham ocupando tanto espaço na mídia. Sim, há o puro prazer de vê-los jogar de perto, de vê-los fazer alguma coisa especial de vez em quando, mesmo tão longe do auge. Mas isso também é sintoma do marasmo vigente no futebol local e da carência de novos ídolos. Entre a geração vitoriosa na Copa do Japão e da Coreia do Sul e a revelação de Neymar e Ganso no Santos do ano passado, existiu um hiato. Kaká, melhor do mundo em 2007, Robinho e Adriano não deram conta do recado - e o Brasil terminou 2010 sem nenhum jogador entre os dez melhores do mundo, nenhum meia ou atacante entre os 50!

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

Como já notei, é bastante irônico que hoje essa geração seja tão celebrada, principalmente depois que Ronaldo veio para o Corinthians, inspirando seus parceiros de pentacampeonato. O que se falou e se escreveu sobre eles antes e depois está registrado, ao menos na memória de quem apostava em seu talento: eles foram achincalhados porque estariam desvirtuando a escola brasileira do "futebol-arte" com seu vigor físico e seu marketing global. Hoje, quase nove anos depois do título, eles são exatamente o símbolo da técnica brasileira, da criatividade que gera resultados, da nobre tradição de Pelé, Garrincha e tantos outros. Ronaldo, claro, é o maior exemplo: as críticas eram tantas que, até hoje, só tem um lugar no mundo que insiste em dizer que ele não foi o melhor daquela Copa - e esse lugar se chama Brasil. Não esqueço a semifinal contra a Turquia que resolveu com gol de bico, pouco depois de a TV Globo inteira pedir sua saída...

Acontece que essa celebração, bem-vinda ainda que tardia, teria de se referir sobretudo ao passado recente, não ao futuro breve. Já estão depositando um Maracanã de esperanças em suas chuteiras, como se fossem ainda os melhores do mundo e como se pudessem redimir o declínio técnico do futebol jogado nos campos brasileiros, onde os meias argentinos têm brilhado bem mais. Veja o caso de Rivaldo. Depois da Copa de 2002, fez muito pouco. No Milan, como Adriano, foi para a "lixeira de ouro"; depois esteve na Grécia, onde fez gols de bola parada; em seguida, sumiu no Uzbequistão; aí voltou ao Brasil, comprou um time, o Mogi Mirim, e se escalou para jogar nele. Shazam! Ei-lo de repente no respeitado São Paulo, time que foi campeão brasileiro em 2006, 2007 e 2008. E com aura de quem vai resolver a considerável falta de inteligência que impera no meio-campo da equipe desde que Hernanes se foi.

Sobre Ronaldinho, que também não brilha há anos, pairam profecias ainda mais gloriosas. Ele não só vai dar títulos ao Flamengo, cujo elenco mediano poderia remediar com meia-dúzia de dribles e passes, mas também voltar à seleção brasileira e disputar aqui a Copa de 2014. Não foi esse mesmo Ronaldinho que decepcionou em 2006 e nem sequer foi a 2010? Não digo que seja impossível, mas nem se me pagarem o salário dele sou capaz de apostar que isso vá acontecer.

Quanto a Ronaldo, que disseram que ia afundar o Corinthians, ele fez o contrário: deu dois títulos ao clube e transformou suas finanças e estrutura. Mas é cada vez menos decisivo e, hoje, chega à pré-Libertadores num time que ataca pouco e mal, embora todos os jornais jurem que sejam três atacantes. Mesmo que passe pelo Tolima, a equipe vai precisar melhorar muito para ir longe no torneio que jamais conquistou. Como não se construiu alternativa para Ronaldo, terá de contar com sua inspiração mais uma vez. Tomara que venha, mas convenhamos que faz tempo que ele não precisa provar mais nada, assim como Roberto Carlos (que depois de um gol olímpico fez uma lambança de canela) e os outros. Está chegando a hora de deixar 2002 sorrir na foto e, enfim, fazer a fila andar.

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