Viva a dúvida

A experiência me ensinou que leitor gosta de ver cravada opinião em crônicas de jornal. Principalmente aquelas que antecedem jogos decisivos. Espera ler o prognóstico do articulista, como se fosse um palpite para a loteria esportiva, e no fim do dia vai conferir. Fica apreensivo, se o comentarista dá poucas chances para seu time; e se diverte a valer, se o infeliz do escrevinhador errar, o que é comum. Você que agora toma seu café da manhã me desminta se tiver coragem.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2011 | 00h00

Pois, para ninguém me acusar de ficar em cima do muro, deixo registrado aqui que considero o Santos favorito na final do Campeonato Paulista, nos duelos com o Corinthians. Cravo seco? Não, que não sou tonto, embora esteja no ramo há mais tempo do que certos cartolas mandam em clubes e federações. Mesmo que houvesse um fosso profundo a separar os dois times, não juraria por Deus que tal ou qual sairia vencedor sem uma saudável margem de dúvida.

Não existem verdades absolutas na vida - da qual faz parte o futebol, um esporte peculiar, em que muitos aspectos e retrospectos dos concorrentes podem no máximo apontar uma tendência, nunca o resultado. Só se pode ter certeza do placar quando houver arranjo prévio, mas aí é outra história, conversa mais pesada. A semana mostrou como é fácil quebrar a cara, ainda que se entre em campo com vantagem ou que se jogue em casa, com tudo a favor. Inter, Cruzeiro e Flu que o digam, na Libertadores, e o Fla, na Copa do Brasil. O Palmeiras? Esse é melhor nem falar...

Tudo bem, afirmei que o Santos está em melhores condições de ficar com a taça local, sem desconsiderar as chances do Corinthians. E tenho lá motivos para fundamentar tal sustentação. Tentarei explicá-los, com pouca certeza de que se tornem realidade, nos confrontos de hoje e do próximo domingo.

O Santos tem time melhor, mais talentoso, ainda que não seja uma filarmônica de Berlim. O Corinthians possui a eficiência e o ritmo de um bem afinado conjunto popular (agora, se usa banda, né?). O Santos encontrou em Paulo Henrique Ganso um maestro de passes apurados, além de contar com dois solistas de peso: Elano (recuperado de contusão) e Neymar. E alguns músicos que podem torná-lo harmonioso, se estiverem bem. Casos de Rafael, Danilo, Zé Eduardo, Arouca e Leo - estes últimos, se jogarem. O alvinegro de Tite tem Liedson como o crooner, além de Júlio César, Paulinho, Bruno César, Jorge Henrique como acompanhantes afinados e entrosados. E William, que costuma roubar a cena em aparições especiais, as canjas.

Música à parte, voltemos à bola. O Santos apresenta mais momentos de explosão. São diversos os exemplos de jogos em que acelera, pressiona, coage o adversário e o liquida sem dó. Não é tão implacável quanto aquele da primeira parte de 2010, mas sempre é bom lembrar que Ganso e Neymar lá permanecem. Com Muricy Ramalho esses arroubos têm sido menos frequentes, o que não significa que tenha virado um time retranqueiro. Sei que o torcedor santista espera o mesmo Santos arrojado. No entanto, é inegável que o sistema defensivo ficou mais ajustado. Para animar, Rafael coloca as manguinhas de fora, como mostrou contra o Américo, no México, ao fechar o gol. Bom sinal.

O Santos, no entanto, tem um desgaste físico adicional em relação ao Corinthians. No meio da semana, jogou no México e, após o clássico deste domingo, terá compromisso na Colômbia. Pode ser que vença com folga hoje, para entrar mais aliviado em campo na volta. Seria o ideal para ele. E, se ocorrer uma ampla vantagem corintiana? A pretensão santista pode ir para o espaço em sete dias.

Por isso, alego o direito de manter uma pitada de dúvida. Se não for pelas razões que abordei, que seja pelo menos por postura sábia. Costumo recorrer, nesses momentos, a um diálogo entre dois personagens de Luciano De Crescenzo, autor napolitano de muito sucesso nos anos 1980, 1990. No livro Il Dubbio (A dúvida), um sujeito diz para outro: "Só os cretinos não têm dúvidas". O outro pergunta: "Tem certeza disso?". E ouve como resposta: "Não tenho dúvida alguma." Portanto...

A bronca do Marcos. O goleiro do Palmeiras soltou o verbo, após a surra em Curitiba, e foi criticado. Prefiro gente boquirrota como o Marcos, que fala na lata o que pensa, do que dissimulados que agem na surdina.

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