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Viver de ilusão

Felipão divulga segunda-feira a lista dos jogadores que completarão o grupo para o amistoso com a África do Sul, um dos últimos testes antes da estreia na Copa, em 12 de junho. Há nomes certos, como o de Fred, o preferido dele para entrar em campo com a camisa número 9, em Johannesburgo e no Mundial. Restam vagas abertas, poucas, para a relação definitiva e oficial, aquela de maio.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2014 | 03h15

O estreitamento do funil leva jogadores a sonharem com a possibilidade de ser lembrados. Justo e correto que tenham tal sentimento. Se alguém trabalha sem ilusões, apenas para preencher o tempo, matar a fome e pagar as contas, desperdiçará o melhor da vida. Lutar pela sobrevivência é imprescindível, sem dúvida. Mas, curtir o que se faz, se mostra vital.

(A propósito de África do Sul. No aeroporto de Johannesburgo, em 2010, havia um faxineiro que ficava à porta do banheiro que estava sob responsabilidade dele. A todos que entravam, abria os abraços e, num sorriso amplo, dizia: "Bem-vindo a meu escritório.")

Um dos que devem sentir borboletas no estômago é Alan Kardec. Não sei exatamente onde, nem como ou por quê, de uma hora para outra se esparramou o comentário de que tem chances de entrar para a família Scolari, versão 2014. O centroavante do Palmeiras, longe de ser um craque, revela eficiência e regularidade. Sobressai no marasmo em que se encontra a posição. Não parece desatino cogitar de uma chance.

O treinador desconversa, fala em lobby, e não nega de pés juntos que Kardec esteja em sua mira. Despistar faz parte das artimanhas de Felipão. Dias atrás, comentou que continua a chamar Julio Cesar para o gol só para contrariar a opinião da imprensa. Brincadeira, claro. Mas, a seguir por esse raciocínio, o ideal para Alan Kardec seria a rejeição da mídia. Portanto, eu digo aqui: ele não merece convocação. Não o chame, Felipão. É uma ordem.

Kardec, no entanto, deve preparar-se para o "não". Todos já vivemos situações em que esperávamos, talvez, uma promoção, uma viagem, um prêmio e outros levaram. O baque existe, não há como negar. Daí a necessidade de bom trabalho psicológico, com respaldo de clube e família. O Palmeiras, ao que parece, põe atenção nesse detalhe. Para os palestrinos, importa que o atacante faça gols, muitos e cada vez mais, mas para o time no ano do centenário.

Cuidado especial merece Adriano. Depois de hibernação de mais de dois anos - elevo a conta para três e meio -, retoma a carreira. O Atlético-PR apostou na recuperação, ao estender-lhe a mão e oferecer nova oportunidade. Emagreceu, fez exercícios, cuidou-se e já jogou alguns minutos. Parabéns, coragem, e devagar com o andor.

Adriano mal pisou nos gramados e vi gente boa a prever-lhe lugar dentre os 23 da Copa. Qualidade, futebol, para disputar a competição tem de sobra. Também não o considero astro de primeira grandeza, nem perna de pau. Mas iniciar campanha em favor dele agora, com três ou quatro chutes na bola, é exagero, maldade até. O moço lida com tantos problemas, só lhe falta ter crises de ansiedade. Calma.

Felipão acumula rodagem suficiente para não cair em armadilhas, em brilharecos de momento. Não costuma apostar em cometinhas, ou atletas que aparecem, sobem e viram fumaça em três tempos. Vá lá que, como todo técnico, tenha suas cismas - Vampeta, Luizão, Edilson são exemplos de 2002, enquanto Alex foi preterido. A maturidade certamente ensinou-lhe a depurar escolhas. E assim será com o candidato a reserva de Fred. Ou titular, se o goleador do Flu se machucar. Isola!

Mil vezes! Por falar em Alex, o inoxidável 10 do Coritiba completou anteontem 1000 jogos como profissional, divididos sobretudo entre Fenerbahçe, Palmeiras, Cruzeiro e o próprio Coxa. Alex integra a casta, rara, dos atletas amados nos clubes pelos quais passou e respeitado por todas as torcidas. E, quanto mais se aproxima a aposentadoria, tanto mais refina o futebol. Merece aplausos de pé.

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