''Vivo meu momento Hollywood''

JOEL SANTANA[br]Técnico[br][br]CAMPEÃO CARIOCA DE 2010 COM O BOTAFOGO

Entrevista com

Sílvio Barsetti, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Nascido no subúrbio carioca, frequentador de boleros e tardes dançantes nos anos 70, Joel Santana foi um zagueiro de pouco prestígio até adotar a prancheta como seu principal instrumento de trabalho. Técnico de futebol desde 1981, é um colecionador de títulos e está entre os mais disputados do País.

Durante a sexta-feira e a manhã de ontem, esteve com um pé no Flamengo, mas resistiu e decidiu ficar no Botafogo. Nesta entrevista ao Estado, ele conta que se sente uma celebridade desde o fim de semana passado, quando foi campeão carioca pelo Botafogo. Descreve sua esperança de um dia servir à seleção brasileira e aponta Neymar como um craque que pode se tornar "um monstro sagrado".

Você quase desfalca o Botafogo logo no jogo da entrega das faixas (hoje, contra o Corinthians). O que motivou sua permanência no clube?

Quando eu soube que funcionários mais humildes, do setor de limpeza, chegaram a dizer que dariam do próprio bolso para eu ficar, aí não teve jeito. O carinho de todos no Botafogo pesou muito. Não podia deixar na mão os meus jogadores e a minha torcida.

Mas chegou a balançar com a proposta do Flamengo?

Quem é profissional vive do reconhecimento. Mas foi no Botafogo que eu levantei a minha pipa.

Como foram os últimos dias, após o título do Carioca?

Muito agitados por um lado. Houve também um assédio grande, como se eu fosse um astro de novela ou um personagem do Big Brother Brasil. Senhoras idosas me parando na rua, com abraços e beijos, conversando sobre futebol com uma naturalidade incrível. Estou no estrelato, vivo meu momento Hollywood.

Falta ainda em seu currículo um título de campeão paulista?

Eu gostaria de vencer em São Paulo, claro. Já estive no Corinthians numa fase ruim do clube (trabalhou também no Guarani). Se houver uma oportunidade de novo, será ótimo.

Romário disse que ele é o rei do Rio. Mas você quer tomar o posto dele?

Já tomei. Eu sou o rei do Rio, ganhei agora meu oitavo título, como técnico, do Campeonato Carioca. O Romário é o príncipe. Agora como cartola (Romário é gerente de futebol do América), ele vai longe e já está fazendo bastante sucesso.

Sua saída conturbada da seleção da África do Sul já ficou para trás?

Não guardo ressentimentos. Eu deveria ter saído quando acabou a Copa das Confederações (em junho de 2009). Pouca gente sabe, mas a origem do problema é outra. Eu tive uma pneumonia no Rio, ano passado, e começaram a inventar por lá que eu estava querendo prolongar a minha permanência na cidade. Depois, defendi que não adiantaria fazer amistosos contra Somália e outras seleções locais se quiséssemos preparação séria para a Copa do Mundo. Eu queria adversários fortes como Alemanha, Sérvia, Noruega, Irlanda. Perdemos vários desses amistosos, por diferença apertada, e deu no que deu. Engraçado que até a Copa das Confederações estava tudo certo. Um mês depois, estava tudo errado.

Parece haver uma expectativa crescente entre os sul-africanos de que a seleção anfitriã pode ir longe na Copa.

É folclore. Se passar da primeira fase, vai ser uma grande vitória da África do Sul. Pelo que sei, (os dirigentes) estão meio perdidos por lá. Trocaram médicos, roupeiros, vários profissionais da comissão técnica.

Você se irritou com um vídeo que circula desde o ano passado na internet, no qual algumas declarações suas em inglês são apresentadas com ironia...

Já morreu. Essa história foi sepultada, já teve missa de sétimo dia, com vela e tudo. Nada me machuca. Sou um ser humano igual a todo mundo.

Depois do Mundial, a tendência é que Dunga saia da seleção. Seria a vez de Joel na equipe?

Qual é o técnico que não tem esse objetivo? Se me chamarem para ser espião, olheiro, para fazer scout dos jogos da seleção, eu levo minha prancheta e vou, é claro. Mas nada de antecipar uma situação. O Dunga é quem está lá e torço pelo sucesso dele.

Neymar tem vez na seleção?

O Neymar é craque e pode virar um monstro sagrado. Mas é preciso tempo. O trabalho na seleção brasileira não é de 50 dias, é de três anos e meio. Primeiro, veio o clamor por Ronaldinho Gaúcho. Agora é pelo Neymar. Depois vai passar do Pato para o Ganso. Isso enlouquece qualquer treinador.

Logo na 1ª rodada do Campeonato Brasileiro há um clássico entre Santos e Botafogo. Qual a diferença entre os dois times?

O Santos é o futebol-espetáculo. O Botafogo é o futebol-operário. Tem uma outra diferença. O Botafogo já conquistou o Estadual e eu já posei para um monte de fotos ao lado da taça. O Santos ainda não chegou lá.

A prancheta, como seu instrumento preferido de trabalho, tem data para ser aposentada?

Ela me acompanha há 30 anos. De que adianta ter laptop, ficar enganando no banco de reservas de cabeça baixa e depois deletar tudo? Tem treinador engomadinho por aí, de gel no cabelo, unha feita, que não ganha nada faz tempo. Eu acabei de ser campeão.

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