Vôlei: médicos divergem sobre Alessandra

"Está pior ainda. Essa me deixou mais pasmo!" Com esta exclamação, o presidente da Câmara Técnica de Anemia Falciforme da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Paulo Ivo, reagiu à nota oficial da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) que justificou a desconvocação da jogadora Alessandra, a Neneca, de 16 anos, da seleção feminina infanto-juvenil.No início do mês, a atleta foi cortada por apresentar em seu sangue o traço falciforme (no qual um dos gens responsável pela produção de hemoglobina é mutável), que para a comissão médica da entidade pode provocar a morte súbita."O teste de falcizacão da Alessandra deu positivo. Mesmo sem apresentar sintomas, o correto seria o aprofundamento do caso", escreveu na nota o médico clínico da CBV, João Olyntho.A nota segue afirmando que "por precaução, Alessandra foi submetida a um novo exame, denominado eletroforese de hemoglobina. Nele, foi detectada a presença de 37% de hemoglobina S (em forma de foice). Diferente do que afirma o texto de Carlos Minc (deputado estadual do PT, que auxiliou a atleta), Alessandra não apresenta o traco falciforme, já que isso só poderia ser afirmado através de um exame genético."O médico Paulo Ivo contestou essa alegação e explicou que, há muito tempo, o traço falciforme passou a ficar caracterizado quando um indivíduo apresenta menos de 50% de hemoglobina S na eletroforese, o caso de Neneca. "Não precisa de exame genético algum", garantiu.Já o médico da CBV destacou na nota que a afirmação de que Neneca possui somente o traço falciforme foi "leviana e precipitada". "O percentual encontrado no sangue da Alessandra foi significativo e, por si só, já configura uma situação de risco", afirmou Olyntho. "O fato de Alessandra não apresentar os sintomas, não exclui a possibilidade do primeiro sintoma apresentado ser a morte súbita", completou.Ao saber deste novo trecho da nota, Paulo Ivo reagiu com indignação. "O traço falciforme não é uma doença. Não leva a pessoa a desenvolver a anemia falciforme e a Alessandra não vai ter sintoma algum", constetou.Na nota, o médico da seleção ainda citou o hematologista responsável pelo diagnóstico em Neneca. "Levamos os resultados para o professor titular de hematologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Dr. Wolmar Pucheri. Segundo ele, Alessandra poderá levar uma vida normal, ativa. Mas ele não desconsiderou a possibilidade de uma complicação severa durante as atividades realizadas de alta intensidade", argumentou Olyntho. "Segundo Pucheri, a literatura médica afirma que existem casos de morte súbita em atletas com essa característica." O presidente da Câmara Técnica de Anemia Falciforme da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também não acatou a nova argumentação. "Tudo o que eles (CBV) falaram está errado", afirmou Paulo Ivo, lembrando que a entidade está tratando o caso de Neneca como se o traço falciforme fosse capaz de causar os mesmos danos da anemia falciforme. "Ela é perfeita e não terá nenhum problema médico."

Agencia Estado,

29 de abril de 2004 | 21h05

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