Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Vôlei recebe e dá recado a garotos infratores

Dezenove menores visitam a seleção masculina em Saquarema e ganham orientação dos craques

Sílvio Barsetti, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2011 | 00h00

Era para ser mais um dia comum de treino da seleção masculina de vôlei, com o rigor de praxe do técnico Bernardinho e o empenho dos atletas que são referência do esporte do Brasil no mundo todo. Mas a rotina no ginásio principal da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), em Saquarema, litoral norte do Rio, foi alterada pela presença de um público reduzido e atento. Dezenove menores infratores que cumprem pena em regime semiaberto visitaram pela primeira vez um núcleo esportivo e comoveram a elite do vôlei nacional.

Primeiro, eles assistiram à atividade da parte de cima da arquibancada. Impressionavam-se com os saques de Rodrigão e Murilo e com os levantamentos de Bruninho. Em pequenas rodas, conversavam sobre vôlei e futebol, enalteciam Bernardinho e pareciam deixar para trás os delitos que os privaram do convívio com a família e os amigos. Quase todos ali não têm ou não conhecem os pais. Sobram, no entanto, palavras afetuosas para as mães.

Depois de duas horas de espera, desceram para a quadra e receberam autógrafos e alguns conselhos. O líbero Serginho lembrou de sua infância pobre em Pirituba, São Paulo, para contar aos meninos que encontrou no esporte o caminho de sua realização pessoal e profissional. "Eu disse ao grupo que sempre há tempo para a recuperação. Que é preciso ter força de vontade."

Destacado dos atletas, Bernardinho foi o mais procurado. De um rapaz de 17 anos, do núcleo de Niterói, o técnico ouviu uma advertência. "Você é muito nervoso. Tem que ser mais calmo." O campeão do mundo sorriu diante da espontaneidade de seu interlocutor, com quem concordou. "Eu sei disso, mas a adrenalina de um jogo não é fácil."

A visita foi encerrada com uma partida que teve de um lado o reforço de Leandro Vissotto, um dos gigantes da seleção, com 2m12. "Queriam saber como eu cresci tanto. Eu ganhei mais que eles com essa experiência. Que busquem a dignidade se espelhando no exemplo do esporte."

Os adolescentes estão sob os cuidados do Departamento Geral de Ações Socioeducativas, da Secretaria de Educação do Estado. Ao deixarem a CBV, alguns já apostavam num futuro promissor. "Gosto muito de vôlei, só não sabia que o Bernardinho tinha parado de jogar", disse um deles, de 16 anos, logo convidado pelo Instituto Viva-Vôlei, ligado à CBV, para integrar uma escolinha na cidade de São Gonçalo.

"Fiquei muito feliz com o que houve aqui. Isso aumenta a nossa autoestima e a deles também", comentou Bernardinho. A seleção se prepara para o Sul-Americano, a partir do dia 19, em Cuiabá.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.