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Ugo Giorgetti
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Volta à pátria

Sei que o assunto está ficando chato, mas vamos lá. Pato chegou mal da Europa. Muito bem, pergunto: quem chegou bem da Europa? Qual o jogador brasileiro que, de volta á pátria, esteve perto de mostrar alguma coisa do futebol que tinha quando saiu? O Ronaldo Gaúcho? O Luis Fabiano? Por que o Pato deveria ser a exceção? Não estava, aliás, jogando nada quando ainda estava por lá e o Milan vivia imaginando jeitos de se livrar dele. Até eu, que não vejo futebol internacional, que não assisto aos jogos do Milan, sabia disso. Será que ninguém no Corinthians seguia os passos do Pato?

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2014 | 02h02

Às vezes acho que esse propalado mundo novo das comunicações não passa de uma alucinação cultivada por alguns loucos, pois não é possível a surpresa coletiva da torcida do Corinthians ao constatar que o Pato estava jogando um futebol pra lá de modesto. Onde estão os modernos sistemas de comunicação, laptops, Ipads, tablets, o diabo, que conecta tudo com todos? A ninguém ocorreu dar uma olhada em como o Pato estava jogando? Então, por que a surpresa? Até os problemas físicos que ele estava tendo na Europa não eram segredo. Aqui ele fez tudo dentro do esperado. Jogou um futebol modesto e nunca conseguiu entrar plenamente em forma e jogar 90 minutos como qualquer jogador. Nada além do esperado. Só que agora o mundo desabou sobre ele e creio que a razão esteja no salário. Sempre as cifras.

Lê-se em qualquer jornal que o Pato ganha cerca de R$ 800 mil por mês. Como cifras me deixam cada vez mais boquiaberto, repito: o Pato ganha R$ 800 mil por mês. Esse é talvez o verdadeiro problema: a diferença entre o salário e o futebol jogado. Para justificar essa quantia, o Pato tinha de ser um jogador verdadeiramente extraordinário, coisa que nunca foi, nem em seus melhores dias. Subiu rápido, deixando no seu rastro a lembrança de um jogo no Parque Antártica em que destruiu a defesa do Palmeiras. Alguém lembra de outro jogo absolutamente memorável do Pato? No embalo dos delírios do futebol mundial de alguns anos atrás, mais particularmente antes da crise que se abateu sobre a Europa, Pato foi pra a Itália como novo gênio do futebol brasileiro e naturalmente começou a ser pago como tal. As profecias nunca se realizaram, nem na Itália, nem nas vezes em que foi convocado para a seleção brasileira, em razão de seu status de jogador do Milan.

O Corinthians aparece quando, na Europa, a carreira do Pato estava próxima do fim. Só que aí surge um outro problema. Quando um jogador volta para o Brasil, apesar das juras de amor, dos discursos sobre emprenho, comprometimento, etc, exige ganhar praticamente o que ganhava na Europa e é aí que as coisas se complicam. Ao invés de aproveitar o momento para colocar as coisas no seu devido lugar, isto é, mostrar ao jogador que seu status não é mais o mesmo e que a festa acabou, o clube dá o que ele pede, talvez num inútil lance de ostentação de riqueza, dentro de um futebol falido. "Vejam como podemos pagar igual à Europa", parecem, dizer orgulhosamente. E o craque de R$ 800 mil começa a jogar aqui seu verdadeiro e único futebol que vale R$ 80. E a torcida enlouquece. Quem é o verdadeiro culpado? O jogador? Não, ele jogou sempre mais ou menos a mesma coisa. Exigiu o que achava que valia. Se alguém pagou é porque concordava com ele. Acho que o erro do Pato, como de vários jogadores que voltam da Europa, é mal avaliar o que lhes irá acontecer no Brasil. O Pato devia ter continuado na Europa. Não no Milan, mas na Fiorentina, ou mesmo até na Udinese. Baixar alguns zeros do salário, sempre dentro da zona do euro e deixar a vida correr.

Quando seu salário, convertido em reais, tivesse caído para um nível aceitável, poderia voltar tranquilamente para o Brasil. Ganhando bem menos do que na Europa, mas podendo sair de casa para tomar tranquilamente um café na padaria ali da esquina.

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