Volta por cima

Quando a gente ouve falar que o mundo dá voltas, costuma levar na brincadeira, pois se trata de chavão dos mais manjados. Muito papo de autoajuda. Mas não é que o ditado popular funciona? Tome como exemplo o clássico Atlético-MG x Grêmio, marcado para hoje em Belo Horizonte. Há dois personagens envolvidos nessa partida que estavam por baixo, meses atrás, e se recuperaram. O Brasileiro fez bem para Vanderlei Luxemburgo e Ronaldinho Gaúcho - e, claro, suas respectivas equipes.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h05

Ambos são figurinhas carimbadas do futebol e ostentam enorme coleção de títulos, prêmios e reconhecimento pela carreira, cada um em sua área. Tiveram caminhos cruzados na virada do ano, ao trabalharem juntos no Flamengo. No entanto, romperam e se dispersaram.

O pofexô saiu antes da Gávea - e, para tanto, pesaram pra burro os desentendimentos com o astro internacional. Luxemburgo não suportava mais o espírito solto e arreliento do gaúcho, sempre muito dado a atividades sociais. Ronaldinho nunca escondeu sua vocação para bon vivant, para desespero do técnico e alegria dos amigos. Um tempo depois, foi o ex-melhor do mundo quem pegou as próprias tralhas dos armários e largou o rubro-negro a ver navios, já que ele não via a cor do grana (alta) do contrato acertado em seu retorno, em janeiro de 2011.

O destino parecia pronto a pregar-lhes uma peça. Luxemburgo ajeitou-se no Grêmio, já que o mercado de São Paulo, Rio e Minas voltou-lhe as costas. Não que o convite no Sul significasse descer de patamar. Longe disso! Apenas parecia incompatível um centro mais sisudo com o temperamento do técnico. A aventura começava com um tremendo ponto de interrogação. Será que a turma do Sul, esquentava por natureza, iria acostumar-se aos métodos dele?

Ronaldinho também deu guinada em sua trajetória, errante nos últimos anos, e vislumbrou no Atlético-MG a saída que lhe restava. Não havia espaço para ele no Rio, nem em São Paulo e sequer em Porto Alegre, a terra natal. O Inter não o queria, o Grêmio não deseja vê-lo nem pintado de ouro, depois da falseta do ano passado, ao preferir o Fla, mesmo com as regalias que lhe foram oferecidas. A alternativa restante era o Galo, que lhe escancarou as portas. O que seria de Ronaldinho em BH?

O que se viu, nas duas situações, foi reviravolta. Luxemburgo adaptou-se com facilidade ao Grêmio, assim como Ronaldinho virou referência no Atlético. O treinador convenceu alguns tubarões da bola a abraçarem seu projeto (não vou escrever pojeto) e não tem do que se queixar: Elano, Kléber e Zé Roberto se encaixaram à perfeição na equipe. Ganso bateu na trave - o Santos até preferia vê-lo mais distante do que instalado no Morumbi.

Os ares mineiros influenciaram Ronaldinho, que iniciou de maneira discreta a trajetória no Atlético. Devagarinho, com sutileza, tomou posse do setor esquerdo da equipe, afinou-se com Jô e Bernard, desencavou seus dribles, os lançamentos precisos e batida mansa na bola. E no que isso foi desembocar? Em uma campanha impecável, que faz o alvinegro vislumbrar uma conquista com a qual sonha desde 1971, época do "Brasil Grande", nos anos de chumbo da política.

Não sei se Luxemburgo e Ronaldinho são desafetos. Isso é assunto deles. Importa que ganharam fôlego, num momento em que se decretava o declínio irreversível para a dupla. São duas personalidades polêmicas, é verdade. Mas não se lhes pode negar relevância. E ainda bem que se reergueram. Eles enriquecem o futebol.

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