Wanderlei Silva cogita encerrar carreira no UFC desafiando Vitor Belfort

Técnico do próximo TUF Brasil, atleta fala sobre luta contra Sonnen, aposentadoria e manifestações

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2014 | 14h05

SÃO PAULO - Wanderlei Silva parece incansável. Na agenda, gravações, entrevistas, tempo para a família e treino, muito treino. É assim que o veterano vai se preparando para o seu próximo desafio, enfrentar o norte-americano Chael Sonnen, no dia 31 de maio. Apesar de ter iniciado seu camp só agora, o "Cachorro Louco" passou por uma longa carga de treinamentos ao lado de seus pupilos no The Ultimate Fighter 3, reality show que vai ao ar em março e mostra o dia a dia de quem aspira a uma vaga no UFC.

Assumir o papel de técnico em rede nacional não é novidade para Wanderlei. O curitibano já participou outras duas vezes do programa. Mas agora tudo é diferente. Empolgado pelos últimos resultados, ele diz estar mais maduro, inclusive para saber o momento de parar - algo que espera vir apenas depois de uma nova chance contra um antigo desafeto Vitor Belfort. Por isso, esbanja confiança, principalmente quando o assunto é o falastrão Sonnen, que treinará a equipe adversária no reality. "Ele vai apanhar de qualquer jeito. Será um combate muito violento", promete.

Mas superar Sonnen e voltar a lutar pelo cinturão contra Belfort não são os únicos planos do "Cachorro Louco". Em outubro, provavelmente Wanderlei voltará à TV, mas como candidato a deputado pelo PSDB. A veia política, inclusive, tem feito o lutador não poupar palavras para defender os recentes protestos pelo Brasil. "Querem votar que a manifestação seja denunciada como terrorismo. Isso é um absurdo. É manifestação popular", defende.

Como é participar de novo de um reality show do UFC?

WANDERLEI SILVA - Estou com mais experiência, consegui conduzir melhor os atletas participantes, casar melhor as lutas e até entender melhor como funciona o programa.

É muito diferente treinar ao lado de um lutador de fora?

WANDERLEI SILVA - Sim, porque aqui a gente grava duas vezes por dia, tem a carga psicológica, você fica triste num dia, feliz em outro. Aí tem o cara que se machuca, tem o que tem saudade da família, então você precisa ser meio psicólogo, meio paizão mesmo. E junto com isso tem o outro cara que fica falando besteiras a seu respeito, coisas ruins. Fico azedo, meio bravo, me dá vontade de ir lá e quebrar tudo. Mas não faço isso, né? Me controlo.

Como foi a participação da Hortência, do basquete, e da Isabel, do vôlei?

WANDERLEI SILVA - Com o lutador é assim: a gente chega e diz: "Quem quer descansar?" E ninguém fala nada, todo mundo é machão. Mas elas chegavam para conversar e eles falavam: "Estou meio cansado, minha perna está machucada, estou com dor no braço...". Então é tipo mãezona, né? Elas tiravam deles coisas que a gente não conseguia tirar.

Como foi receber a notícia de que a luta contra o Sonnen seria no Brasil?

WANDERLEI SILVA - Eu soltei vários rojões lá onde moro. Fiquei muito feliz, estava com muita vontade de lutar aqui no Brasil de novo, principalmente contra o Sonnen. Vou falar com o patrão para não fazer um evento para 10, 15, mas para 60 mil pessoas. Aproveitar toda essa mídia que o programa e a luta vão gerar, para que a gente consiga mostrar o esporte para mais pessoas.

Você acha que todas as coisas que o Sonnen já falou sobre o Brasil acaba ajudando a promover as lutas, o esporte, o UFC de modo geral?

WANDERLEI SILVA - Sim, acho que a polêmica tem um lado bom. O ruim é quando, por exemplo, a gente se estressa aqui por causa das piadinhas que ele faz do País, dizendo que aqui é uma selva, falando das crianças de rua, que aqui não tem internet, que as mulheres são garotas de programa... São coisas pesadas para se falar. Eu o chamei para conversar, dei uma lição de moral no cara. Aí ele disse: "Mas era só promoção". Qual a diferença de ser e não ser promoção? Se eu falo que seu trabalho é uma porcaria, isso é promoção? Não tem essa. Promova o que você quiser, fale de seu oponente, mas não faça mais piadas como essas porque você pode criar uma inimizade com uma nação.

E você conversou com ele durante o programa mesmo?

WANDERLEI SILVA - Também... Mas já tinha falado antes, quando teve a luta do Anderson Silva.

E ele aceitou treinar lutadores brasileiros...

WANDERLEI SILVA - Sim, você vê os lutadores brasileiros defendendo o time. Ele foi super bem recebido, bem tratado, como rei, com toda a segurança. O cara viu que nosso País é maravilhoso. Tem problemas? Tem, mas são nossos problemas. Não tem de vir ninguém de fora dar pitaco.

Pensando na luta agora. Estar próximo do Sonnen te ajudou a já definir uma estratégia?

WANDERLEI SILVA - A gente já mapeou os pontos fortes e fracos dele. Agora que vou começar meu camp. Vou treinar em Curitiba a partir da próxima terça-feira. Recebi o apoio dos maiores mestres do Brasil. O (Luiz) Dórea disse que vai me ajudar no boxe; o Fábio Gurgel, no jiu-jítsu; o Dedé Pederneiras também me ofereceu ajuda, ele é um ótimo estrategista. E ainda tem meu time, estou agrupando os melhores mestres numa corrente.

O Dedé, inclusive, disse que o Sonnen era previsível. Você concorda?

WANDERLEI SILVA - Ele é previsível sim. Dentro da luta a gente sabe que nível ele está, o grau de periculosidade dele, os golpes que faz.

Vai ser uma luta fácil então?

WANDERLEI SILVA - Fácil não. Ele também não é bobo de vir mal preparado aqui, porque ele vai levar uma surra. Ele vai tomar uma surra de qualquer jeito. Mas ele pode apanhar menos, né? Essa luta vai ser uma luta muito violenta, isso eu prometo.

Você acha que toda essa experiência que tem conta pontos em cima do Sonnen?

WANDERLEI SILVA - Conta sim, porque é a minha bagagem. Como dizem, bater é muito bom, mas apanhar nem todo mundo gosta. Ele é um cara que se entrega fácil, toma uma, duas, pega o cheque dele e vai embora. Eu não consigo ser assim. Eu entro ali e só se o cara tirar minha alma mesmo para conseguir levar. E o povo sente isso, a garra, a gana.

Qual é a sua opinião sobre o que está acontecendo hoje em relação aos protestos que tomaram o País desde o ano passado? Existe toda uma discussão sobre violência no MMA, como é que você vê isso em relação aos protestos?

WANDERLEI SILVA - Essa violência é culpa da má administração do Brasil. Se houvesse melhorias... Mas é revoltante você ver alguém que te representa te roubando, tendo vida de marajá... A maior violência que pode ter é uma mãe chegando com o filho desmaiado no hospital, tendo de chutar a porta porque os caras não querem atender. E se o filho dela morre, pelo amor de Deus? Não existe violência maior do que essa. Acho que esses caras que saem quebrando tudo são contratados por quem quer afastar pessoas de bem da rua, porque elas ficam com medo da violência. Agora querem votar que a manifestação seja denunciada como terrorismo. Isso é um absurdo. É manifestação popular. Há os baderneiros, que devem ser punidos dentro do que eles fazem, mas não pode ser tirado o direito do povo de se manifestar. A bomba vai estourar, não tem como querer reprimir.

Você manifestou a vontade de se candidatar a deputado nas eleições deste ano. Mas e a carreira de lutador?

WANDERLEI SILVA - Faz algum tempo que eu luto porque gosto, é a minha paixão, não consigo ficar sem isso aqui. É como se fosse uma droga, a adrenalina da competição, o cara te provocando... Eu faço isso desde os meus 13 anos de idade. Já ganhei todas as glórias que um atleta pode ganhar. E eu já tenho 37 anos, né? Embora pareça só 36, porque eu tô bem conservado (risos). Mas a gente tem de saber o momento de parar, e esse momento virá com a minha performance. Eu tenho lutado bem, minhas três últimas lutas ganhei bônus, no ano passado minha luta foi eleita a segunda melhor do ano, só perdeu para a do Jon Jones contra o sueco. Mas a gente tem de respeitar o tempo.

Tem alguém que você ainda quer enfrentar?

WANDERLEI SILVA - Eu queria pegar o (Vitor) Belfort. Se ele ganhar a próxima luta dele e eu também, aí eu gostaria de fazer essa luta.

Vai pedir essa luta para o Dana White?

WANDERLEI SILVA - Pelo cinturão? Por que não? Aí eu ganho o cinturão, coloco o cinturão lá e falo: "Pessoal, muito obrigado!"

Daí você vai ficar animado e querer lutar mais e mais...

WANDERLEI SILVA - Não, não. Daí eu paro. Na verdade, eu luto porque as pessoas me pedem, porque eu amo isso. Quando você entra ali (no octógono) e ouve aquela galera gritando, aquilo ali não tem como comprar. Essas glórias terrenas são muito legais.

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