Washington, o destemido

Fratura nas mãos não diminuiu sua determinação

Wilson Baldini Jr., SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2008 | 00h00

Enfrentar os grandalhões da categoria meio-pesado (até 81 quilos) na Olimpíada de Pequim não será problema para Washington Silva. Aos 30 anos, o pugilista, que nasceu em Diadema, viveu em Rio das Almas, na Bahia, e começou a lutar boxe no Corinthians sabe como poucos superar os obstáculos que aparecem na vida.Washington foi o único brasileiro a conquistar uma vaga para os Jogos Olímpicos no 1º Torneio Qualificatório das Américas, em Port Spain, Trinidad e Tobago, nesta semana.Depois de passar a infância na Bahia, Washington voltou a a São Paulo em 1997, com 19 anos. Estava desempregado. Para ganhar a vida, trabalhou como segurança e gandula no Corinthians. Como o clube do Parque São Jorge possuía uma equipe de boxe, Washington passou a treinar. Os treinamentos exigiam dois períodos, o que atrapalhava as obrigações como segurança. O clube, então, resolveu mantê-lo como funcionário e, dessa forma, o pugilista pôde se dedicar totalmente à nobre arte. Em 1999, ganhou o tradicional torneio da Forja dos Campeões, que revelou os maiores talentos do boxe brasileiro, entre eles o lendário Eder Jofre, ainda lutando na categoria dos médios. Sua forte pegada o levou a acumular vitórias por nocaute nas conquistas dos títulos paulista, brasileiro e no Torneio dos Campeões.FRATURASWashington vai disputar sua segunda Olimpíada. Ele esteve em Atenas, há quatro anos, mas não conseguiu passar por Ali Ismayilov, do Azerbaijão, e foi eliminado na primeira rodada. Durante a preparação, sofreu uma fratura na mão, a segunda da carreira. Problema superado apenas três semanas antes do início do Pré-Olímpico de Tijuana, no México. Com muito esforço e dedicação estava garantida sua participação na maior competição esportiva.Washington é muito querido entre as pessoas que vivem no boxe brasileiro. De estilo agressivo, sempre busca a luta no corpo-a-corpo. No Pré-Olímpico de Trinidad e Tobago sua única derrota foi para o porto-riquenho Carlos Negrón, de Porto Rico, um adversário de quase 2 metros de altura. Washington não conseguiu encurtar a distância e acabou dominado pelo oponente, que marcou 12 a 4, com grande facilidade.A disputa pela medalha de bronze, que valia a vaga em Pequim, foi diante do norte-americano Christopher Downs. A maior tradição do boxe dos Estados Unidos não foi problema para o brasileiro, que entrou como ''zebra'' no ringue de Trinidad e Tobago.Mas, mais uma vez, superação foi a marca de Washington, que venceu apertado os dois primeiros assaltos (2 a 0 e 2 a 1) e garantiu praticamente sua vitória no terceiro round, ao marcar 5 a 1. Com a extensa vantagem (9 a 2), o brasileiro só administrou o placar e empatou nos dois minutos finais por 1 a 1.Washington, que mede 1,79 metro, também representou o Brasil nos dois últimos Jogos Pan-Americanos. Em 2003, na República Dominicana, caiu três vezes no terceiro assalto, diante do dominicano Argenis Casimiro. No ano passado, no Rio, decepcionou ao perder na estréia para Christopher Downs, o mesmo oponente na disputa da medalha de bronze, anteontem, em Trinidad e Tobago, que lhe garantiu nos Jogos de Pequim em agosto.Washington e os demais lutadores, que poderão conquistar uma vaga na Guatemala, no mês que vem, terão como principal objetivo conquistar uma medalha, coisa que o pugilismo nacional não consegue há 40 anos. O único pugilista do Brasil a subir em um pódio olímpico foi Servílio de Oliveira, em 1968, na Cidade do México, onde ficou com o bronze.CUBABrasil e Cuba foram os únicos que levaram a equipe completa (11 boxeadores) para Trinidad e Tobago. Mesmo com uma equipe renovada, os cubanos dominaram amplamente a competição e garantiram nove vagas para Pequim - superando o fato de que cinco campeões olímpicos abandonaram a delegação nos últimos dois anos (quatro por deserção e um por aposentadoria). Com medo de novos abandonos, os dirigentes cubanos resolveram não enviar representantes do país no Mundial de Chicago, no ano passado.Por coincidência, o representante de Cuba na categoria de Washington Silva foi eliminado nas quartas-de-final, facilitando o trabalho dos outros pugilistas.

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