William, brasileiro com jeito argentino

Levantador do Cruzeiro passou 4 temporadas no país vizinho, é ídolo por lá e tem até convite para se naturalizar

Amanda Romanelli, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2011 | 00h00

A era do repatriamento, inaugurada há dois anos na Superliga Masculina, trouxe de volta ao vôlei brasileiro ídolos do quilate de Giba e Murilo. Mas também deixou órfão um time argentino, que acompanha, à distância e com saudades, a atuação marcante de William Peixoto Arjona.

Praticamente desconhecido dos brasileiros, o levantador do Sada Cruzeiro aproveitou a onda dos retornos para deixar o Drean Bolívar, da Argentina, onde atuou de 2006 a 2010. Mas convive com o paradoxo de ser ídolo no país vizinho, a ponto de ter sido convidado a se naturalizar, hipótese que o paulista de 31 anos ainda considera. Amanhã, no Ginásio do Mineirinho, William terá contra o Sesi a grande chance de, enfim, se apresentar ao público brasileiro - e, espera, com a medalha de ouro no peito.

Vencer a Superliga não é uma novidade - ele foi campeão 15 anos atrás. "Foi em 1996, no Report/Suzano. Era um time que tinha o Marcelinho como levantador, também o Giovane (hoje é técnico do Sesi), o Max, atletas da seleção. Eu era juvenil, mas já fazia parte do time."

A partir dali, William assumiu a postura que determinou sua carreira: a procura por times que lhe permitissem atuar. Sempre. "Optei por mostrar meu jogo. Gosto de fazer jogadas ousadas, difíceis. Meu prazer é estar em quadra", admite. "Por isso, nem sempre joguei nas equipes de maior visibilidade, mas naquelas em que era titular."

Outra predileção foi a possibilidade de dividir a vaga com um atleta de seleção. Neste caso, Ricardinho, agora no Vôlei Futuro, foi companhia constante. "Enquanto ele estava na seleção, eu jogava. Quando ele voltava, aprendia", explica. "Isso aconteceu uns dois ou três anos. Muito do meu jogo é baseado no dele."

Aventura portenha. William sempre é questionado sobre o período em que passou na Argentina. Na resposta, também não há variação. "Fui para a Argentina por causa do Weber", eis a resposta, curta e direta.

Javier Weber, técnico da seleção argentina, foi um dos grandes levantadores do vôlei. "E, para mim, é o melhor técnico do mundo", pontua William. Atuou no Brasil, como jogador e treinador. E foi quem convidou o jogador para o ambicioso projeto do empresário Marcelo Tinelli, homem forte da TV argentina.

"O Bolívar queria ser o melhor time do mundo. E o meu sonho era jogar com o Weber", lembra. Então o sonho virou realidade. Em quatro anos, a equipe disputou 22 títulos - ganhou 21, não só na Argentina, mas também na Itália, na Espanha, no Brasil... William, que virou ídolo, ganhou o apelido de "mago" e o convite para a naturalização.

O processo foi interrompido com o retorno ao Brasil. "Eu precisaria morar lá por mais um ano. Não é algo simples, mas pode ser retomado. Sei que as portas estão abertas." Mas a saudade de casa, a vontade de ser visto pelos sobrinhos, a oportunidade de ser o regente de uma equipe com condições de brigar pela Superliga... Tudo isso pesou. "Já tenho 31 anos, não sei por mais quanto tempo vou jogar. Então, tudo foi colocado na balança."

Para chegar à decisão, o Cruzeiro passou por batalhas com o Pinheiros/Sky, de Giba e Gustavo, e o Vôlei Futuro. "Foi incrível passar por equipes que fizeram investimentos maiores e tinham grandes valores individuais."

Conta a favor do Cruzeiro, porém, a disciplina tática da equipe montada por Marcelo Mendez - por acaso, um argentino. "Esse é o meu "carma"", brinca William, que elogia o treinador. "As equipes dele são equilibradas, competitivas. E o fato de ser argentino ajuda. Muitas vezes falamos em espanhol no banco. São muitas câmeras, microfones."

A lamentar, diz William, apenas a disputa de um campeonato difícil em jogo único. "Não gosto muito, mas é a regra. Na Argentina, a final é melhor de sete jogos, como na NBA."

QUEM É

WILLIAM PEIXOTO ARJONA

Clube: Sada Cruzeiro

Posição: Levantador.

Idade: 31 anos

Altura: 1,85 m

Peso: 78 kg

Clube anterior: Drean Bolívar (ARG)

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