Robson Fernandjes/AE
Robson Fernandjes/AE

Xodó da torcida do Corinthians, Romarinho ficou 4 meses sem clube

Atacante suspendeu o pagamento de prestações do automóvel e pensou em mudar de profissão

Anelso Paixão, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h09

SÃO PAULO - Romarinho, o novo xodó da torcida do Corinthians, por muito pouco não abandonou o futebol após o Campeonato Paulista de 2011. Rebaixado com o time do São Bernardo, o garoto, então com 20 anos, ficou parado por quase cinco meses. Desanimado, chegou a pensar em procurar emprego e seguir outro caminho.

O último jogo no time do ABC foi no dia 17 de abril. Ele só chegaria ao Bragantino em 5 de agosto. Durante esse período ficou em Palestina, uma cidade de 11 mil habitantes no interior de São Paulo, perto de São José do Rio Preto. Sem dinheiro, tinha até parado de pagar as prestações do Astra que havia comprado em 2010, quando estava no Rio Branco de Americana.

Sua sorte começou a mudar quando o atacante Lincom, companheiro desde 2008, resolveu indicá-lo ao Bragantino, que disputava o Campeonato Brasileiro da Série B de 2011. O presidente Marco Antonio Abi Chedid e o técnico Marcelo Veiga já o conheciam e não tiveram dúvida em aceitar a indicação.

A estreia de Romarinho no Bragantino foi na 17.ª rodada, a penúltima do primeiro turno do Campeonato Brasileiro da Série B. "Ele entrou durante o jogo contra o Salgueiro e já marcou um gol", recorda Lincom. "Mas, naquele campeonato, quem foi o artilheiro fui eu (fez 20 gols, um a menos que Kieza, do Náutico)", conta sorridente, para logo depois explicar. "Muitos com passe dele. O Romarinho não é o centroavante de área. Ele gosta mais de jogar solto, caindo pelos dois lados do ataque e vindo de trás com a bola dominada."

O maior entrosamento entre Lincom e Romarinho, porém, era fora do gramado. "A gente estava sempre junto. Era como se eu fosse o irmão mais velho dele (Lincom tem 28 anos). Até hoje o pessoal pergunta na cidade onde está o meu filho", diverte-se.

Uma ligação tão grande a ponto de Lincom cuidar do dinheiro do amigo. "Ele depositava tudo na minha conta. Até na semana passada tinha dinheiro dele lá."

A situação, porém, era diferente da atual. Romarinho chegou ao Bragantino ganhando R$ 4 mil em 2011 e contou com a ajuda do presidente Marco Chedid para deixar as prestações do Astra em dia. No final da temporada, passou a ganhar R$ 5 mil e, no Campeonato Paulista deste ano, acabou a competição recebendo R$ 10 mil. "Ele ia pedir uns R$ 15 mil para disputar a Série B", acredita Lincom.

No Corinthians, hoje, seu salário está próximo dos R$ 50 mil e, só pela classificação contra o Santos na semifinal da Libertadores, o "bicho" foi de R$ 40 mil (R$ 80 mil para aqueles que entraram em uma das duas partidas). Pelo título da competição, o prêmio deve ser de R$ 250 mil. E agora Romarinho terá direito ao montante integral, afinal, não só jogou uma das partidas como decidiu.

"Vai ser bom para ele. A família é humilde. O sonho dele é comprar uma casa para os pais em Palestina", acredita Lincom. "Ele me disse que o sonho, além da casa, era um carro Veloster (da Hyundai). Agora, vai poder ter", brinca Chedid. "Mas primeiro vai precisar tirar carteira de motorista, que até agora ele não resolveu isso. Aqui em Bragança ele queria pegar o meu carro, mas eu quase nunca deixava", mantém o tom de brincadeira o amigo atacante.

DESLIGADO

Para Lincom, porém, a principal característica de Romarinho é ser uma pessoa completamente desligada do mundo. "Ele não está nem aí. Acho que nem sabe que marcou um gol que vai ficar para a história. Nem que era numa La Bombonera lotada. Ele é completamente desligado." E vai logo avisando os jornalistas. "Não pensem que ele é mascarado, é o jeito dele. Sempre fugiu da imprensa. Aqui em Bragança, quando ele era indicado para a coletiva, saía escondido do clube para escapar."

Tão desligado a ponto de ainda não ter um celular para receber as ligações dos companheiros após momentos tão importantes quanto o de quarta-feira. "O celular dele é de crédito. Não recebe ligação quando sai do Brasil."

A maior preocupação do amigo Lincom é que ele continue bem orientado. "Aqui, eu cuidava do dinheiro dele. Agora, vai precisar de alguém que faça isso para ele. A sorte é que tem uma família muito boa."

NEGOCIAÇÃO 

Marco Chedid conta que a negociação com o Corinthians foi bastante tranquila. Depois de conversar com Palmeiras e São Paulo e ouvir que não tinham interesse em nenhum dos jogadores do Bragantino, Chedid sabia que as portas sempre estão abertas no Corinthians, clube com o qual já negociou praticamente um time inteiro (Felipe, goleiro; Zelão, zagueiro; Felipe, zagueiro; Moradei, volante; Paulinho, meia; Everton Santos, atacante; Bill, atacante, além de Romarinho).

"Surgiu o Santos, mas a proposta era apenas oferecer a vitrine para ele jogar a Série A do Brasileiro e, depois, se surgisse alguma proposta, o Santos ficaria com 20%. Isso não me interessava."

Com o Corinthians, conseguiu negociar 40% do passe do atacante. A multa rescisória com o time de Bragança era de R$ 6 milhões, mas Chedid garante que a negociação foi por um valor bem menor.

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