Zebra africana tem folha de R$ 700 mil

Mazembe, do Congo, ex-Zaire, paga US$ 40 mil por mês a seu craque e soma 10 títulos nacionais e quatro continentais

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2010 | 00h00

A classificação do Mazembe e a automática presença de um time africano de forma inédita na decisão do Mundial de Clubes quebram o estereótipo de que os clubes fora do eixo América do Sul e Europa são desestruturados ou semi-amadores. Fundado em 1939 por monges beneditinos em Lubumbashi (antiga Elisabethville), o Mazembe soma dez títulos congoleses, 5 da Copa do Congo, 4 Copa dos Campeões da África e uma Supertaça Africana. Possui um estádio para 35 mil espectadores, além de amplo centro de treinamento, que formou vários dos jogadores que estão nos Emirados Árabes. A média de idade, que reúne 18 congoleses, quatro zambianos e dois camaroneses, é de 25 anos, a mesma do craque e capitão do time, Tresor Mputu, que ficou de fora da competição (ler texto ao lado).

Mputu, pretendido por vários clubes da Europa, recebe o maior salário do futebol africano: US$ 10 mil (cerca de R$ 17 mil) por semana. A folha de pagamento atinge US$ 5 milhões anuais, cerca de US$ 400 mil (R$ 700 mil) por mês. Nada ainda em comparação com os clubes europeus e muito pouco em relação aos times brasileiros. O Corinthians, por exemplo, gasta R$ 4 milhões por mês com seu departamento de futebol. Isso levando em conta "apenas" R$ 500 mil de gastos com Ronaldo, que, na verdade, recebe mais de R$ 1,5 milhão com propaganda. Se juntarmos os salários do Fenômeno e do lateral-esquerdo Roberto Carlos, chega-se a um valor muito parecido com o do Mazembe.

"Chegarmos à final foi muito importante para que o mundo perceba a nossa evolução", disse o experiente goleiro Kidiaba, de 34 anos, que tem se destacado pelas boas atuações e pela dança com o "bumbum" quicando no chão a cada bom resultado de sua equipe no Mundial.

O Mazembe participa pela segunda vez do Mundial. No ano passado terminou apenas na sexta colocação, após duas derrotas. Estreou nas quartas de final diante do Pohang Steelers e chegou a abrir o placar com Bedi, o mesmo que fez o gol da vitória deste ano sobre o Pachuca. Mas os coreanos viraram na segunda etapa. Na disputa do quinto lugar, nova virada, daquela vez para o Auckland City, por 3 a 2. Os gols africanos foram de Kasongo e Kasusula, que assim como Bedi estão novamente em Abu Dabi, mas com mais experiência.

Bobo no futebol. A República Democrática do Congo disputou apenas uma Copa do Mundo. Foi em 1974, na Alemanha, quando era o antigo Zaire, e não passou da primeira fase. Caiu no Grupo B, com Iugoslávia, Escócia e Brasil. Seu ataque não fez nenhum gol no Mundial, enquanto sua defesa foi vazada 14 vezes em apenas três jogos - com direito à segunda maior goleada da história das Copas (9 a 0) sofrida para a Iugoslávia. O primeiro tempo terminou com 6 a 0 para os iugoslavos. O placar só foi superado em 1982, quando a Hungria fez 10 a 1 em El Salvador, em campos espanhóis.

Diante do Brasil, os africanos fizeram uma aposta para que o time não sofresse mais de dois gols, o que seria uma façanha, pois enfrentavam os então tricampeões mundiais, que eram liderados por Leão, Rivellino e Jairzinho. O time segurou a desvantagem por 2 a 0 até os 34 minutos da etapa final, quando Valdomiro fez o terceiro gol em falha grotesca do goleiro. Naquele época ainda existia "bobo no futebol". Atualmente, a situação é outra. O Inter que o diga.

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