Franck Fife/AFP
Franck Fife/AFP

Zequinha Barbosa vira 'paitrocinador' e muda vida de João da Barreira

Atleta dos 110 m com barreiras deu a última chance para carreira

DEMÉTRIO VECCHIOLI, Estadão Conteúdo

14 de setembro de 2015 | 07h33

Essa poderia ser a história de um atleta que, já com índice para a Olimpíada, mas sem apoio de governo, confederação, clube ou patrocinador, não tem dinheiro para treinar no mês que vem. Mas ''João da Barreira'' prefere ser visto como um atleta que, mesmo contando apenas com o apoio de amigos, está qualificado para os Jogos do Rio. João Vitor de Oliveira encontrou não 10, mas dezenas de barreiras pelo caminho, mas aprendeu a superar cada uma delas pela determinação do seu treinador, Zequinha Barbosa, seu "médico, massagista, nutricionista, psicólogo, cozinheiro, treinador" e financiador. O mergulho de cabeça na linha de chegada na semifinal do Mundial de Pequim foi só o esporte copiando a vida.

Afinal, se não tem sequer Bolsa Atleta é porque João Vitor, até cinco meses atrás, não fez por merecer. Foi apenas o sétimo colocado do ranking brasileiro do ano passado, com 13s90. Um nada para aquele menino que foi semifinalista no Mundial Júnior de 2010. "Eu estava em decadência, muito abaixo dos índices, e resolvi dar uma virada em tudo. Já estava esquecido e com título de eterna promessa que não tinha vingado."

Era o barreirista o novo menino de ouro do atletismo de Marília, no interior de São Paulo. João conheceu o esporte em 2004, quando Jadel Gregório foi à sua escola para apresentar a Associação Esportiva Recreativa Jadel, criada pelo saltador na cidade na qual passou a infância. No mesmo dia, João se tornaria o aluno número 1 da AERJ, que só durou um ano.

Enquanto o barreirista desacelerou ao entrar na carreira adulta, Thiago Braz e Augusto Dutra, seus amigos de infância, se tornaram dois dos melhores do mundo no salto com vara. "Fomos juntos para Bragança Paulista em 2008 e depois cada um seguiu seu caminho. Quando eles mudaram de treinador as coisas começaram a dar certo."

João botou na cabeça que precisava sair do País, mudar de ares. Mas que treinador de alto nível aceitaria trabalhar com um barreirista que é um segundo mais lento que os melhores do mundo? Era chegada a hora de retomar o contato com Zequinha Barbosa, quatro vezes medalhista em Mundiais nos 800m entre 1987 e 1991 e quarto colocado nos 800m nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992.

Zequinha mora nos Estados Unidos desde 2008. Cinco anos antes, quando era secretário de Esportes de Mato Grosso do Sul, o ex-corredor foi envolvido em um caso de exploração sexual de menores. Mesmo inocentado, teve a reputação devastada no País. Encontrou refúgio nos Estados Unidos, levado pelo jogador de basquete Leandrinho Barbosa para ser seu preparador físico pessoal.

Quando João ainda era uma promessa do atletismo, uma agência tentou levá-lo para fazer faculdade nos EUA, por intermédio de Zequinha. Não deu certo, mas o contato ficou. Sem a possibilidade de uma bolsa de estudos, "fazer a América" ficou mais caro. "Achei um treinador de barreiras, que cobrava em média mil dólares por mês", conta Zequinha.

O barreirista tinha um carro popular, alguns móveis e objetos pessoais para vender, mas o dinheiro não daria para muita coisa. "Se eu não for para aí, vou parar. Queria saber se você quer ser meu treinador", propôs João a Zequinha em uma conversa pelo Skype. Trocaria os poucos bens por dólares e partiria o quanto antes para San Diego - coincidentemente, onde mora e treina também o hoje seu amigo Jadel Gregório.

Sem nunca ter visto sequer um vídeo daquele que viria ser seu atleta, Zequinha aceitou o desafio. Professor de educação física e técnico de provas de fundo, meio-fundo e velocidade em uma escola de ensino médio em San Diego (Califórnia), o campeão mundial pediu um tempo para aprender mais sobre a prova de barreira, estudou até se achar apto a assumir o desafio e mandou o aviso: "vem".

No primeiro treino, em setembro de 2014, João deixou Zequinha boquiaberto. "Fiquei de boca aberta de ver como ele era ruim de condicionamento. Mas ruim, ruim mesmo. Falei: ''Não é possível''. Sobrou até para o céu. "Pô, Jesus, sempre pedi para ter um atleta do alto rendimento e você me dá um atleta em potencial, mas de prova diferente, sem condicionamento. Por que não deu um sem condicionamento, mas de 800m, 1.500m?"

Não adiantava mais reclamar, João Vitor já estava morando na casa de Zequinha. O jeito era fazer do barreirista um atleta de alto rendimento. "Sou um treinador duro. Quem comanda sou eu, então é duro. Eu só treino vencedor. Disse para ele: ''O caminho é árduo, mas não é impossível. Você sonhou e sonha ser um atleta olímpico, mas se sua vontade não for maior que seu sonho, você nunca vai conseguir realizar seu sonho''. Dinheiro e fama só vem na frente de trabalho no dicionário. Sou obstinado, você não vai ter moleza''."

"Nessa simbiose ele ia me ensinar e eu ia ensiná-lo", analisa Zequinha. "O Zeca ama atletismo e só vive pra isso e eu também sou assim", completa João. Os dois aprenderam juntos a saltar barreiras. Uma nova surgiu em fevereiro. O dinheiro de João acabou. "Ou eu assumia ou mandava ele voltar para o Brasil. Tive que bancar o João. Me tornei médico, massagista, nutricionista, psicólogo, cozinheiro, treinador."

Com a decisão de se mudar para os EUA e trocar de treinador, João foi dispensado pelo seu antigo clube, o ASA/São Bernardo. Não tinha sequer uma agremiação para participar do Troféu Brasil. Esse foi só um dos pepinos que Zequinha resolveu utilizando sua rede de contatos - colocou João numa associação de Ribeirão Preto.

O técnico também arranjou cinco meetings para João competir na Europa, em busca do índice para o Mundial de Pequim, e até conseguiu hospedagem para seu atleta em Londres, na casa de uma prima. Amigos de Marília se cotizaram, por meio de uma vaquinha, e pagaram as passagens de ida e volta até Londres.

Só que de nada adiantava voltar ao Brasil para disputar o Troféu Brasil ou conseguir uma vaguinha em um bateria B de Liga Diamante se João não fizesse a parte dele na pista. Em 14 segundos, mas preferencialmente em 13 e meio, a vida do barreirista seria decidida várias vezes. "Imagina a pressão desse garoto que dependia de 13 segundos para decidir a vida dele?"

Quando decidiu que daria a última chance para sua carreira, João não estava brincando. No tudo ou nada, o mariliense foi para o lado do "tudo". Ganhou o Troféu Brasil, se classificou para o Campeonato Sul-Americano, e faturou também este torneio. Em Tabor (República Checa), fez o índice para os Jogos Olímpicos e para o Mundial de Pequim: 13s47.

Na China, numa competição em que poucos brasileiros tiveram desempenho sequer próximo ao melhor da temporada, João Vitor fez 13s57 nas eliminatórias e passou à semifinal. Na etapa seguinte, foi o único atleta da sua série a fazer a melhor marca da carreira: 13s45.

O mergulho sobre a linha de chegada, que segundo ele rende de 0s02 a 0s04 de ganho no relógio, permitiu ao brasileiro fazer o índice exato para o Mundial Indoor de Portland (EUA), no ano que vem. As lesões nas costas duraram duas semanas, mas o orgulho fica para sempre.

"O João ainda está muito verde, não está curtido, não está tarimbado, mas tem um futuro brilhante. Com certeza vai dar muita alegria para o Brasil, mais alegrias do que eu dei", aposta Zequinha.

Os dois, entretanto, não sabem se vão se encontrar no começo de outubro, para dar início a uma nova temporada. João não gosta de falar sobre sua situação financeira, mas Zequinha alerta: seu corredor não tem dinheiro para voltar a treinar. E o "paitrocínio" de treinador para atleta acabou.

"Gastei uns 12 mil dólares com ele. Sou um pai de família, mas estou junto no sonho, não podia largar o garoto. A situação ainda é crítica. Ele não tem condição de se manter, não tem condição de pagar um apartamento. Ele não tem mais um carro para vender. Então como ele vai voltar para cá? Fiz o que tinha que fazer. Minha função é de treinador, não posso bancar ele. Tudo na vida tem um limite", lamenta o treinador.

Mesmo campeão brasileiro, João só passará a receber Bolsa Atleta em agosto do ano que vem, uma vez que só em maio/junho de 2016 será aberto edital para contemplar atletas pelos resultados de 2015. Mesmo 18.º colocado do Mundial, também não terá direito à Bolsa Pódio. O último edital antes da Olimpíada previa prazo de inscrição até 21 de agosto e a semifinal do Mundial foi no dia 27.

A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) ainda não informou os índices necessários para o seu Programa Nacional de Apoio a Atletas de Alto Nível. Se a marca do ano passado for mantida (13s47), João Vitor terá direito ao benefício no ano que vem. Até lá, não receberá apoio financeiro da entidade.

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