Christinne Muschi/Reuters
Christinne Muschi/Reuters

A luta para realizar testes antidoping antes da Olimpíada de Tóquio

Pandemia desacelerou os exames de drogas em todo o mundo. O processo foi retomado, mas os problemas que levaram à testagem insatisfatória antes dos Jogos de 2016 continuam

Matthew Futterman, The New York Times

11 de maio de 2021 | 15h00

Os esforços para prevenir o uso de drogas que melhoram o desempenho antes da Olimpíada de 2016 foram os piores possíveis. Nos meses que antecederam os Jogos do Rio de Janeiro, mais de 1.900 atletas de dez dos esportes mais importantes - como atletismo, levantamento de peso e ciclismo - não foram testados, uma falha que as autoridades de doping juraram que não se repetiria no próximo ciclo olímpico.

No entanto, cinco anos depois, as organizações antidoping do mundo estão lutando para cumprir essa promessa antes da Olimpíada de Tóquio, em parte porque a pandemia de coronavírus impossibilitou a correção de um problema que persistiu por décadas: os testes são inconsistentes em vários países.

“O sistema antidoping é muito desequilibrado”, disse Benjamin Cohen, diretor-geral da Agência Internacional de Testes (ITA, na sigla em inglês), uma organização independente e sem fins lucrativos que o Comitê Olímpico Internacional criou para gerenciar o programa de testagem para a Olimpíada. “Algumas organizações são muito fortes e outras têm menos recursos”.

De acordo com a Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês), que cria diretrizes para organizações antidopagem e acompanha suas práticas de testagem, o número de testes administrados em todo o mundo aumentou substancialmente nos últimos meses, especialmente em comparação com a primavera (do hemisfério norte) passada, quando os testes essencialmente se interromperam por causa da crise de saúde pública.

Não está claro, porém, como os testes desde o início de 2020 se distribuem por país, porque a organização não divulga prontamente esses dados para além do número geral de testes. A Wada, que divulgou seu relatório sobre testes de 2019 em dezembro de 2020, afirma que precisa de muitos meses para classificar os dados de teste e avaliar o que significam.

Esse desequilíbrio é uma queixa comum entre os atletas de alguns países onde os testes são robustos, como Estados Unidos, Grã-Bretanha, Canadá e Noruega. “Eu pessoalmente fiz testes de drogas dezoito vezes desde fevereiro de 2020”, disse Lilly King, nadadora americana que ganhou duas medalhas de ouro no Rio, durante uma entrevista coletiva em abril. “Obviamente, não sabemos como os outros países estão testando."

Durante os primeiros três meses deste ano, foram realizados 52.416 testes, 23% menos do que os 68.291 administrados durante os primeiros três meses de 2019, o último ano completo de eventos esportivos antes dos cancelamentos generalizados. Menos eventos significam menos testes nas competições. O número de testes fora das competições - nos quais os oficiais de controle de doping fazem visitas sem aviso prévio aos atletas - nos primeiros três meses de 2021 está no mesmo ritmo dos dados de 2019.

Como muitos atletas estão viajando menos para as competições, está mais difícil alcançá-los para fazer os testes. “Não estamos de volta à capacidade total em que estávamos operando, mas estamos muito perto”, disse Jeremy Luke, diretor sênior de integridade esportiva do Centro Canadense de Ética no Esporte, que gerencia os esforços antidoping naquele país. Luke disse que nos últimos meses as autoridades se concentraram fortemente nos atletas que chegaram à equipe olímpica e nos que estão tentando conquistar uma vaga. “Não está operando da mesma forma que no passado, mas está operando”.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Não estamos de volta à capacidade total em que estávamos operando, mas estamos muito perto
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Jeremy Luke, diretor sênior de integridade esportiva do Centro Canadense de Ética no Esporte

Quase todos os países e organizações esportivas internacionais mantêm em sigilo os nomes e datas exatas dos testes. Os Estados Unidos são uma rara exceção.

Os atletas americanos pressionaram por transparência no início dos anos 2000, quando uma série de escândalos ameaçou a credibilidade do sucesso esportivo do país. Aqueles que apoiam a revelação pública de quem é testado - e seus resultados - dizem que é a única maneira de garantir responsabilização e fornecer aos atletas informações sobre a frequência com que seus oponentes foram testados. Algumas pessoas que argumentam contra a divulgação pública dizem que isso pode ajudar os trapaceiros a detectar padrões de teste e manipular o sistema.

“Você recebe cinco especialistas diferentes numa sala e ouve seis opiniões diferentes sobre isso”, disse Cohen.

Em dezembro, como parte de seu esforço para não repetir os erros cometidos antes dos Jogos do Rio, a ITA reuniu um grupo de especialistas em antidoping para estudar quais testes precisavam ser feitos durante os meses cruciais que antecedem os Jogos de Tóquio, que começam no final de julho. Em 2016, esse trabalho começou a menos de três meses do início dos Jogos.

Esse curto período de análise foi um dos vários erros que fizeram dos Jogos do Rio um ponto baixo na campanha antidoping. Os detalhes do escândalo de doping na Rússia se tornaram públicos pouco antes dos jogos e, poucas semanas antes da cerimônia de abertura, a Wada fechou o laboratório de testes do Rio por não atender aos padrões internacionais. O laboratório foi reaberto pouco antes das Olimpíadas.

Um período de planejamento mais longo é crucial porque testar os atletas somente depois que eles chegam para a Olimpíada é tarde demais. A essa altura, qualquer atleta que decidir trilhar esse caminho terá tempo suficiente para usar drogas para melhorar o desempenho e obter os benefícios delas no treinamento. Esses benefícios duram muito depois que as drogas foram eliminadas de seus corpos.

O grupo da ITA recomendou a realização de 25 mil testes em atletas específicos - em alguns casos até seis em um único atleta - a serem realizados entre janeiro e o início dos Jogos de Tóquio.

A agência se reúne a cada duas semanas e analisa relatórios de testes de federações esportivas internacionais e organizações antidoping em 150 países. A agência observa as lacunas e estimula aqueles que podem realizar os testes a fazê-lo.

Cohen disse que existe uma tendência: as agências nacionais antidopagem, que são mais fortes nos países maiores e naqueles com recursos para criar essas organizações, têm se saído bem no cumprimento das recomendações. As agências regionais, que muitas vezes são responsáveis pelos testes em vários países, normalmente os mais pobres, continuam com dificuldades.

Outras organizações, como os órgãos governamentais globais para esportes específicos, tentam reduzir as lacunas, mas não conseguem fazer muito.

A questão agora, disse Cohen, é uma combinação de dinheiro e problemas logísticos relacionados à pandemia, como fronteiras fechadas e medo de infecção durante o processo de coleta de urina ou amostras de sangue.

A ITA ainda está impotente para fazer qualquer coisa mais do que apontar as deficiências e instar as organizações de doping a aumentar seus testes durante este período crucial. Mas isso vai mudar em breve. A partir de 13 de maio, a ITA ganhará o poder de testar atletas em qualquer lugar, mais de dois meses antes dos jogos. No passado, os organizadores olímpicos só podiam testar os atletas depois que eles chegavam à cidade-sede. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.