Marcos Arcoverde/ Estadão
Marcos Arcoverde/ Estadão

A Olimpíada edificante do Brasil

'Mundo desenvolvido não gosta quando um país em desenvolvimento organiza um grande evento esportivo'

Roger Cohen, The New York Times

16 Agosto 2016 | 19h10

Há 30 anos, quando era correspondente no Brasil, a inflação corria desenfreada. Entre 1985 e 1989 atingiu uma média de 707,4%. O salário da população pobre era liquidado em questão de horas depois do pagamento. O país passou por três moedas - o cruzeiro, cruzado e cruzado novo. A única saída para os brasileiros, as pessoas diziam em tom de piada, era o aeroporto internacional do Galeão.

Antonio Carlos Jobim, o compositor  de Garota de Ipanema, disse uma vez, o que ficou famoso, que "o Brasil não é para iniciantes".

Não era naquela época e não é hoje. É uma nação imensa e diversa, um Estados Unidos tropical, onde ricos e pobres estão divididos por um abismo. Os altos índices de criminalidade em parte refletem essa divisão. A flexibilidade é escassa numa cultura modelada pelo calor, pela sensualidade, o samba e o “jeitinho” diante da lei. Você se adapta ou perece.

Edmar Bacha, economista amigo meu, cunhou o termo “Belíndia” para descrever o Brasil - uma Bélgica próspera no topo de uma superpovoada Índia. Fiz uma matéria sobre as crianças pobres do norte do Rio, longe das praias de Ipanema e do Leblon, que se divertiam “surfando nos trens”, correndo em cima dos vagões de trens em grande velocidade,  não nas ondas do Atlântico. Muitas vezes morriam, eletrocutados. Nunca esqueci o cadáver de um deles em uma funerária da cidade.

A desigualdade era uma parte da matéria, mas mesmo naqueles tempos tumultuados não era só isto. “Tudo bem?” perguntava para as pessoas quando me aventurava nas favelas. “Tudo bem”, era sempre a resposta, junto com um sorriso, mesmo quando tudo estava realmente péssimo. A  penúria ao sol não é como a penúria no frio.

Certa vez perguntei a um industrial em São Paulo, José Mindlin, se estava preocupado com a direção que o Brasil seguiria. “Sempre me preocupo com o fim do mês, mas nunca me preocupo com o futuro”, ele me respondeu. Ele estava certo. O Brasil é o cemitério dos pessimistas.

O país se transformou desde a década de 1980. A democracia e a moeda estabilizaram. A classe média cresceu exponencialmente, mesmo se hoje está sob pressão. O Brasil já viu o impeachment de um presidente, Fernando Collor de Mello, e está no meio de um outro processo similar, desta vez contra a presidente Dilma Rousseff. A lei não pode ser mais comprada com facilidade. O boom das commodities que propiciou um rápido crescimento do país durante alguns anos, acabou. Mas o Brasil está acomodado entre as 10 maiores economias do mundo.

De acordo com o Banco Mundial, a expectativa de vida subiu de 63,9 anos em 1986 para 74,4 anos em 2014. O número de analfabetos ainda é grande, mas houve uma queda bastante forte.

Hoje o Brasil é menos uma "Belíndia" e mais uma "Franconésia" - uma França sólida no topo de uma Indonésia. Seus problemas persistem, mas só um louco negaria que ele será o maior protagonista do século 21. Qualquer pessoa que esteja assistindo aos Jogos Olímpicos do Rio sente que o país tem uma cultura nacional alegre e poderosa. É a terra do “tudo bem”.

Tudo isto para dizer que estou cansado, muito cansado, de ler reportagens negativas sobre esses Jogos - sobre o rancor nas favelas, a violência que continua (incluindo o assalto armado a quatro nadadores americanos), o abismo que separa ricos e pobres, as confusões ocasionais da organização dos jogos, o doping russo e o mosquito brasileiro, o dinheiro que supostamente seria melhor gasto do que ampliar a linha de Metrô que vai do centro até a próspera Barra da Tijuca (e assim entre outras coisas, permitindo aos pobres conseguirem empregos ali).

Primeiro, o Brasil nunca completaria o trabalho em tempo para a Olimpíada; agora que mostrou tanto sucesso e realizou uma magnífica cerimônia de abertura, é acusado de não ter resolvidos os seus problemas sociais em tempo para os Jogos.

O mundo desenvolvido tem alguma coisa que não gosta quando um país em desenvolvimento organiza um grande evento esportivo.

Ouvi as mesmas queixas por ocasião da Copa do Mundo em 2010 na África do Sul: o crime que arruinaria tudo, a pobreza que era uma vergonha e a ineficiência que incomodaria os visitantes. A Copa do Mundo foi um triunfo. Não me lembro, em 2012,  de jornalistas inspecionando as áreas mais pobres e dominadas pelo crime na Grã-Bretanha, para encontrar pessoas prontas a resmungar da Olimpíada de Londres.

Estes Jogos Olímpicos são bons para o Brasil e para a humanidade, um tônico necessário. Ver Usain Bolt ou Simone Biles é edificante.

Minha imagem preferida é de Rafaela Silva, a jovem brasileira de Cidade de Deus, uma região violenta do Rio, que conquistou a medalha de ouro no judô, e declarou “esta medalha demonstra que uma criança que tem um sonho deve acreditar, mesmo que isto leve tempo, porque o sonho pode se realizar”.

Nas favelas algumas crianças estão sonhando, mas de uma maneira diferente. Isto também é notícia.

Tradução de Terezinha Martino

 

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