A Olimpíada foi deslumbrante, mas nem todo mundo foi seduzido

Foi uma coreografia intrincada nademonstração de força, modernidade, dinheiro, esportes earquitetura. A Olimpíada na China deslumbrou o mundo, com umexercício de relações públicas ao custo de 43 bilhões dedólares, em escala jamais vista. Atletas mostraram maravilhas em locais elevados ao statusde arte, visitantes receberam o calor das boas-vindas e ostelespectadores ficaram atônitos com a imagem de uma Chinacosmopolita e sofisticada. O esporte dominou a agenda e a China chegou ao topo doquadro de medalhas. As preocupações com violações aos direitoshumanos foram colocadas de lado e as nuvens de poluição sedissiparam. E, no entanto, nem todo mundo foi seduzido. Situações dissonantes soaram para estragar a sinfonia,disseram críticos, se você prestar atenção. "A marca China passou por um destacado trabalho derepaginação de si mesma, com a ajuda da mídia norte-americana",disse Eli Portnoy, consultor de marcas. "A vasta maioria denorte-americanos já foi capturada na cerimônia de abertura." "Algo que teria levado quatro ou cinco anos, eles fizeramem 17 dias", disse o consultor norte-americano. A decisão de entregar a Olimpíada à China foi bemcontroversa. Em determinado ponto até parecia desastrosa. Agitações surgiram no Tibete -- e prontamente tambémprovocaram uma reação massiva --, com líderes mundiaisameaçando boicotar a cerimônia de abertura e atletas reclamandoque iriam ser asfixiados pela poluição de Pequim. Holofotes se acenderam sobre a China, e o mundo pareceu nãogostar do que viu. Mas, ainda assim, quando os Jogos foramabertos, o entusiasmo tomou conta. O ar literalmente clareou -- as medidas para fecharfábricas e manter carros fora de circulação ajudam a capital aconseguir sua atmosfera mais limpa em uma década. Em abril, 43 por cento dos norte-americanos pensavam queuma Olimpíada na China não tinha sido uma boa idéia, comodetectou a empresa de pesquisas Pew Global, enquantopraticamente o mesmo número aprovava. Com poucos dias de Jogos,a opinião pública tinha mudado em favor da China -- a maioria,mesmo pelo mínimo, agora aprovava e 31 por cento diziam que aOlimpíada na China tinha sido uma má idéia. MARAVILHADOS, MAS NAO SEDUZIDOS Apesar do deslumbramento, no entanto, nem todo mundo seconvenceu pela imagem repaginada da China. Portnoy diz que se sentiu incomodado com a coberturapositiva que os Jogos receberam das redes de tevê nos EstadosUnidos, especialmente da NBC, a detentora exclusiva dosdireitos de transmissão. Mesmo quando houve o ataque e o assassinato do sogro dotécnico da equipe masculina de vôlei dos Estados Unidos, amídia norte-americana não deu tanta dimensão à morte, disseramanalistas. "A NBC tem uma tonelada de dinheiro investido, apublicidade tem uma tonelada de dinheiro investido", dissePortnoy. "Eles não querem nenhuma mancha vindo à tona. Sãomuitos milhões em jogo e todo mundo coloca a mão no caixa." A mídia impressa talvez tenha perdoado menos. Os protestosforam sufocados. A aparição dos soldados em passo de ganso carregando abandeira olímpica feriu algumas suscetibilidades na cerimôniade abertura. Mas o público foi mais fortemente tocado quando revelou-seque a garotinha da canção-chave da cerimônia de abertura dubloua verdadeira cantora porque esta não era bonita o suficiente. Então, a admissão dos chineses de que as crianças em trajestípicos, não eram exatamente das etnias representadas balançourelações desses grupos com o governo. O jornal britânico Financial Times disse que ascontrovérsias minaram a imagem da moderna, dinâmica China, ereforçou a percepção do governo de Pequim como de "excêntricosno controle". Em favor dos organizadores da Olimpíada, autoridadesliberaram três parques ao redor de Pequim para servirem comolocais oficiais de protestos. Infelizmente, não foram liberadas as 77 licençassolicitadas para os protestos. Duas senhoras de mais de 70anos, foram sentenciadas a uma ano de pena por insistir em seupedido para o protesto. Pela idade, permitiu-se que fossemdesignadas para cumprir a sentença fora de um campo dereeducação. Em editorial no sábado, o New York Times criticou a "Má-FéOlímpica" de Pequim e disse que a medalha de ouro final --"pela administração da imagem autoritária" -- deveria serentregue à liderança do Partido Comunista chinês. "Pequim conseguiu o que queria com esse espetáculoglobalmente televisionado. Conseguiu um imenso período debonança com prestígio que certamente irá promover suainfluência internacional e, tememos, fortalecer suas garras emcasa", disse o jornal. "E colocou tudo isso no bolso semoferecer nenhuma concessão em troca." Em Washington, Sophie Richardson, diretora para a Ásia daHuman Rights Watch (organização que "vigia" problemas comviolação de direitos humanos), também se mostrava realista. "A imagem que as pessoas receberam, globalmente, foi deatletas incríveis, arquitetura impressionante -- e um governoque dá arrepios."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.