Alexandre Loureiro/Inovafoto/CBV
Alexandre Loureiro/Inovafoto/CBV

‘A Olimpíada no Rio será o maior desafio da minha carreira’

Técnico prepara a seleção feminina de vôlei para lidar com a pressão de buscar o tricampeonato dos Jogos de 2016 em casa

Entrevista com

José Roberto Guimarães

PAULO FAVERO, O Estado de S. Paulo

08 de setembro de 2015 | 06h32

José Roberto Guimarães já conquistou três medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos (em 1992, com os homens, e em 2008 e 2012, com as mulheres). Mesmo vitorioso, garante que está perdendo noites de sono ao se aproximar o que ele chama de “maior desafio de sua carreira”, que é comandar a seleção feminina de vôlei no Rio, em 2016, diante da torcida brasileira.

Ele vem treinando o grupo que vai disputar o Campeonato Sul-Americano e que ficará junto até o dia 4 de outubro, quando as atletas vão para seus clubes. Depois, só retornarão em abril para a reta final de preparação para a Olimpíada. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre as dificuldades, as rivais e confessa que ainda não pensou na promessa que vai pagar, caso o Brasil conquiste o sonhado tricampeonato.

Qual a sua maior preocupação para a Olimpíada?

Será um sonho chegar a uma final, tentar um resultado expressivo diante da nossa torcida, e esse é o maior desafio da seleção, talvez de todos os tempos. Eu encaro como o maior desafio da minha carreira, pois vamos disputar uma nova Olimpíada, em casa. Por isso estou muito concentrado em todos os aspectos, no meu time, nas adversárias, no dia a dia, eu durmo e acordo pensando nisso e tento passar esse sentimento para o grupo. A preparação vai ser determinante e ela começou no primeiro dia após os Jogos de Londres.

O grupo já está fechado?

Eu não gosto de ter esse tipo de pensamento, tudo está aberto. A seleção tem de ser assim e pode receber novas jogadoras. Lógico que tem uma base que está sendo trabalhada há alguns anos, mas tudo pode acontecer. A expectativa é que essas atletas cheguem bem no treinamento e que possam disputar a Olimpíada.

Você acha que a Tandara terá chance de disputar o torneio?

Tudo vai depender dela. Ela estava dentro do processo de preparação, ficou grávida, está entrando na 40.ª semana e não engordou muito. Vai depender de como vai se recuperar. Ela vai voltar e disputar a Superliga. Com isso, terá um tempo hábil de recuperação. Espero que consiga voltar bem.

Além dela, você tem outros grandes desfalques. Como está lidando com isso?

O objetivo é recuperar as atletas. A Thaísa foi operada, a Tandara engravidou, a Fabíola ficou fora por um pedido dela, por causa da família, a Jaque não conseguiu fazer uma semana completa de treino com a seleção neste ano. São muitos problemas, mas o que a gente espera é que essas jogadoras, nesse curto espaço de tempo, voltem bem. Por isso digo que o time do Brasil não está pronto. Isso me deixa preocupado e não durmo tranquilo, pois não tenho o grupo completo.

Que seleções podem atrapalhar o tricampeonato olímpico?

Se a Olimpíada fosse amanhã, os Estados Unidos já estariam prontos. Para mim, serão os maiores adversários. Estamos vendo um crescimento da Sérvia, que a gente já sabia, a China também está bem. Tem ainda a Rússia.

É possível fazer alguma comparação entre a preparação atual e anteriores, que vocês acabaram vencendo?

Em Pequim tinha uma desconfiança muito grande, falavam que era um time de ‘amarelonas’. Mas a gente sabia que o trabalho estava sendo feito, tinha uma ascensão e faltava apenas ganhar uma competição grande. Naquele ciclo foram 140 jogos com apenas 12 derrotas. Perdemos a final do Pan, do Grand Prix, mas eu sabia que eram coisas pontuais, pois o time estava voando. Tanto que na Olimpíada fomos campeões perdendo apenas um set. Já em Londres, chegamos a 70% do patamar que queríamos. Ali faltava virar uma chave, que era do time se ajudar. E isso ocorreu contra a Coreia do Sul, quando perdemos. A chave virou, o grupo se ajudou, reagimos e vencemos novamente.

Será uma Olimpíada que vai pesar muito a parte física?

Sim, mas também em todos os outros aspectos. Taticamente terá uma exigência enorme. No feminino são várias escolas e várias maneiras de jogar. Os Estados Unidos têm uma velocidade muito grande, o Japão tem muita defesa, a Rússia utiliza bolas mais altas para atacar, a Sérvia tem uma mescla das duas escolas. O problema no feminino é essa alternância e a rápida adaptação que você tem de ter quando enfrenta escolas diferentes. Aí é outro tipo de jogo, de marcação, de tempo de bola. Também será uma Olimpíada que exigirá muito do nosso aspecto psicológico, em função da responsabilidade de ser tricampeã olímpica e jogar em casa.

O vôlei é o esporte com maior procura de ingressos pelos brasileiros, o que gera uma pressão maior. Você vai blindar o grupo?

Acho que tem de haver uma responsabilidade de todos e vamos conversar bastante. Tem tempo para tudo. Para a família, para se divertir um pouco, mas a concentração será muito grande, pois elas precisam ter uma consciência do resguardo de energia. Não tem essa de fechar e blindar, não podemos viver em outro mundo.

Você falou que será o maior desafio da sua carreira. Vai ser a maior promessa de sua vida?

Talvez. Mas estou tão focado nos adversários que nem tive tempo de pensar na promessa. Ela vai surgir no momento, não é algo que penso antes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.