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A realização da Olimpíada de Tóquio seria justa com os atletas?

Atletas olímpicos seguem um ciclo de quatro anos, que a pandemia do coronavírus perturbou seriamente em muitos casos

Karen Crouse, The New York Times

24 de março de 2020 | 08h00

O italiano Gregorio Paltrinieri ficou de pé no bloco da largada, assumiu posição e mergulhou na piscina. Foi à água três vezes, treinando para as provas de 400 metros, 800 metros e 1,5 mil metros estilo livre. Mas, na semana passada, a cena no centro de treinamento de 25 metros em Ostia, subúrbio litorâneo de Roma, era um substituto inadequado para as qualificatórias de natação da equipe olímpica italiana, planejadas para uma instalação de 50 metros em Riccione.

"Não havia mais ninguém na piscina", disse Paltrinieri. "Nada de público. Nada de cronômetros. Éramos apenas eu e a água." Ele acrescentou: "A corrida foi bem ruim. Meus preparativos não estão completos".

Os atletas olímpicos seguem um ciclo de quatro anos, que a pandemia do coronavírus perturbou seriamente em muitos casos. Deixando de lado a questão da segurança, praticidade e sanidade da realização da Olimpíada de Tóquio, originalmente marcada para começar no dia 24 de julho. Paltrinieri, atual campeão olímpico dos 1,5 mil metros estilo livre, fez outra pergunta: isso seria justo com os atletas?

Paltrinieri disse que, na Itália,  ele é um dos poucos membros da equipe olímpica nacional com acesso a uma piscina de treino. O mesmo ocorre nos Estados Unidos, onde atletas que participariam da olimpíada seguem treinando no Arizona, mas com algumas restrições. Regras mais rigorosas fecharam as piscinas usadas pelos clubes na Califórnia, deixando os atletas do estado na seca.

É um clima que recompensa a capacidade de improviso — equipamentos inventados nos fundos de casa e treinamento no oceano usando roupa de mergulho — em lugar dos rigores habituais no regime de treinos. "No momento, estou entre os sortudos", disse Paltrinieri. "Sigo nadando."

Mas ele falou com atletas na Espanha, França, Alemanha e Ucrânia impedidos de nadar. "Não me parece justo disputar uma olimpíada na qual 90% dos participantes perderam duas ou três semanas (e provavelmente muito mais) de treinos", disse.

Para os que perdem um tempo de treino substancial, "não se pode nem pensar em disputar a olimpíada em agosto", acrescentou Paltrinieri.

No domingo, o nadador alemão Michael Gross, ganhador de seis medalhas olímpicas nos anos 1980, somou sua voz ao crescente coro ao apelar ao presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, pelo adiamento dos jogos. "Realizá-los agora, em 2020, seria injusto", escreveu ele em carta aberta a Bach, também alemão.

Em uma reunião de emergência do seu conselho executivo, o COI essencialmente definiu uma janela de quatro semanas para determinar, em conjunto com as autoridades olímpicas japonesas, se os jogos serão adiados ou redimensionados para uma versão menor do evento.

Esse mais recente comunicado do COI deixou de fora a agitação e insegurança que os atletas estão vivenciando neste momento, com as quais devem conviver por mais um mês. "Não é muito diferente daquilo que estão dizendo desde o início", disse Paltrinieri no domingo. “Assim sendo, sigo treinando como se os jogos fossem acontecer em agosto. Então, veremos."

Pode-se argumentar que a disputa nunca é totalmente equilibrada, pois alguns países têm acesso a recursos melhores, como piscinas de ponta, técnicos e estudos científicos de última geração. Pode-se argumentar que a disputa nunca é equilibrada enquanto alguns países descobrirem novas formas de driblar as políticas antidoping, um jogo de gato e rato que favorece particularmente os trapaceiros, pois os testes, com o fechamento das fronteiras e as restrições de viagem, seriam no mínimo desiguais.

Mas o surto de coronavírus também criou injustiças dentro dos países, produzindo uma situação na qual, de acordo com Paltrinieri, "ninguém está pronto nem concentrado na disputa".

"Do ponto de vista físico, a situação é ruim", acrescentou ele. "Do ponto de vista psicológico é ainda pior." Nos Estados Unidos, Katie Ledecky e Simone Manuel, que somam entre si 10 medalhas olímpicas, correram para encontrar águas onde pudessem treinar após o fechamento das instalações de Stanford. Allison Schmitt, ganhadora de oito medalhas olímpicas, pode seguir usando as piscinas da Universidade Arizona State por duas horas diárias.

As circunstâncias são tão extremas que Paltrinieri, que também disputa modalidades em águas abertas, está impedido de treinar nas praias da Itália, que foram fechadas, de acordo com ele. Enquanto isso, o nadador americano Michael Andrew treina no Oceano Pacífico porque a piscina de treinamento dele, na região de San Diego, foi fechada.

A situação é tão incerta que o pai e técnico da atleta olímpica escocesa Hannah Miley pediu a ela que apelasse ao patrocinador dos trajes de natação dela, Arena, para conseguir os trajes necessários para que ela e os colegas de time de Aberdeen possam seguir os treinos no Rio Don ou no Rio Dee.

Miley foi uma das poucas britânicas que participaram no fim de semana passado do campeonato internacional de Edimburgo na Piscina Comunitária Real enquanto partidas de futebol e outros eventos esportivos em toda a Grã-Bretanha eram cancelados ou adiados (como ocorreu com as qualificatórias olímpicas  britânicas, marcadas originalmente para abril em Londres, pouco após a conclusão do campeonato). Durante a disputa das finais no sábado, uma aula de musculação com pesos de borracha era dada em um dos estúdios do andar de cima, atrás de arquibancadas onde duas nadadoras adolescentes debatiam se o campeonato constituía uma reunião de mais de 500 pessoas, limite proposto pela líder escocesa Nicola Sturgeon para o cancelamento de um evento.

Da Itália, Paltrinieri acompanhou os resultados de Edimburgo com certa confusão. Como os competidores britânicos puderam se reunir para uma disputa quando o vírus que obrigou a Itália a fechar já tinha se espalhado pela Grã-Bretanha? "Não consigo entender o que está havendo em outros países como França e Grã-Bretanha", disse Paltrinieri. "Eles continuam vivendo normalmente sabendo que tivemos o mesmo problema, e nossa situação piora a cada dia.”

Para Paltrinieri, que disputou sua última prova em meados de dezembro, a situação foi como uma nova perturbação em um oceano agitado. "Quando eu for à Olimpíada, terão se passado sete ou oito meses desde a última vez que disputei uma prova… não sei o que pensar", disse ele. "Me parece loucura pensar em disputar olimpíadas agora." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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