Hélvio Romero/Estadão
Mário Júnior, do clube BM&F Bovespa, faz mestrado na área veterianária e, em Tóquio, quer disputar sua quarta Olimpíada da carreira na marcha atlética 50 km Hélvio Romero/Estadão

A vida dupla dos atletas olímpicos

Brasileiros mostram flexibilidade e disposição para conciliar o esporte de alto rendimento e outra profissão

Nathalia Garcia e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2016 | 17h00

Todo atleta de alto rendimento já passou pelo dilema entre viver do esporte ou escolher uma profissão “tradicional”. E alguns acabam optando pelos dois caminhos de uma só vez. Se representar o País em competições internacionais e até em Olimpíada exige uma longa e árdua preparação, para alguns esportistas a situação é ainda mais difícil quando se tem uma “vida dupla”.

Renato Leite tem seu cotidiano movido por resultados, seja quando está na quadra, representando a seleção brasileira de vôlei sentado, ou quando está sentado na frente do computador e conversando com clientes em seu trabalho como consultor de negócios internacionais. “É preciso ter muita disciplina”, explica. Quando tinha 17 anos, ele sofreu um acidente de moto e teve a perna esquerda amputada. “Fui reabilitado através do esporte paralímpico. Aqui no meu trabalho eu tenho uma imagem de inspiração, as pessoas veem minha determinação”, conta.

Para Mário Júnior, da marcha atlética 50 km, a veterinária sempre foi um refúgio diante da pressão por resultados. “Vivo o esporte com os nervos à flor da pele. No meio veterinário, descanso a minha cabeça.”

Após alguns anos na encruzilhada, alguns começam a se preocupar mais com o futuro. Em busca de segurança, André Luiz “Boy” decidiu reduzir a carga de treinos para ficar mais tempo à disposição do mundo corporativo. O atleta se despediu da seleção brasileira de rúgbi após os Jogos do Rio e passou a se dedicar apenas ao seu clube, o SPAC. “Se o treinador te cortar da equipe, você sai com uma mão na frente e a outra atrás. Na empresa, sou registrado e tenho todos os direitos.”

O temor também faz Taís Rochel, da esgrima, analisar as duas frentes de trabalho. “Estou vivendo a minha melhor fase na esgrima, mas tenho 33 anos e preciso pensar um pouco mais na minha carreira profissional. Meu salário diminuiu quase pela metade após a Olimpíada, mas tenho uma boa formação para me reerguer. É uma fase de transição.”

MÁRIO JÚNIOR SE DIVIDE ENTRE SUAS DUAS PAIXÕES

Mário José dos Santos Júnior tem dois objetivos até 2020: os Jogos de Tóquio e o doutorado na área veterinária. Em busca de sua quarta Olimpíada, o atleta do clube BM&F Bovespa percorre 250 km semanais nos treinos. Na área acadêmica, faz um mestrado em patologia experimental e ambiental. “Não imagino uma vida sem a marcha atlética e sem a veterinária.” As profissões caminham juntas, afinal, o atletismo lhe rendeu uma bolsa de estudos na universidade. Em casa, ele ainda cuida dos cães da raça Staffordshire Bull Terrier – Maximus, Lola, Mama e Rambo, premiado em concursos de beleza.

CHRIS MCPHERSON DÁ AULAS PARA PAGAR AS CONTAS

Enquanto realizava o sonho de disputar a Olimpíada, as contas não paravam de chegar na casa do inglês naturalizado brasileiro Christopher Paul McPherson em Porto Alegre. E o jogador da seleção brasileira de hóquei sobre grama não teve tempo a perder na retomada das aulas particulares do seu idioma nativo. Cobra R$ 65 por hora, mas dá desconto para quem faz mais de uma aula por semana. Chris é pai de Chloe, 3 anos, e Mia, 9 meses, e vai à casa dos alunos por uma questão de espaço. Além disso, prefere não se limitar aos livros didáticos usados pelas escolas. “Gostaria de viver só de hóquei, mas infelizmente não é possível”, lamenta.

ANDRÉ LUIZ ‘BOY’ COLOCA TRABALHO E RÚGBI NA BALANÇA

Desde que foi contratado pela corretora de câmbio Decyseo, em 2010, André Luiz “Boy” não usa suas férias para descanso. Os dias foram parcelados para cobrir as diversas viagens da seleção brasileira de rúgbi. E foi preciso contar com a flexibilidade do chefe Fabian Maggiori para conciliar a vida esportiva e a função de auxiliar administrativo. De moto nas ruas de São Paulo, visita os clientes e faz entregas entre um treino e outro. Para ele, a vida dupla nunca atrapalhou seu desempenho. Mas admite: “Seria bom ter me dedicado 100% ao esporte, teria mais tempo de descanso.”

ROTINA ESTRESSANTE E A TRIPLA JORNADA DE RENATO LEITE

Renato Leite consegue fazer seu dia render. Aos 34 anos, o levantador da seleção brasileira de vôlei sentado acorda bem cedo, deixa o filho na escola e logo vai para o banco Itaú, onde atua como consultor de negócios internacionais. Sai às 18 horas em direção ao Paineiras para treinar. Ainda arruma tempo de ficar com a esposa e brincar com o filho. “É bem estressante, acho que só consigo conciliar porque sou muito agitado. Queria poder viver só do esporte se tivesse uma remuneração boa. Aí poderia utilizar meu tempo para fomentar o esporte paralímpico, dando palestras”, diz

TAÍS ROCHEL ENFRENTA MOMENTO DE REFLEXÃO

A esgrima é um esporte tradicional na Itália, país de referência também no mercado da moda. Combinação perfeita para a brasileira Taís Rochel durante a preparação para os Jogos Olímpicos. Enquanto treinava com as melhores do mundo, dedicava-se aos estudos de pós-graduação em consultoria de imagem na Accademia del Lusso. Isso depois de um curso no Fashion Institute of Technology, em Nova York. A atleta, que já teve sua própria confecção, voltou ao Brasil e passa por um período de reflexão. “Agora que o conto de fadas da Olimpíada acabou, estou começando a repensar a meu lado profissional na moda e na esgrima.”

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