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Agência diz que não há tempo para controlar doping nos Jogos do Rio

Dick Pound reconhece que a Wada deveria agir com mais firmeza

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2015 | 02h01

Os Jogos Olímpicos do Rio vão ocorrer sob a sombra do doping, garante Dick Pound, investigador que assumiu a tarefa da Agência Mundial de Antidoping (Wada, na sigla em inglês) para apurar o caso do atletismo da Rússia. Para Pound, o grande temor é de que não exista tempo suficiente até o Rio para fazer a varredura necessária em todas as federações nem modificar a forma pela qual os exames são realizados.

O especialista da Wada e responsável pelo relatório que coloca os russos sob suspeita diz que, durante as duas semanas dos Jogos, o COI age de maneira exemplar. Mas tem seus braços atados durante a preparação dos atletas.

"Em 1988, Ben Johnson tinha batido o recorde da prova mais esperada dos Jogos e, mesmo assim, foi banido. Mas só temos essa janela para agir. O que ocorre antes é muito difícil de ser controlado", admitiu.

Pound reconhece que a agência deveria agir com mais firmeza. "Acho que fomos um pouco brandos ao usar nossos músculos", disse, em relação ao poder da Wada. "Passamos a maior parte do nosso tempo tentando convencer as pessoas a cumprir as regras. Mas, se depois de tanto tempo alguém ainda não cumpre, isso significa que não estão fazendo esforços", disse.

Para ele, um dos erros tem sido o fato de que certas decisões de punir entidades e países têm sido políticas, e não técnicas. "Essas decisões precisam sair da mesa política e devem ser colocadas no campo técnico", insistiu. "A ideia não é a de excluir as pessoas dos Jogos. Mas, as vezes, esse é o preço que deve ser pago", disse Pound.

Na segunda-feira, ele publicou um informe de 350 páginas descrevendo a indústria montada em Moscou para garantir medalhas, com a ajuda do doping e o envolvimento do governo russo.

Questionado pelo Estado, ele deixou claro que estava recomendando o afastamento dos atletas russos do Rio, o que seria por si só um golpe duro contra o evento. Em 2012, em Londres, os russos ficaram em segundo lugar no atletismo, superados apenas pelos americanos.

Mas fontes que participaram da investigação confirmaram ao Estado que as descobertas sobre os russos só "abriram a caixa de Pandora". "A partir de agora, sabemos que tudo estará sob a sombra do doping", disse um membro do comitê de investigação, na condição de anonimato.

Para os investigadores, se os russos forem autorizados a competir no Rio, cada uma de suas medalhas será questionada. Caso os russos de fato não estejam no Rio, a dúvida que vai incomodar a todos é se as demais equipes também teriam recorrido aos mesmos métodos. "Todos estão sob suspeita", admitiu Pound à reportagem.

Pound não esconde que tem sérias dúvidas também sobre o Quênia, uma das potências no atletismo. "O Quênia tem problemas reais", disse. "Eles têm sido lentos em reconhecer o problema. Se não houver uma investigação, alguém fará o trabalho por eles", ameaçou.

Sobre o Brasil, ele deixou claro que existiram suspeitas de que haveria um esforço para se construir uma equipe que pudesse trazer mais medalhas em 2016. "Sabemos que todos os anfitriões tentam obter melhores resultados", disse. Por isso, segundo ele, o laboratório no Rio foi descredenciado pela Wada.

PUNIÇÃO 

O COI emitiu nota exigindo que a Federação Internacional de Atletismo (Iaaf) inicie ações disciplinares contra atletas acusados de doping pelo informe da Wada, incluindo cinco atletas e cinco técnicos. Para o COI, eles devem ser banidos de forma vitalícia. Uma delas é Mariya Savinova, medalha de ouro em Londres em 2012.

O COI também suspendeu Lamine Diack, ex-presidente da Iaaf, acusado de ter recebido propina dos russos.

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