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Ahmed defendia abertamente o EI Reprodução/Facebook

Ahmed, radical, fazia apologia ao Estado Islâmico na Paraíba

Ex-cristão e ex-ateu foi expulso de sala de oração muçulmana em João Pessoa em razão de suas posições

Adriana Carranca, Especial para O Estado

22 de julho de 2016 | 05h00

Antonio (Ahmed) Andrade dos Santos Junior, de 34 anos, um dos presos pela Polícia Federal, por suspeita de planejar uma ação terrorista no Brasil, às vésperas da Olimpíada, é um ex-cristão e ex-ateu que se radicalizou pela internet e chegou a ser banido da mussala (sala de oração, para muçulmanos) onde teve o primeiro contato com o Islã, em João Pessoa, na Paraíba, por suas declarações radicais e apologia ao Estado Islâmico.

Pai de um menino de nove meses, de um casamento arranjado com uma brasileira que adotou o Islã como ele, também tinha problemas com a família por seu radicalismo. Ele aparece ao lado de outro preso, o paulista Vitor Magalhães, em uma foto tirada no Egito, ao lado de uma bandeira negra do grupo terrorista. Antonio e Vitor viajaram juntos ao Cairo, entre 2013 e 2014, onde passaram seis meses estudando religião em uma universidade particular.

Ao voltar do Egito, Andrade passou a defender abertamente o EI, segundo pessoas próximas a ele. Mas já teria se radicalizado, pouco antes da viagem, por meio de contatos via internet, após se "reverter" (termo usado por muçulmanos para designar a conversão ao islã) em uma mussala de João Pessoa, da qual foi banido mais tarde, por suas posições extremistas.

A mussala funciona dentro de uma academia de boxe, na periferia de João Pessoa, a Associação Beneficente Esportiva Muçulmana Mesquita'a Brothers, do ex-campeão Muhammad Al Mesquita. Batizado cristão, Andrade treinou boxe no local, do qual era vizinho, durante oito anos, antes de se "reverter" ao Islã.

"Ele ficou aqui como aluno por oito anos e chegou a competir. Eu praticamente o criei. Era um menino muito bom. Eu falava a ele sobre religião, mas ele ria. Era completamente ateu. Um dia, ele me pediu para se reverter. Eu disse a ele que ele precisava estudar mais o Islã, antes disso. Nos tivemos muitas conversas. Uma noite, bem tarde, ele me ligou e disse que estava pronto. Então, ele fez a shahada (declaração de conversão ao Islã)", conta Muhammad Al Mesquita. "Só que, depois disso, ele começou a mudar muito. Ele passou a seguir pessoas na internet, a ler textos que não eram bons. Eu dizia para ele: 'Ahmed, cuidado.'"

Mas Ahmed já não ouvia. "Ele começou a ter pensamento próprio. Então, um dia, eu o proibi de voltar à academia e à mussala. Um dia ele me ligou e eu pedi a ele que não me procurasse mais, se ainda tivesse aquelas ideias. Eu descobri que ele não era do bem, não era grato pelo que fiz por ele."

Muhammad diz que recebeu a visita de agentes da Polícia Federal três vezes em sua academia. "Sofro muito, porque procuro passar a eles a mensagem sagrada, o caminho de Deus e da paz. Mas esses covardes estão acabando com nossa fé. O verdadeiro Islã não é isso. Não tem nada a ver com terrorismo."

Após ser banido da mussala, Andrade parecia revoltado. Ele foi procurar o Centro Islâmico de João Pessoa, fundado por João (de Deus) Cabral, ex-pastor evangélico que adotou o Islã em 2008. O jovem frequentou a mussala por cerca de três anos, mas Cabral também começou a ficar preocupado com a conduta de Andrade. O líder religioso chegou a dar conselhos a Andrade. Depois de um tempo, ele se afastou. "Nunca mais conversei com ele. Exatamente por conta dessas ideias", disse Cabral, por telefone. Ele hoje vive em Dubai. "O Islã repudia quaisquer atos de violência."

Andrade passou a visitar a mussala ocasionalmente, em festas religiosas. A última vez foi no feriado de Eid, quando os muçulmanos celebram o fim do mês sagrado do Ramadan, no dia 7 de julho. Acompanhado da mulher e do filho, ele permaneceu no local por pouco tempo e não conversou muito. 

Andrade vive em um bairro da periferia de João Pessoa com os pais, aposentados e a mulher, uma jovem revertida pela Internet há três anos, com quem tem um filho de nove meses. Eles são casados há dois anos. Uma jovem brasileira que adotou o Islã e frequentava a mesma mussala diz que Andrade tinha discussões com a mãe por causa de suas ideias radicais e não permitia que ela cumprimentasse homens nem mesmo dando as mãos. 

Andrade fazia bicos em João Pessoa e nunca se fixou em nenhum emprego. Chegou a mudar para São Paulo e trabalhar com refugiados em uma ONG da comunidade islâmica. Ele teve sua página no Facebook bloqueada várias vezes por incitação à violência e manteve o blog "Por que deixei o cristianismo e me converti ao Islã".

 

 

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Família crê que suspeito de planejar atentado foi preso por falar árabe

Mãe de suspeito diz que suspeito falou para policiais que 'ia cooperar' pois 'não devia nada'

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

22 de julho de 2016 | 05h00

Os agentes da Polícia Federal que cumpriram um dos mandados de prisão nesta quinta-feira contra acusados de terrorismo foram prender um dos suspeitos, o ajudante de funileiro Vitor Barbosa Magalhães, de 23 anos, em um endereço errado. Segundo seus familiares, foi o próprio rapaz que se apresentou aos agentes e abriu sua casa – onde mora com mulher e filhos, em Guarulhos, Região Metropolitana de São Paulo – antes de ser detido pelos policiais.

A família acredita que Magalhães entrou na mira da operação antiterrorismo por ser muçulmano e falar árabe. O jovem tem quatro vídeos no Youtube em que ensina o idioma. Há quatro anos, segundo os familiares, ele esteve no Egito em um programa de intercâmbio para aprender a língua, onde ficou por seis meses. A dona de casa Larissa Rodrigues, de 24 anos, mulher de Vitor, definiu a prisão como "tranquila". "Os policiais estavam calmos, foram educados, se preocuparam em não serem vistos pelas crianças", conta Larissa, referindo-se aos filhos de 2 e 5 anos. "Eles foram na minha casa, que fica na rua de cima. Quando chegaram, tocaram muito a campainha, logo cedo. Perguntaram se o Vitor morava lá e expliquei que não", conta o funileiro Francisco Barbosa Magalhães, de 49 anos, seu pai.

Ainda segundo o funileiro, quando soube que os policiais estavam atrás do filho, ele os levou até a casa onde o acusado vive com a família – o imóvel ocupa o segundo andar da funilaria da família. "Ele falou que iria cooperar, que não devia nada. O mandado de busca não era para a casa dele, mas ele falou que os policiais podiam entrar", diz a mãe Rose Barbosa Magalhães, de 47 anos. "Achei que fosse terminar ali, não sabia que iriam levá-lo", lembra, aos prantos.

Uma foto do rapaz, durante o intercâmbio, ilustrou uma reportagem sobre brasileiros que teriam jurado lealdade ao Estado Islâmico publicada na semana passada. "Ele falou que não tinha nada a ver, que ele mesmo nem tinha essa foto", conta sua mulher. "A gente ia processar a revista", conta.

HISTÓRICO

A família do acusado é católica. Já ele se converteu ao islamismo, segundo sua mãe, depois do contato com a língua árabe, que ele se dedicou a aprender. "Ele é meu orgulho, sempre foi muito estudioso e inteligente", contou Rose, que é dona de casa, na porta da casa do filho, nesta quinta à noite, poucas horas depois da prisão.

O rapaz passou parte da infância na Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo, mas se mudou com a família para Guarulhos quando tinha 6 anos e o pai adquiriu um terreno. Frequentou as escolas da cidade. Ele trabalha como ajudante na oficina do pai, no bairro Bonsucesso, de Guarulhos. Vive em uma casa construída no segundo andar do lugar, desde que voltou do Egito. O trabalho, segundo o pai, é desgastante e exige muito esforço. O dinheiro é suficiente apenas para pagar as contas. "O que ele gosta é de ficar com os filhos e de comer. Ele adora comer", diz a mãe, destacando o porte físico forte do rapaz.

O interesse pela língua árabe foi o que o levou ao Egito, quando tinha 19 anos. "Eu não sei como ele conseguiu o intercâmbio. Não sei quem deu. Mas a gente apoiou, era uma oportunidade única. Quanto custa uma viagem dessas, R$ 8 mil? Jamais teríamos esse dinheiro", conta a mãe. "Eu não quis que ele fosse. Falei para não ir. Estava com filho pequeno. Mas conversamos muito, achamos que seria uma oportunidade para ele ter uma profissão melhor, por isso aceitei. No fim, foi muito bom", conta a mulher do acusado.

A conversão para a religião muçulmana também foi outra surpresa – essa, segundo os familiares, com menos resistência. "Eu não soube o que achar na hora. Mas a gente era mais jovem, ele quis buscar uma religião e achou. Depois, ele ficou mais calmo, mais seguro. Foi uma mudança muito boa. Meu marido ama muito os filhos, é um cara 'só trabalho'. Eu o amo muito", continuou a mulher. O ajudante de funileiro frequenta uma mesquita no Pari, zona norte de São Paulo, segundo sua mulher. "Já fui lá com ele algumas vezes. Gosto", diz a jovem. A mãe destaca o fato de ele fazer as orações diárias.

Para a família, o interesse pelo idioma e a conversão religiosa foram resultados da natureza curiosa de Magalhães, que sempre gostou de fazer pesquisas na internet e conhecer coisas e culturas novas. A vontade dele era ensinar, segundo a mulher. "Eles está fazendo licenciatura, quer dar aulas de inglês", conta Larissa. Para o pai, seria a chance de o filho ter uma renda sem depender do trabalho braçal da oficina.

INTERNET

A relação com outros muçulmanos, entretanto, não ocorre no meio familiar. Magalhães procura as redes sociais e para manter contato com outros falantes de árabe e interessados no idioma. "Fui eu quem gravou os vídeos que ele fez no Youtube, ele gosta muito", diz a mulher. Larissa é enfática em afastar essas relações com planejamento de ataques terroristas. "Olha, meu celular está quebrado, os dos meus filhos quebraram. Então, uso o telefone dele. Eu vejo o telefone o tempo todo. Quando a polícia chegou, eu que estava com o telefone. Estava vendo um vídeo", conta. O aparelho foi levado pelos policiais, que também apreenderam um computador.

Já o pai não descarta que outros dos presos na ação desta quinta pudessem ter contato com o filho por meio das redes socais. "Pode ser que ele conhecesses alguns dos outros, sim. O problema é que, pelo que vi, parece que um deles tentou comprar uma arma. Aí começaram a prender", cogitou o funileiro Francisco. Os familiares disseram que Magalhães foi levado para um presídio, e que não há previsão de que ele possa receber visitas.

"Ele me abraçou, pediu para eu ficar calma, que não tinha nada de errado e que era só ajudar os policiais que ia ficar tudo bem. Eu achava que ele fosse prestar depoimento e ser liberado ainda hoje (quinta-feira)", contou. "Pode ser que ele conheça algum dos outros presos, porque ele estava em grupos para falar árabe. Mas o problema, me disseram, foi que uma pessoa quis comprar uma arma."

 

 

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