EFE
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Ainda não dá para ganhar medalha

A cidade-sede da Olimpíada está em decadência desde a década de 60. Os Jogos não mudarão isso

O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2016 | 05h00

Quando o Rio de Janeiro conquistou, há quase sete anos, o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016, a Cidade Maravilhosa parecia fazer jus a seu apelido. Os índices de violência, tão intrinsecamente associados à imagem do Rio quanto suas praias, vinham caindo havia mais de uma década. A economia da cidade (e do Estado) crescia em ritmo acelerado, graças à demanda mundial pelo petróleo que enriquece o subsolo de sua costa marítima. Os Jogos mostrariam ao mundo uma cidade próspera, autoconfiante, sustentavam seus organizadores. Não menos importante, o Rio teria a oportunidade de provar que é capaz de se preparar para realizar um evento de grande porte, e não apenas cair na farra, enterrando de uma vez por todas a ideia de que “o Brasil não é um país sério”, como disse um diplomata brasileiro nos idos dos anos 60. “Aqueles que nos derem essa chance não irão se arrepender”, asseverou o então presidente Luis Inácio Lula da Silva, que trouxe a Olimpíada para o Brasil.

Faltando poucos dias para a cerimônia de abertura, marcada para 5 de agosto, a autoconfiança do Rio está abalada. No dia 24, a delegação australiana retirou seus atletas da Vila Olímpica, na Barra da Tijuca, queixando-se de vasos sanitários entupidos e fios elétricos desencapados. Mas esses são transtornos triviais e contornáveis perto dos problemas que afetam a cidade-sede. Em algumas áreas, a baía da Guanabara, onde serão realizadas as provas de vela, continua sendo um esgoto a céu aberto. Um surto do mosquito portador do vírus da zika, que causa microcefalia em recém-nascidos, afugentou alguns esportistas. Os golfistas, em particular, parecem querer distância do Rio, como se a praia de Ipanema fosse um gigantesco banco de areia. No início do mês, policiais e bombeiros do Estado, cujos salários estavam atrasados, fizeram uma manifestação no aeroporto internacional do Galeão, recebendo os turistas com cartazes estampando a frase “Bem-vindos ao inferno” (escrita em inglês). As obras de uma nova linha do metrô e de um corredor de ônibus, legados mais importantes que os Jogos deixarão para os cariocas, estão atrasadas.

A essas dificuldades locais, somam-se crises nacionais. O Brasil vive uma recessão aguda. Alvo de um processo de impeachment por conta de supostas manipulações na contabilidade do governo federal, a presidente Dilma Rousseff foi afastada do cargo, que por ora está sendo ocupado pelo vice-presidente Michel Temer. O Rio é um dos centros da disfunção nacional. A sede da Petrobrás, estatal que é foco de um enorme escândalo de corrupção, fica na cidade. Os responsáveis pelo patrulhamento de suas ruas não fogem à regra da truculência característica dos policiais brasileiros: só em maio, mataram 40 pessoas. A fama que o Rio tem de ser uma Dorian Gray urbana – por fora, um visual lindo; por dentro, podridão – não é de todo imerecida.

Mas o Rio talvez ainda faça os céticos dobrar a língua. Todos os anos a cidade realiza um carnaval monumental sem mergulhar no caos. As arenas esportivas estão prontas. O estouro nos orçamentos das obras e de outros gastos com a Olimpíada é inferior à média dos valores excedidos nas outras cidades-sede, e a maior parte dos recursos veio do setor privado. O governo federal transferiu US$ 2,9 bilhões para o Estado do Rio, a fim de que pudessem ser pagos, entre outras coisas, os salários atrasados de seus policiais. Também enviou 27 mil soldados do Exército e da Força Nacional para combater o crime e prevenir atentados terroristas (no dia 21, as autoridades brasileiras disseram ter frustrado os planos de alguns jihadistas locais). A conclusão das obras de transporte público está atrasada, mas os ônibus estão rodando, e os organizadores prometiam que no último sábado o metrô já estaria funcionando (foi, de fato, inaugurado). Depois da realização de pequenos reparos em seus apartamentos, a delegação da Austrália retornou à Vila Olímpica.

Os australianos, assim como as 500 mil pessoas que devem assistir aos Jogos, irão embora quando acabar a Olimpíada. Os 6,5 milhões de habitantes da cidade, não. Para os cariocas, não fará muita diferença se os Jogos Olímpicos forem um sucesso ou um fracasso: o evento pouco terá contribuído para interromper a longa trajetória de decadência vivida pela cidade.

Beleza pode até ser fundamental, mas não é suficiente. Vivendo na deslumbrante orla do Rio, em uma das cerca de mil favelas da cidade ou em seus bairros-dormitório, os cariocas não andam muito animados. Uma estudante de Direito que se mudou para a cidade há três anos, pensando em se estabelecer definitivamente depois de concluir os estudos, agora quer ir embora: não aguenta mais os cortes no orçamento da universidade pública de que é aluna e as greves que a impediram de concluir vários cursos. Em 2008, um grupo de empresários tentou contribuir para a melhoria do funcionamento administrativo do Estado, contratando uma consultoria renomada para oferecer orientações aos gestores públicos. Passados alguns anos, os burocratas retomaram os hábitos clientelistas. Amigos cariocas do cineasta José Padilha, que atualmente mora em Los Angeles, têm aconselhado o diretor de Tropa de Elite a ficar por lá. Segundo levantamento realizado em setembro de 2015, 56% dos cariocas gostariam de mudar para outra cidade, frente a 27% que manifestavam esse desejo em 2011. 

A nenhum turista escapará a chocante justaposição de riqueza e pobreza, consequência da topografia exuberante da cidade, bem como da incúria de seus governantes. Os moradores do encantador bairro da Gávea costumam passar dos 80 anos, 13 a mais que seus vizinhos da Rocinha. A variação nos índices de criminalidade é enorme. No ano passado, houve 133 mortes violentas em Santa Cruz, bairro só aparentemente tranquilo da Zona Oeste da cidade. Nos três bairros da orla da Zona Sul, onde vivem mais ou menos o mesmo número de pessoas que em Santa Cruz, foram apenas 11. A prioridade em Copacabana, onde 25% dos moradores, em sua maioria de classe média, têm 65 anos ou mais, é consertar as calçadas desniveladas, diz o jornalista e escritor Fernando Gabeira, que concorreu à Prefeitura da cidade em 2008. No Complexo do Alemão, na Zona Norte, a população majoritariamente jovem precisa é de escolas melhores e mais emprego. Mas a preocupação com a criminalidade é generalizada.

Não é nas avenidas da orla ou nas vielas dos morros que mora a maioria dos cariocas. A Zona Sul concentra 11% da população. As favelas ocupam 3,7% da área da cidade e abrigam outros 22%. A maior parte dos habitantes do Rio mora nos edifícios baixos e insípidos que cobrem as Zonas Norte e Oeste. E ainda há a Barra da Tijuca, uma mini Miami de crescimento acelerado, onde sobressaem as concessionárias de automóveis, o solo pantanoso e os condomínios cafonas, com nomes como “Sunflower” e “Villaggio Feilicitá”.

O turismo e outros serviços geram a maior parte dos empregos: um quarto dos jovens trabalha em bares e restaurantes. Muitos perdem horas no trânsito para ir de casa para o trabalho. Emanuel, um jovial senhor de 60 anos, ao qual falta um dos dentes da frente, queixa-se de levar uma hora e meia para percorrer os 24 km que separam Jacarepaguá do Leblon, em cuja praia ele vende mate gelado e biscoitos. Diariamente, cerca de 2 milhões de pessoas deixam suas casas na periferia para trabalhar nas regiões mais centrais do Rio.

 

As raízes dos problemas cariocas datam, pelo menos, de 1960, quando a sede do governo federal se transferiu para Brasília. Quarenta anos antes, o Rio havia perdido a liderança industrial para São Paulo, onde havia mais espaço e mais imigrantes. A perda da condição de capital do País foi um golpe de que a cidade até hoje não se recuperou. A ideia de mudar a sede do governo para incentivar o desenvolvimento no interior do Brasil era antiga: já constava da Constituição de 1891. Poucos brasileiros a levavam a sério, até que o presidente Juscelino Kubitschek, eleito em 1956, sancionou uma lei fixando os limites do futuro Distrito Federal e criou a companhia que se encarregaria da construção da cidade modernista. Mesmo depois que os funcionários públicos começaram a se mudar para o Planalto Central, os cariocas achavam que a transferência não alcançaria os ministérios mais importantes. Quem trocaria a Cidade Maravilhosa, indagavam-se eles, pela desolação do cerrado? Transformado na cidade-Estado da Guanabara, por algum tempo o Rio continuou próspero, mas não tardou a ser incorporado ao empobrecido Estado do Rio de Janeiro.

Quando chegaram os anos 80, quase todos os órgãos federais haviam desaparecido. Então foi a vez do setor financeiro. O Banco Central deixou de usar a cidade como principal centro de negociação dos títulos públicos brasileiros. Uma onda de sequestro afugentou os banqueiros. Ente 2000 e 2002, a bolsa de valores do Rio, fundada 180 anos antes, foi absorvida pelas bolsas paulistas. A sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ainda fica no Rio, e nos últimos anos, algumas gestoras de ativos se instalaram na cidade. Mas a importância do Rio para a economia brasileira vem diminuindo progressivamente. 

Além da bacanal anual entre fevereiro e março, o Rio ainda não encontrou outra vocação dinâmica com que substituir as atividades financeiras e burocráticas. Em 2007, a descoberta de enormes reservas de petróleo no chamado pré-sal pareceu oferecer à cidade (e ao Estado) uma fonte alternativa de empregos e crescimento. Alguns anos mais tarde, porém, veio a queda nos preços do petróleo e o escândalo da Petrobrás. O boom do setor petrolífero reverteu o declínio relativo da economia, mas talvez sido apenas por um breve período. A cidade hospeda algumas universidades e empresas criativas: Rede Globo, maior grupo de mídia brasileiro, além de unidades de pesquisa da Microsoft e da GE. Mas é pouco para dar origem a uma economia mais pujante.

A cultura tampouco foi capaz de ocupar o lugar das atividades comerciais. A Bossa Nova surgiu nas praias do Rio, na década de 50, mas de lá para cá a cidade se tornou asfixiante, diz Caetano Veloso, que mora no Rio. O misto de música brasileira e pop que foi o Tropicalismo nasceu em São Paulo. “O Rio era muito blasé”, diz o compositor. Abençoada com os recursos naturais do petróleo e da paisagem exuberante, a cidade não se mobilizou para criar riquezas próprias. Os cariocas não plantam, “só querem colher”, observa o escritor e jornalista Ruy Castro.

Esperanças olímpicas. A política pouco fez para tirá-los de sua acomodação. A condição de capital nacional freou a formação de instituições locais. Os presidentes indicavam o prefeito da cidade, cujas decisões podiam ser desautorizadas pelo Senado Federal. Os prefeitos ofereciam empregos aos filhos dos senadores, fomentando práticas de apadrinhamento de que o Rio até hoje não se livrou. A fusão entre Rio de Janeiro e Guanabara, imposta pelo regime militar, trouxe a cultura clientelista do Estado para a cidade. O governo estadual, em particular, destaca-se pela irresponsabilidade fiscal, ao mesmo tempo em que destina menos recursos do que deveria para estimular os investimentos e melhorar a qualidade de vida da população mais carente.

Em junho, o governador em exercício, Francisco Dornelles (PP), decretou estado de calamidade pública em razão da crise financeira por que passa o Estado, formalidade que permitiu ao governo federal prestar auxílio às autoridades estaduais durante a Olimpíada. A causa imediata da crise foi a queda na arrecadação tributária e nos royalties provenientes do petróleo, mas o caminho já havia sido pavimentado por anos de negligência fiscal.

Os cariocas tinham a esperança de que os Jogos servissem como um catalisador, impulsionando a melhoria dos serviços públicos e a criação de mais empregos. A administração municipal atendeu em parte a essas expectativas. O prefeito Eduardo Paes (PMDB) praticamente triplicou os gastos com saúde e educação. A Prefeitura contratou 43 mil professores e 21 mil profissionais de saúde, 80% dos quais trabalham nas áreas mais pobres da cidade. Agora, 4,4 milhões de pessoas têm acesso a médicos de família, frente a 329 mil quando Paes assumiu o cargo, em 2009. O porcentual de cariocas atendidos pelo transporte público passou de 18% para 63% durante seu governo. Essas coisas precisavam ser feitas de qualquer forma, admite o prefeito, mas a Olimpíada forneceu um “pretexto” para implementá-las com mais celeridade. As obras públicas associadas aos Jogos estimularam a economia local num momento em que o País entrava em recessão. Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, enquanto no país a renda caía, os cariocas estavam ganhando mais.

Por sua vez, o governo estadual envidou esforços para controlar a criminalidade. Numa série operações policiais e militares iniciadas em 2008, 38 favelas foram ocupadas. As quadrilhas de traficantes foram expulsas e em seguida o governo instalou “Unidades de Polícia Pacificadora” (UPPs). Deu certo: de 2009 a 2012, os índices de violência caíram pela metade.

Mas o comando da polícia criou um número excessivo de UPPs num intervalo muito exíguo de tempo, sobrecarregando seus contingentes. No treinamento, a ênfase continuou recaindo nas técnicas relacionadas com o controle de território, e não nas práticas necessárias à criação de laços fortes com a comunidade. “Com um ano disso você transforma até um monge beneditino num guerreiro”, lamenta Íbis Pereira, que já foi chefe de gabinete do Comando-Geral da Polícia Militar e hoje trabalha na ONG Viva Rio. No Complexo do Alemão, os tiroteios entre traficantes e policiais voltaram se tornar frequentes, diz Luísa Cabral, assistente social que trabalha na região. Depois de recuar, o número de mortes violentas tornou a crescer em toda a cidade este ano. Cabral agora acha que o governo deveria tirar as UPPs das favelas e permitir o retorno dos traficantes. Depois que, em entrevista à CNN, Paes acusou o governo estadual de fazer um trabalho “horrível” na área de segurança, 20 mil americanos devolveram os ingressos que haviam comprado para assistir à Olimpíada.

Se forem um sucesso, os Jogos podem contribuir para melhorar o ânimo dos cariocas. Infelizmente, não será o bastante para transformar o Rio num polo de desenvolvimento econômico. A paisagem espetacular faz com que as pessoas tenham vontade de conhecer a cidade, mas só mais políticas inteligentes de combate à criminalidade, só uma gestão mais criteriosa das finanças públicas e só serviços públicos de melhor qualidade farão com que elas queiram ficar. Enquanto seus governantes não se encarregarem disso, o Rio não terá como se tornar uma grande cidade; continuará sendo apenas um lugar lindo, em que poderia haver uma cidade maravilhosa.

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