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Além do ouro

Ganhar a tam 'medalha inédita' vale menos do que o Brasil renascer no futebol

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2016 | 03h00

Atenção, prepare-se para ler e ouvir à exaustão, daqui até o dia 20 de agosto, que a seleção brasileira vai em busca “do inédito ouro olímpico” no futebol. Parece um mantra, que se repete a cada edição dos Jogos em que a turma da amarelinha consegue classificar-se. Ou um carma, vai saber, a martelar a cabeça da gente. Obsessão meio besta de um país que tem cinco títulos mundiais no profissional, que no fundo é o que conta e interessa.

Mas, vá lá, serve para chamar a atenção para as proezas de Neymar e séquito por Brasília, Salvador, São Paulo e provavelmente Rio nas próximas semanas. Uma forma de atrair público para os estádios, audiência e, se possível, de engrossar quadro de medalhas patrícias. O ouro é tido como barbada pela turma do COB, que espera mostrar que nos tornamos potência mundial de esportes desde que terminemos entre os dez primeiros. Verdade aceita por quem quiser...

Se são favas contadas o título no masculino ninguém sabe; até prova em contrário, futebol não se ganha de véspera e é das modalidades em que as zebras mais se divertem. Certo que jamais o Brasil foi tão favorito para ficar no topo do pódio. Por jogar em casa, pela qualidade dos jogadores, pelo nível dos concorrentes. Fora a Argentina, e com muitas ressalvas, é um monte de time meia boca que veio pra cá. O porém é que, vira e mexe, tem um africano para estragar a vida dos graúdos. 

Em resumo, trata-se de consenso de que os brasileiros têm obrigação de botar a medalha dourada no peito. Prata e bronze, já conquistadas em outras ocasiões, também não servem. Ou o primeiro lugar ou a vergonha; sem espaço para o meio-termo.

Será que existe só uma alternativa para o paraíso? As demais significam o inferno? Tenho dúvidas. Feio, no duro, eventual desclassificação na fase de grupos, ou nas quartas de final. Constrangedora, de doer, se ocorrer uma surra nas semifinais, num trágico repeteco do Mundial de 2014. Essa hipótese não creio viável, mesmo.

Como tudo na vida é relativo, derrota na final talvez não seja ruim nem fato a lamentar. Assim como o ouro pode ter brilho opaco, mesmo que satisfaça egos de cartolas e infle arroubos nacionalistas. Tudo depende de como a equipe apresentar-se no torneio. Eis o ponto que devemos levar em consideração – ao menos a imprensa que não se comporta como “parceira” nem como corneteira. 

Uma constatação: a rapaziada chamada por Rogério Micale entende do riscado. Não tem perna de pau no grupo que há dias treina em Teresópolis e que ontem movimentou os músculos e a cintura em amistoso com o Japão. De Prass, com 37 anos, a Gabriel Jesus, com 19, tem gente boa de sobra. Neymar, o astro do bloco de talentos que pretende amalgamar-se em seleção forte em brevíssimo prazo. E tem condições para tal. (Não vale falar em “projeto olímpico” da CBF, que é papo de Papai Noel.)

A torcida deve ser para que esses jovens mostrem futebol digno, divertido, criativo, abusado. Sem deixarem de ser competitivos, compenetrados ou taticamente disciplinados. A esperança de quem está envergonhado com os 7 a 1 e com desclassificações frequentes e recorrentes em Copa América e Libertadores precisa condensar-se na possibilidade de vermos um grupo que jogue bem, bonito, que estimule fantasias para a Copa de 18.

Micale tem a oportunidade de fazer história – outro termo que você vai cansar de ouvir –, não por causa do ouro, mas por resgatar a autoestima do torcedor. Imagine se o trio Neymar, Gabigol, Gabriel Jesus arrebentar na Olimpíada, descontado o nível dos rivais? Haverá clamor para que seja mantido na seleção “adulta”, encalacrada na sexta colocação nas Eliminatórias. 

Se o meio de campo funcionar, se a defesa se mostrar segura, se Prass fechar o gol, reflexo positivo será colhido por Tite. Venha ou não o ouro; tanto faz, desde que o Brasil saia do maldito limbo em que se meteu.

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