Francisco Seco / AP
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Alison, que sempre será o 'Téco', põe São Joaquim da Barra em festa com bronze em Tóquio

Medalhista nos 400 metros com barreira se tornou Piu no esporte, mas, lá na casa da dona Sueli, ele tem outro apelido; quando garoto, para competir, vendia pizza para o dinheiro das viagens

Everton Sylvestre / São Joaquim da Barra, Especial para O Estadão

04 de agosto de 2021 | 15h00

Medalhista olímpico nos Jogos de Tóquio, Alison dos Santos é o assunto na pacata São Joaquim da Barra, município de 52 mil habitantes, a 380 km de São Paulo. Joaquinense, aos 21 anos, o atleta, também conhecido como Piu e que sempre será 'Téco' na família, conquistou o bronze para o Brasil nos 400 metros com barreira, uma façanha para lá de importante. Familiares, amigos e vizinhos estavam reunidos para assistir à final, em clima de festa, com bexigas verdes e amarelas, na garagem da casa em que o atleta cresceu no bairro Júlio de Lollo, na periferia da cidade.

"Foi uma festa mesmo, como se ele estivesse aqui com a gente", conta a mãe do atleta, Sueli Alves Pereira, de 50 anos. A conquista foi a realização de um sonho para Alison e para a família, como ele mesmo ressaltou em mensagem após alcançar o bronze nos 400 metros com barreira. "Eu não corro só por mim, corro pelo meu treinador, pela minha família", afirmou. Fazia 33 anos que o atletismo brasileiro não alcançava medalha olímpica em uma prova individual de pista.

"No começo, achei que ele não fosse durar, que ele não fosse aguentar. Quando ele começou a ir para os campeonatos e vir com as medalhas, de ouro, de prata, eu falei, 'isso é sério'", lembra a mãe do atleta. Sueli conta que sua mãe observou que ela era separada do marido e precisava que o filho trabalhasse para ajudá-la, mas Sueli insistiu para que ele seguisse com seu sonho, na carreira de atleta. "Falei 'só não deixe de estudar, porque se um não der certo, o outro dá'. Até estudo o atletismo deu para ele", conta.

Apesar de separados, tanto a mãe quanto o pai de Alison buscaram incentivá-lo na carreira, correndo atrás das necessidades do filho para treinar. Foi quando ele passou a ter reconhecimento e a se manter sozinho. "Ele que me sustenta", diz a mãe, destacando despesas como aluguel e mercado do mês.  "Tive um câncer, precisei retirar o estômago e tive de me aposentar. Mesmo assim é difícil, então ele me dá uma ajudinha", diz. Além do caçula, dona Sueli tem outras três filhas. Atualmente, mora com a filha Anieli, de 23 anos, que tem hidrocefalia.

DINHEIRO DA PIZZA

"Tô doida para dar um abraço nele. Ele é grandão, ele me roda nos braços, sempre brincando. Quero pular no colo dele e ficar abraçada", diz a mãe, na expectativa pelo retorno do filho. "Ele é humilde, se ele sair na rua, cumprimenta todo mundo, agradece todo mundo", comenta. Pelas ruas de São Joaquim da Barra, as pessoas confirmam a história. Dizem que se acostumaram a ver Alison correndo pelo bairro e pela cidade toda. Onde passa, cumprimenta as pessoas e oferecendo um sorriso.

A mãe lembra que a busca por patrocínios no interior foi difícil e que o filho precisou ir para a cidade de São Paulo desde os 17 anos para seguir a carreira no atletismo. "Ele começou no judô, mas se machucava muito. Começou a treinar atletismo e não parou mais", ressalta. Sueli diz que Téco participou de projetos na cidade, mas que eram mantidos mais pelo engajamento dos professores, atletas e familiares do que por investimento do poder público ou patrocínio de empresas. Tinham de vender pizzas para conseguir verba para viajar nas competições.

CICATRIZ

Alison tem uma cicatriz, com perda de cabelo. A marca é consequência de um acidente com óleo quente, que sofreu dias antes de fazer um ano. Dona Sueli conta a história. Ela estava trabalhando em um bingo quando o filho se acidentou. "Minha mãe estava com ele no colo e foi fritar um peixe. Ela foi pegar a tampa, mas quando ela olhou, ele já estava batendo a mão na panela", relata. Ela conta que, na tentativa de virar o óleo para o outro lado, a avô também queimou a mão. Alison foi tratado em Ribeirão Preto e ficou quase três meses internado. "Essas dificuldades que o fizeram ser hoje o que é", pontua Sueli. A mãe diz diz que o filho não tem mais restrições por causa do acidente e que não quis fazer cirurgia por estética.

Para Sueli, Alison ter ido a Tóquio já era uma grande conquista. Agora ela está mais do que satisfeita com a medalha de bronze e acredita que o filho pode alcançar o ouro em Paris-2024. "Agora ele é um atleta olímpico. Agora mudou um pouco", ressalta. O Comitê Olímpico do Brasil prometeu R$ 100 mil a cada medalhista de bronze. O dinheiro vai ajudar a família.

"Olha lá o Téco, é o Téco", assim que a irmã Anieli acompanhava Alison competindo na TV. Para a família, ele continua sendo o Téco, apelido de infância. O apelido Piu surgiu no atletismo. Alison enviou um áudio para tentar nos explicar a saga desse apelido: "Tem o Piu, o Piu é da cidade, ficava na rua. Depois começou a treinar um 'maluco' que parecia o Piu. Depois eu fui treinar, e eu parecia o 'maluco' que parecia o Piu", explicou.

"Nós sempre acreditamos nele. Ele passava quase o dia todo treinando, sábado e domingo, inclusive. Chegava e colocava os pés no gelo por causa das dores, mas nunca deixou de treinar", conta a irmã Drieli dos Santos, de 31 anos, consultora. "Estávamos mais ansiosos do que ele", conta a irmã sobre o adiamento dos Jogos por cauda da pandemia, ressaltando a tranquilidade de Alison. Drieli observa que o irmão é jovem e terá novas oportunidades. "Ele vai conseguir o ouro ainda."

"É um menino de ouro", considera a vizinha Elizete Alves, de 66, pensionista. Orgulhosa da conquista para a cidade, ela destaca a humildade do atleta. "Vem aqui, não faz 'pouco caso' de ninguém", disse ao Estadão.

A conquista foi uma inspiração para jovens da cidade, retratada no sorriso que abriu no rosto de Amarildo Lima Júnior, o Juninho, de 16 anos, ao comentar sobre a medalha de Alison. "Empolga, né. Dá para perceber que se a gente correr atrás, a gente também pode chegar lá", afirmou Juninho. Ele, que sonha em ser atleta profissional no futebol, tem virado as madrugadas acompanhando os Jogos Olímpicos e assistiu Alison alcançando a medalha.

A administradora Geislaine Fernanda da Silva, de 40 anos, costumava ver Alison correndo pelas ruas. "A gente sabia que ele tinha potencial. Foi merecedor. Um menino que passou tudo o que passou... Firme e forte." O estudante Antônio Covas, de 22, que jogava basquete durante a tarde de terça-feira em uma praça em frente ao Espigão, o ginásio em que Téco treinava, também passou a madrugada ligado nos Jogos Olímpicos, vendo em especial o colega da cidade.

"Hoje foi muita gente comentando, postando em redes sociais". Ele e o amigo Renan Alves Pimenta, de 24, autônomo, acreditam que poderia haver mais incentivo para os jovens no esporte. "Um cara que saiu de onde nós estamos, um lugar com pouca visibilidade, e conseguiu vencer, dá uma esperança para gente também, de um dia conseguirmos vencer também, seja em que área for", observa.

"Estamos vivendo um momento ímpar com a medalha do Alison. Com certeza, São Joaquim já está em outro patamar, está no mapa", afirma o diretor de esportes da cidade, Carlos Tagá. "Mesmo antes da medalha, nós já estávamos elaborando uma proposta para apresentar ao prefeito para inserir o atletismo nas escolas, que deve ser finalizada em breve", explica. Ele diz que deve ser algo único no país.

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