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Ameaças aos Jogos mobilizam organizadores a contratar seguros

Derramamentos de esgoto, Zika e agitação social estão no pacote de preocupações

Ken Belson, The New York Times

22 de julho de 2016 | 16h35

Aconteça o que acontecer, as Olimpíadas do Rio, marcadas para começar no dia 5 de Agosto, serão cobertas de forma ampla. Desta vez, por seguros.

Muitas potenciais ameaças se entrelaçam - Zika vírus, terrorismo, desordem civil -, mas seguradoras dizem que uma dramática interrupção ou cancelamento dos Jogos não deixarão os organizadores de mãos vazias. Aproximadamente R$ 2 bilhões em seguros foram garantidos para acobertar o Comitê Olímpico Internacional, emissoras, organizadores e outros com parcela na operação dos Jogos. 

O custo para a realização da Olimpíada é estimado em US$ 20 bilhões, incluindo a construção de estádios, locais de habitação e outros lugares. Muitos têm um propósito que vai além dos Jogos.

As políticas são projetadas para cobrir alguma ou todas as perdas diretamente relacionadas aos Jogos, sejam causadas por desastres naturais, ataque terrorista ou qualquer outro 'perigo desconhecido', como diz o termo da indústria.

Problemas de pequena escala são sucetíveis a ser cobertos. Se, por exemplo, protestos forçarem os organizadores a refazer o trajeto da maratona, os custos da operação seriam acobertados. Ou se fortes ventos ou derramamentos de esgoto atrasarem ou cancelarem eventos de vela, organizadores podem esperar um ressarcimento para qualquer dano financeiro. O Zika tem sido um foco, enquanto alguns dos maiores nomes do golfe e do tênis não virão aos Jogos porque dizem não querer correr o risco de contrair o vírus.

Tais ausências podem afetar a venda de ingressos e a audiência na televisão, prontificando organizadores, emissoras e patrocinadores a ir atrás de seus seguradores para reaver os recursos perdidos. Mas, com o início da Olimpíada para daqui a duas semanas, seguradoras já estão avisando que podem não cobrir qualquer tipo de perda relacionada ao Zika.

Na visão deles, em vez de pagar qualquer quantia relacionada a casos individuais, eles irão cobrir um adiamento ou cancelamento por inteiro dos Jogos ou de algum evento esportivo.

O Zika está atribuído à categoria de doenças transmissíveis, o que costuma ser coberto, segundo as políticas padrão. Dada a imprevisibilidade e potenciais consequências devastadoras de tais doenças, corretores de seguros vêm recomendando a seus clientes para que comprem a devida proteção.

Clientes que já compraram a cobertura de doenças transmissíveis há muitos anos seriam acobertados, pois a ameaça do vírus era desconhecida na época que as políticas foram escritas. Qualquer um que comprou a cobertura para assuntos relacionados ao Zika afirmam que depois que a ameaça do vírus se tornou um 'perigo conhecido, teriam de pagar mais pela cobertura ou poderiam ter dificuldades em adquirir o pacote a tão pouco tempo do início dos Jogos.

Se uma política com cláusula de doenças transmissíveis "foi acordada há no máximo cinco anos, poderemos cobrir", diz Andrew Duxbury, gerente financeiro da companhia Munich Re, que tem realizado encomendas de seguros para os Jogos do Rio, juntamente com resseguros - cobertura contra perdas potenciais. Mas, "se você se aproximar do mercado agora e vai ao Brasil precisando de uma cobertura específica para o Zika, nossa posição seria a de que um passo foi longe demais".

Duxbury e outros seguradores, porém, dizem que os ressarcimentos só serão válidos se o Zika causar o cancelamento ou adiamento de eventos, e as chances de isso acontecer são remotas.

Em junho, a Organização Mundial da Saúde disse que atletas e espectadores, exceto mulheres grávidas, podem ir aos Jogos do Rio desde que tomem precauções contra a infecção. O vírus, transmitido por mosquitos, é menos provável de se dissipar durante os Jogos do Rio por conta do clima mais frio do inverno do Hemisfério Sul, diz a organização.

Mesmo se um surto de Zika acontecer durante os Jogos, obter os pagamentos não deve ser fácil.

De acordo com as seguradoras, corretores e consultores, para uma reclamação ser cálida, um grupo como a OMS ou o Centro Norte-Americano de Controle e Prevenção de Doenças deve emitir um comunicado dizendo que um evento deve ser adiado ou cancelado por causa da ameaça de Zika.

Em contraste, seguradoras não devem honrar reivindicações de emissoras ou patrocinadores que disserem ter perdido dinheiro por conta de atletas como Rory McIlroy, que não vai à Olimpíada por causa de preocupações relacionadas ao Zika vírus. Audiência de televisão e planos de marketing podem ser afetados, mas as seguradoras não terão muita solidariedade.

"Estes pacotes não são apenas para quem tem medo de algo acontecer", diz Dan Burns, chefe executivo da Pro Financial Services, que têm emitido seguros para os Jogos Olímpicos. "Uma terceira parte deve emitir orientações ou avisos."

Mesmo se eventos da Olimpíada não forem adiados ou cancelados, trabalhadores dos Jogos poderiam ficar doentes com a contração do vírus. Em muitos casos, empregados teriam suas despesas médicas cobertas pelo seguro da sua empresa ou por planos de compensação dos trabalhadores.

O vírus, porém, atrai outras preocupações. O que aconteceria, por exemplo, com um homem que contraiu o vírus durante o trabalho na Olimpíada e o transmitiu para sua parceira ou esposa, que tem um filho com uma das deficiências congênitas causadas pelo vírus? Alguém que trabalhe na Olimpíada poderia processar o empregador por negligência após ter sido infectado pelo vírus.

O plano de saúde de uma empresa normalmente cobre o custo de um parto, mas "com uma criança com um futuro desafiador, os custos serão maiores", diz Michael Drayer, chefe executivo do AON Entertainment Practice Group, que ajuda os clientes a comprar um seguro de cancelamento de evento. "Alguns clientes nos disseram que gostariam de cobrir o pior caso, pois seus acidentes durante viagens de negócios não foram respondidos, ou seu complemento não acoberta. Você deve jogar fora os tipos de coisas que podem acontecer".

TRADUZIDO POR: IGOR FERRAZ

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