Wilton Junior|Estadão
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Ana Moser passou Olimpíada à base de cachorro quente

Uma das melhores atacantes brasileiras do vôlei, ela relembra com saudades de uma época 'mais romântica'

Wilton Junior|Estadão
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Alessandro da Mata, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2016 | 05h17

De onde partia a força de Ana Moser nos ataques pela entrada de rede? Na Olimpíada de Seul, em 1988, foram de lanches e mais lanches. Algo impensável para atletas tops, como exemplo os participantes dos Jogos do Rio, com início previsto para cerca de 20 dias. 

"Eu tive muita dificuldade com a comida. O tempero coreano era muito forte. Ele me dava dor de estômago, atacava a gastrite. Comi cachorro quente e cheeseburger todos os dias. Era uma época mais romântica. Nada comum para os dias atuais, cheios de profissionalismo. Hoje todos contam com orientações nutricionais", destaca a jogadora aposentada da seleção brasileira de vôlei por mais de uma década (ela encerrou a carreira em 1999). 

Para Ana Moser, os Jogos em Seul marcaram o início de uma era na qual o esporte mantém conceitos originais e agrega o status comercial. Com o aumento dos patrocínios, consequentemente cresce a estrutura de apoio nas confederações e as chances de melhores resultados dos atletas. Por outro lado, cumprem-se compromissos da indústria do entretenimento e perde-se parte da autonomia. 

"Lembro-me de uma cena envolvendo o Vladimir Salnikov, que venceu os 1,5 mil metros na piscina, na Coreia. No refeitório, à noite, os atletas gritavam o nome dele e isso fazia muito eco. Era uma lenda viva sendo celebrada. Um momento único. Essa foi uma Olimpíada de passagem. Em Barcelona, a Vila Olímpica ficava em uma praia particular. Hoje você praticamente nem vê o Usain Bolt circulando pela Vila", argumenta a atual gestora e comentarista esportiva, citando o ex-nadador, ganhador de quatro medalhas de ouro em Jogos pela extinta União Soviética, bem como o jamaicano multicampeão olímpico do atletismo.

Ana Moser frisa a importância de se manter a essência dos Jogos, a confraternização entre os povos e dos valores morais, tal como a paixão por carregar as cores de um país. Segundo ela, existem discursos pré-definidos para os atletas, marcados pela obrigação de valorizar o esporte sob o ponto de vista dos negócios ao seu redor. 

"Você não enxerga mais isso (amor) no futebol, que é o esporte mais profissionalizado no Brasil. Falta representatividade. E não se fala mal, se preserva o produto. Os atletas têm limitações impostas. Após a minha geração foi instituído um código de ética que prevê multas para quem critica", ela afirma.  

Ana Moser participou da conquista da primeira medalha olímpica do vôlei feminino, um bronze, em Atlanta-1996, nos Estados Unidos. Ela esteve presente em três edições  dos Jogos. Acumula o tricampeonato do Grand Prix e uma prata em Jogos Pan-Americanos, entre outros feitos.

"Não tem conquista que se compare com o bronze na Olimpíada. Nem mesmo o ouro do Mundial. É um evento diferenciado. A carreira de um atleta é feita de ciclos. Todos miram a vaga olímpica, de quatro em quatro anos. Nos 15 dias dos Jogos, os atletas estão todos no mesmo lugar, tem toda uma vibe. Você dá tudo pelo melhor desempenho. É mágico", declara a ex-ponteira.

Na opinião de Ana Moser, as equipes de vôlei masculino e feminino dificilmente ficarão fora do pódio no Rio, dado o retrospecto nas competições recentes. A expectativa dela é que esta, aliás, seja a melhor participação do País na história nos Jogos. 

"A Olimpíada é a celebração do esporte mundial. E nunca houve tantos recursos para todas as modalidades no Brasil como agora. O melhor resultado da história será aqui", ela justifica.

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