Stefano Rellandini|Reuters
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Anna Meares: as pedaladas de uma lenda viva na Olimpíada

Ciclista supera cadeira de rodas para ir além de suas cinco medalhas, nos Jogos do Rio-2016

Stefano Rellandini|Reuters
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Alessandro da Mata, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2016 | 05h09

Anna Meares ganhou o ouro e o bronze olímpico no ciclismo de pista, nos 500 metros contra o relógio e no sprint por equipes. Isso com apenas 20 anos, em Atenas, na Grécia, em 2004. Mas uma fratura no pescoço e o deslocamento do ombro, sete meses antes dos Jogos de Pequim, na China, tornaram diminutas as chances de a atleta australiana virar um ícone do esporte mundial, correto? Nada disso.

A queda com o rosto contra o piso de madeira se deu a 65 km/h, durante uma prova em Los Angeles, Estados Unidos, válida pela Copa do Mundo. Por apenas dois milímetros a vértebra atingida não se quebrou. Caso isso acontecesse, ela teria ficado tetraplégica ou até mesmo morrido, segundo os médicos. Para muitos, o cenário quase trágico seria suficiente para um bloqueio físico ou mental. Para o abandono da carreira. Para a completa mudança do estilo de vida. Só que a australiana não se imaginou distante das vitórias no ciclismo, mesmo em uma cadeira de rodas. 

Imediatamente, Ana Meares iniciou um trabalho intensivo de reabilitação. Nem as fortes enxaquecas, que a acompanham até hoje, a fizeram esmorecer. Existe inclusive um trabalho específico para minimizá-las. Há ocasiões nas quais são necessários até dois dias para recuperações plenas.

Com dedicação, talento e perfeccionismo, a atleta não só confirmou presença nos Jogos, justamente no país onde a bicicleta é o principal meio de locomoção, como também obteve mais uma medalha, a de prata, novamente na modalidade contra o relógio. 

A experiência digna de reverência virou livro: The Anna Meares Story, publicado em 2009 . A autobiografia aborda da fase de sacrifício até o principal feito da ciclista até aquele momento. Uma obra absolutamente motivadora para quaisquer indivíduos ou segmentos sociais.

Mas enganam-se os que pensam que Anna Meares pôs freio em sua história de sucesso logo depois. A disposição para novos capítulos significativos em sua história esportiva parece mesmo não ter fim. 

Em 2012, em Melbourne, na Austrália, ela ganhou o Campeonato Mundial nas modalidades keiren (corrida em oito voltas, com bicicleta motorizada) e contra o relógio, quando estabeleceu novo recorde: 33s10, em 500 metros. 

No mesmo ano, em Londres, na Inglaterra, a ciclista voltou a ganhar o ouro olímpico, dessa vez batendo a arquirrival Victoria Pendleton. A confirmação do lugar mais alto do pódio só saiu após uma foto, comprovando uma vantagem mínima sobre a musa britânica. Como se não bastasse, a australiana obteve ainda mais um bronze, novamente no sprint por equipes.

A disputa entre Anna Meares e Victoria Pendleton rende holofotes na imprensa mundial. E não incomoda a australiana. Pelo contrário. Ela reconhece que isso ajuda na divulgação do esporte, um dos mais tradicionais dos Jogos Olímpicos. 

Com a sequência de resultados positivos, Anna Meares fez uma atualização de seu livro, em 2013. E haja tinta. 

Como uma máquina papa-títulos, em 2015, em Saint-Quentin-en-Yvelines, na França, ela alcançou a 11a medalha de ouro em campeonatos mundiais, superando a francesa Felicia Ballanger como a mais bem sucedida ciclista de pista do planeta. A performance da australiana na temporada foi eleita a melhor de sua carreira pelos profissionais que a assessoram. Até uma lesão nas costas prejudicá-la nos exercícios de musculação.

Este ano, a preparação da atleta está voltada para os Jogos do Rio-2016, quando Anna Meares poderá se tornar a única ciclista australiana com três medalhas de ouro. Embora ela evite fazer qualquer projeção para a competição.

Tida como um ídolo em seu país, nos últimos meses a atleta dedicou-se também a rebater via rede social uma série de críticas aos técnicos da equipe de ciclismo da terra dos cangurus. Em especial a Gary West, seu fiel apoiador há décadas na série de conquistas. As concorrentes ao time olímpico se mostraram avessas à influencia dele. 

Episódio superado, Anna Meares recebeu nos últimos dias uma boa notícia. A confederação olímpica australiana prestigiou a ciclista. Ela será a porta-bandeira da delegação na cerimônia de abertura dos Jogos, dia 5 de agosto, no Estádio do Maracanã. Antes da atleta, apenas um ciclista australiano tinha carregado a bandeira do país na abertura de uma competição olímpica. Trata-se de Duc Gray, em 1936, em Berlim, na Alemanha.

Além de Anna Meares, somente mais duas australianas no ciclismo tiveram o privilégio de disputar quatro edições dos Jogos.

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