José Patrício
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Ansiedade olímpica

Há quatro anos, em Londres, fui responsável pela derrota da seleção de vôlei masculino

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2016 | 03h00

Estamos a uma semana da Olimpíada, e posso dizer que sei como estão se sentindo os atletas. No momento, a ansiedade é tão palpável que é possível cortá-la com uma faca e distribuí-la aos bocados entre as delegações que já estão no Rio de Janeiro. 

Não é para me gabar, mas tenho vasta experiência em competições esportivas, ainda que não exatamente de nível internacional. Em meados da década de 80, abrilhantei várias edições dos Jogos de Integração do Mandaqui, que contaram com patrióticos hasteamentos de bandeira, juramentos solenes dos atletas e uma banda marcial completa. Posso ou não ter concorrido na modalidade barra-manteiga, mas sinceramente não me lembro de muita coisa. A competição foi apelidada de “Jogos de Entregação”, talvez em menção ao rigor com que os atletas se entregavam ao embate.

Aos 11 anos, já na década de 90, levei para casa a medalha de bronze no salto em distância na Olimpíada do meu colégio, o que meio que mitigou a derrota monumental do meu time nas eliminatórias do basquete (a gente não sabia bater a bola e sair andando, o que, acredito, é um drama por que já passaram todos os atletas olímpicos). Mais tarde, meu grupo bandeirante ganhou o terceiro lugar geral em uma competição realizada em Mongaguá e que contava com modalidades notáveis, tais como: futebol de sabão, vôlei de lençol, cabo de guerra, escultura humana e fufarinha. Éramos imbatíveis neste último esporte, que consistia em soprar uma bolinha de pingue-pongue em direção ao gol numa mesa coberta de farinha, estando ambas as equipes equipadas com óculos de natação. (Há fotos.)

Na adolescência, deixei de lado meu talento poliesportivo e me concentrei nos treinos de vôlei. Lembro de uma partida da Olimpíada dos Colégios Vicentinos na qual me escalaram para uma categoria superior à minha – eu era mirim e joguei com as meninas do infantil –, não por ser habilidosa, mas por absoluta falta de levantadoras. Na ocasião, liderei a equipe numa derrota que ficou inscrita nos anais do esporte brasileiro. O mesmo ocorreu quando fui inventar de jogar futsal e, na estreia, meu time perdeu de 16 a 1. 

Trata-se, portanto, de um currículo desportivo de vulto, o que me qualifica para escrever neste espaço às sextas-feiras.

TORCENDO CONTRA

A Rio 2016 será a minha segunda Olimpíada como jornalista. Admito: há quatro anos, em Londres, fui responsável pela derrota da seleção brasileira de vôlei masculino na final contra a Rússia. É que eu estava na arquibancada do Earls Court quando o Brasil se viu a um ponto da medalha de ouro. Em pleno match point, quando o time ganhava de dois sets a zero e a torcida já comemorava, virei para o lado e exclamei: “Que droga, já vai acabar. Podiam pelo menos perder um set para o jogo durar mais, porque o ingresso foi caro”.

Então os deuses da superstição esportiva atenderam ao meu pedido e o Brasil perdeu dois match points. Tomado pela inspiração divina, o técnico russo escalou o central Dmitriy Muserskiy, de 2,18 m, para a posição de oposto, confundindo os nossos jogadores, que perderam o set por 29 a 27. Depois foi ladeira abaixo: os russos fecharam mais um set e ganharam o tie break. Meu ingresso ficou subitamente caro demais, e me arrependo até hoje da zica emitida.

Desta vez, os Jogos mal começaram e já fui acusada de “torcer contra”, por causa de um artigo que publiquei no The New York Times falando sobre os problemas na organização do megaevento.

Se fazer jornalismo é torcer contra, contem comigo na arquibancada pelas próximas semanas. Continuarei torcendo contra o Brasil até não sobrarem mais críticas a serem apontadas, quando então ganharemos cinquenta medalhas de ouro, o Rio se tornará uma cidade menos desigual e só me restará aplaudir de pé com aquele bate-bate inflável do patrocinador.

Ainda assim, tomarei um suco de maracujá para conter a ansiedade.

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