Lindsey Wasson / Reuters
Lindsey Wasson / Reuters

Antes da prata, Rebeca Andrade andava duas horas a pé para treinar e saiu de casa aos 9 anos

Depois de três cirurgias, brasileira que era apelidada de "Daianinha de Guarulhos", cidade onde começou a carreira, consegue o melhor resultado da história da ginástica feminina

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2021 | 10h08

Quando a crise financeira apertou na casa da empregada doméstica Rosa Santos, a filha Rebeca Andrade andava duas horas a pé para treinar ginástica no Ginásio Bonifácio Cardoso, na Vila Tijuco, em Guarulhos, na Grande São Paulo.

Depois, o irmão mais velho comprou uma bicicleta usada para levar a irmã. Aos 9 anos, Rebeca começou a voar e foi morar em Curitiba para treinar. A mãe foi chamada de doida por liberar uma menina tão nova para ir atrás de um sonho. Deu certo. Mas foi difícil o início da carreira da dona da medalha de prata na ginástica nos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020

Rebeca começou a carreira no projeto social Iniciação Esportiva, mantido pelo poder municipal para crianças e jovens entre 7 e 17 anos. Ela começou a treinar aos 5 anos. Foi no dia da inscrição que ela ganhou o apelido de “Daianinha”. Era uma homenagem à Daiane dos Santos, primeira ginasta brasileira, entre homens e mulheres, a conquistar uma medalha de ouro em uma edição do Campeonato Mundial. Depois, viriam mais oito entre 2003 e 2006.

A técnica da equipe Mônica Barroso dos Anjos logo identificou que os pulos e piruetas dados no meio dos seis irmãos poderiam virar coisa séria. Também chamou a atenção o biotipo da menina. “A Rebeca chegou com a tia no ginásio, toda tímida. Quando pedi a ela para dar um salto, logo vi um talento que precisaria ser lapidado. Eu pedi para ela começar no dia seguinte”, afirmou a primeira professora que também é árbitra de  ginástica. 

Rebeca treinou ali por cinco anos, entre 2005 e 2010. No grupo de alto rendimento, ela ajudou a equipe a conquistar a terceira posição no Brasileiro Infantil. Em 2009, participou até de um torneio interclubes em Cuba. A ginasta de 22 anos não foi a única a dar os primeiros passos no projeto esportivo de Guarulhos. Júlia Cerqueira, Mariana Oliveira, Bruna Perandré, Marina Silva e Priscila Cobelo foram outras ginastas que começaram ali e conseguiram chegar à seleção brasileira.

Com apenas nove anos, Rebeca foi treinar no Centro de Excelência de Ginástica do Paraná, mantido pela prefeitura de Curitiba. Lá foi criada a primeira seleção brasileira permanente. "As pessoas diziam você é doida de deixar sua filha ir embora. Mas eu tive a sabedoria e a mente aberta para deixar ela seguir os sonhos. Eu deixei que ela voasse atrás do objetivo. Se não desse certo, as portas de casa sempre estariam abertas para ela. Hoje eu vejo que agi certo. Foi bom ter ouvido o meu coração".

Em 2011, a ginasta recebeu o convite para treinar na equipe juvenil do Flamengo, onde está até hoje. Com as primeiras medalhas, Rebeca comprou um apartamento mais confortável em Guarulhos para a família.

Sua trajetória até a coroação olímpica foi de superação. Por causa de ruptura do ligamento anterior do joelho direito, a ginasta de 15 anos não participou dos Jogos da Juventude de Nanquim-2015 e dos Jogos Pan-Americanos de Toronto-2015. Foi a primeira de três cirurgias a que seria submetida. Nos Jogos do Rio, Rebeca conseguiu o 11º lugar no individual, além da oitava colocação na competição por equipes. Tinha 17 anos.

As outras cirurgias foram em 2017 e 2019. Por causa da última intervenção, ela não foi aos Jogos Pan-Americanos de Lima-2019 nem ao Mundial de Stuttgart-2019, quando tentaria classificação para as Olimpíadas de Tóquio-2020. Precisou da terceira cirurgia, que exigiu um procedimento complementar, no esquerdo, para a retirada de um pedaço de tendão patelar a ser enxertado no direito). Ela própria tranquilizou os médicos e prometeu voltar. Foram oito meses de recuperação, em um processo difícil de ser visto na ginástica. 

Ela se recuperou física e mentalmente. Depois da cirurgia, foram inúmeras sessões de fisioterapia, treinos leves, pesados e, lá no final, a competição. Emocionalmente, ela recuperou a confiança de voltar a saltar sem medo do impacto no joelho "mexido", como dizem os atletas. Ela conseguiu a vaga olímpica apenas no Pan de Ginástica, no Rio de Janeiro, praticamente às vésperas dos Jogos de Tóquio. 

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