Após sucesso de Isaquias no Rio, Ubaitaba espera centro de treinamento

Associação de canoagem, onde o canoísta começou, deseja que notoriedade viabilize promessa de local para treinos

Paulo Favero, enviado especial a Ubaitaba, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2016 | 17h00

O sucesso de Isaquias Queiroz nos Jogos Olímpicos pode ajudar a revelar mais talentos na cidade onde o atleta começou a dar sua primeiras remadas. As três medalhas na canoagem velocidade conquistadas no Rio podem servir de combustível para que o projeto social que forma canoístas, enfim, decole com uma estrutura melhor.

Apesar de Ubaitaba, na Bahia, já ser conhecida com um local que abriga muitos bons atletas da canoagem, muitas crianças apareceram na porta da Associação Cacaueira de Canoagem (ACC) para começar a praticar a modalidade. “Não queremos perder esse legado da Olimpíada”, diz Dijalma Sanches, um dos fundadores desse projeto social há 31 anos e diretor técnico da ACC.

Há tanto tempo no local, ele é a prova viva das promessas que foram feitas e nunca realizadas. No pequeno espaço da associação, barcos maltratados pelo tempo se espremem entre outros materiais para a prática da canoagem. O espaço não tem água, nem luz. Alguns equipamento da cozinha foram doados pelo Rotary e as crianças encontram lá apenas o material para a prática. Não tem lanche nem equipamentos de ponta.

“Temos uma pequena academia que parece sucata. O telhado está quebrado, a porta também, e mesmo assim continuamos fazendo esse trabalho social. E depois que o Isaquias ganhou as medalhas, no outro dia muitas crianças vieram aqui para participar”, revela.

As dificuldades são tantas que, de tempos e tempos, eles organizam rifas e distribuem um pouco para cada criança que rema no rio de Contas. “Um grupo de empresários de São Paulo entrou em contato dizendo que queria ajudar. Um pessoal de Salvador também falou com a gente. Quanto mais ajuda tivermos, melhor”, avisa.

Uma promessa que pode sair do papel é o projeto de Centro de Treinamento. Ele ficaria no rio de Contas mesmo, não muito longe da associação. “Lá a raia é até melhor, porque não tem tantas pedras como aqui”, explica Camila Lima, que é atleta, professora e presidente da ACC. “Espero que o sonho se concretize. Não podemos deixar passar esse momento de Olimpíada.”

O CT tem tudo para sair do papel, mas passa por uma disputa política. A prefeitura é comandada pelo PMDB, que já vinha discutindo com o governo federal a criação do espaço. Já o governo da Bahia é comandado pelo PT e diz que desde que o novo ministro do esporte, Leonardo Picciani, assumiu a pasta, as conversas esfriaram.

Os canoístas querem apenas que seja resolvido, independentemente de quem for o “pai da criança”. Segundo Álvaro Gomes, secretário do Trabalho e Esporte da Bahia, o CT de canoagem será construído de qualquer maneira. “Estamos providenciando o projeto básico para começar esse processo. Evidentemente vamos reivindicar que o Ministério dos Esportes assuma boa parte disso. Mas vamos construir mesmo sem os recursos federais”, garante.

Haverá um encontro de Isaquias com o governador em Salvador, para reforçar o projeto. O campeão também é esperado amanhã, em Brasília, para outro encontro com políticos. Mas ele ainda não confirmou presença. “Estão querendo que eu vá para Brasília, mas quero estar aqui. Não gosto de me envolver com política”, explicou.”

AJUDA - A próxima missão da associação da Ubaitaba é garantir que seus atletas participem do Campeonato Brasileiro de Canoagem, que será realizado de 22 a 25 de setembro, em Curitiba, no Paraná.

“Para podermos ir com 25 atletas e cinco membros de comissão técnica, precisamos de cerca de R$ 35 mil. Não temos esse dinheiro e seria muito importante nossa presença no campeonato”, diz Dijalma. O custo se refere à inscrição, hospedagem, alimentação e transporte da delegação.

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Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2016 | 17h00

Dois adolescentes de Ubaitaba, que são apontados pelos treinadores do projeto social como promissores, sonham repetir o feito de Isaquias nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. Savio Santana, de 16 anos, e Elton Santos, de 15, vêm obtendo bons resultados e treinam forte para quem sabe um dia poder representar o Brasil em competições importantes.

Savio já foi campeão sul-americano no C1 500m e no C1 1.000m. Não tem o jeito falador de Isaquias, mas tem uma remada forte como o ídolo da cidade. “Eu comecei no esporte em 2013, por influência dos amigos”, explica Savio, que lamenta não estar mais recebendo o dinheiro do BNDES.

Já Elton, de 15 anos, começou há três anos também por influência dos amigos. “Acabei gostando e estou aqui até hoje”, conta. Ele explica que os treinamentos oscilam a cada semana, às vezes é feito com mais força, em outras os atletas têm um ritmo menor, tudo dentro de uma programação para desenvolver garotos da melhor maneira.

O que mais atrapalha é a falta de estrutura, pois os equipamentos da associação não são de ponta e isso acaba dificultando a vida dos rapazes. “Já vi gente usando joelheira de isopor porque não tinha outra”, revela, citando um equipamento muito utilizado por atletas da canoa, onde se fica ajoelhado em uma das pernas para remar.

Aliás, na canoagem velocidade existem dois tipos de embarcação, a canoa e o caiaque. Mas a tradição em Ubaitaba é da canoa e é raro ver alguém de caiaque, no qual se usa um remo com duas pás, movimentando para ambos os lados. Na canoa se rema com apenas uma pá, em um dos lados, usando as duas mãos para fazer força.

Camila Lima, professora dos garotos, lembra que os atletas bons de caiaque são do sul do Brasil. Ela até ri quando se lembra que a primeira canoa de competição foi doada por um pessoal do sul. “Aqui ninguém quer remar em caiaque. Temos uma tradição na canoa”, conta.

A presença de Isaquias na cidade baiana, durante as férias do medalhista olímpico, anima os garotos. “Ele sempre fala com a gente quando vem aqui na associação”, conta Elton, que já tem na ponta da língua o que é preciso para chegar na Olimpíada. “Tem que treinar forte. Mas também é necessário que se invista na base, para que novos atletas surjam”, afirma.

Além da dupla, outros garotos remam todos os dias no rio de Contas. Apesar das dificuldades, o exemplo de Isaquias serve de estímulo para que o Brasil tenha outros ótimos canoístas não só em 2020, como em 2024 e assim por diante.

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