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Nilson e Menezes e Rogério Pinto representarão o Brasil no handebol Cinara Piccolo|Photo&Grafia

Árbitros brasileiros se preparam para os Jogos Olímpicos

País será representado por juízes experientes e estreantes na Olimpíada

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

28 de março de 2016 | 07h05

Debutantes e veteranos representarão o Brasil nos Jogos Olímpicos do Rio. E não estamos falando dos atletas que ocuparão as 413 vagas garantidas até o momento, e sim da arbitragem. A convocação de árbitros e juízes (a nomenclatura varia entre os esportes) é de responsabilidade das federações internacionais. A exigência é que todos sejam certificados. Nos Jogos de Londres, o Brasil contou com 23 Oficiais Técnicos Internacionais (ITOs, na sigla em inglês). No Rio, esse número certamente será superior.

Diversas modalidades já conhecem os seus representantes, enquanto outras – como boxe e atletismo, por exemplo – ainda aguardam definição. A ginástica artística contará com Yumi Sawasato (feminino), o basquete aposta em Cristiano Maranho, a vela escala Nelson Ilha e a luta olímpica terá a estreia de Eduardo Paz Gonçalves. Essa é uma pequena amostra dos juízes que já garantiram a vaga.

Para auxiliar o trabalho dos árbitros, o país-sede é responsável pela indicação dos Oficias Técnicos Nacionais (NTOs, na sigla em inglês). Os árbitros nacionais desempenham um papel secundário, entre eles estão os mesários, os responsáveis por anotações de súmula e operações logísticas. E, apesar do nome, não são apenas os brasileiros que exercem essa função. Como o Rio recebe a primeira edição da Olimpíada disputada na América do Sul, o posto dos juízes nacionais foi estendido aos países vizinhos.

O diretor de Esportes do Comitê Rio-2016, Rodrigo Garcia, exalta o legado “intangível” da Olimpíada. "Foi um trabalho focado em busca do maior legado possível após os Jogos. A gente está deixando árbitros nacionais já capacitados para outras competições internacionais."

O treinamento foi feito por meio de cursos e workshops, visita de especialistas e viagens para competições internacionais. "A gente vem utilizando os eventos-teste como uma forma de certificação dos árbitros", acrescenta Garcia.

De acordo com o Comitê Rio-2016, serão 1.825 Oficiais Técnicos Internacionais e 1.342 Oficiais Técnicos Nacionais, um total de 3.167 pessoas de todo o mundo em ação nas 42 modalidades dos Jogos.

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Yumi Sawasato vive a honra de ser árbitra de referência

Juíza aguarda sua quinta participação consecutiva na Olimpíada

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

28 de março de 2016 | 07h05

Yumi Sawasato já vislumbrava os Jogos de Londres como o fim de sua trajetória olímpica na ginástica artística feminina. Mas o planejamento mudou de rumo e agora ela está à espera de sua quinta participação consecutiva em uma Olimpíada. No Rio, sentirá o gostinho de ser árbitra de referência pela primeira vez na carreira.

"Quando tem muita diferença no critério das notas de execução, entra a nota de referência de uma forma bem sistemática. É uma função de bastante responsabilidade. Fiquei bem feliz por ter sido convocada, é um diferencial", afirma.

Cada um dos quatro aparelhos é resguardado por dois árbitros de dificuldade, cinco de execução e dois de referência. Yumi tem vasta experiência na composição da nota de partida. Apesar disso, ficou responsável pela avaliação do desempenho das ginastas em 2012. 

Entre as atletas avaliadas por ela, estavam as brasileiras lutando pela classificação às finais nos Jogos de Londres. "Eu estava na trave arbitrando e a Daniele (Hypolito), que era a última ginasta, tinha de acertar. Eu tinha feito a avaliação normalmente, mas o momento em que tive de dar a nota foi muito tenso", relembra. O Brasil não conseguiu se classificar para a fase decisiva.

Yumi explica que um árbitro pode ser escalado para as etapas preliminares mesmo que as ginastas de sua nacionalidade estejam na competição. No entanto, para garantir a isenção do resultado, a organização considera a origem do juiz nas finais por equipe e também na briga por medalha por aparelhos.

Segundo o código de pontuação da Federação Internacional de Ginástica (FIG), os árbitros devem descontar 0,1 nas pequenas falhas e 0,3 nas médias, um erro grave faz a atleta perder 0,5 na nota final, enquanto uma queda tira 1 ponto. "Às vezes a avaliação fica na margem entre a falha pequena e a média, é isso que dá a grande diferença no grupo de arbitragem", explica Yumi.

A brasileira reconhece que o rigor do júri exige perfeição dos ginastas nos Jogos Olímpicos e nos Campeonatos Mundiais, mais até do que em competições de menos prestígio. "Em algumas Copas do Mundo, a arbitragem talvez seja um pouco mais leve no item das falhas pequenas e médias. No Mundial e na Olimpíada, é preciso ter exatidão. A gente segue exatamente aquilo que está no código de pontuação."

O profissionalismo levou a paulista ao lugar mais alto da carreira. Além de chegar à categoria 1 do quadro internacional, ela foi eleita pela FIG a melhor árbitra do mundo no ciclo olímpico de 2001 a 2004. "A Federação Internacional de Ginástica me deu uma premiação. Fomos para Genebra receber a medalha, os melhores árbitros de todas as modalidades. Foi uma grande honra", exalta.

Mas apesar de todo o prestígio, a arbitragem ainda é uma função amadora no Brasil e no mundo. Yumi é professora da disciplina Ginástica Artística no curso de graduação de Educação Física das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Ela também supervisiona as atividades do Instituto Yashi, em São Paulo, e atua como coordenadora técnica da Confederação Brasileira de Ginástica.

 

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Nelson Ilha vê profissionalismo da vela em 6ª Olimpíada

Juiz crê que poluição da Baía de Guanabara pode ser um desafio

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

28 de março de 2016 | 07h05

Escalado para participar pela sexta vez como juiz da Olimpíada, Nelson Ilha acompanhou de perto a transformação da vela e da competição. O brasileiro sublinha o aumento da preocupação com segurança dos Jogos e a profissionalização do esporte ao longo dos anos. "É impossível encontrar amadores disputando uma Olimpíada hoje."

À medida que os atletas conseguiram deixar o amadorismo de lado, a arbitragem tentou caminhar nessa mesma direção, mas em uma velocidade mais lenta. Nelson relembra que quando se tornou árbitro internacional, em 1990, os velejadores reclamavam da postura de trabalho dos juízes mais velhos, que não tinham tanto conhecimento prático.

Para ele, a experiência na água é um diferencial na hora das avaliações. "Em muitos casos, a gente julga versões. Vamos ouvir as testemunhas e filtrar o que pode ter acontecido. Sem experiência, fica difícil fazer um julgamento coerente", justifica.

No Rio, a poluição da Baía de Guanabara pode ser um desafio a mais para o trabalho do júri. "Se alguém pedir uma reparação por um dano que foi causado por falha, tem que ser avaliado. Então, podem ocorrer situações envolvendo, por exemplo, um plástico que pegou na quilha."

As variações das classes também exigem muito dos avaliadores, que devem ficar atentos às características dos barcos para não cometer equívocos. As preocupações não param por aí. "A posição onde o juiz vai se colocar com bote é fundamental para pegar o ângulo correto e também para não atrapalhar a regata. Você tem de estar dentro da raia, mas não pode interferir. Tem uma técnica para dirigir o bote e estar sempre no lugar certo, mas sem atrapalhar o vento, sem criar onda."

Há uma rotação dos avaliadores pelas raias de competição, exceto pelo coordenador de cada classe. Como não há uma preocupação com a nacionalidade de juízes e competidores, as regras de conduta são rígidas. "Não devemos socializar com as equipes. Se você for procurado por algum atleta ou técnico para qualquer explicação, deve sempre ser acompanhado por um juiz de outra nacionalidade e precisa falar só em inglês", comenta.

Manter-se atualizado não é um problema para Nelson. Membro do Comitê de Eventos e do Comitê de Juízes da Federação Internacional de Vela (ISAF), o gaúcho é instrutor do seminário aplicado aos juízes que estão se reciclando e aos que almejam voos mais altos na carreira. "Em três ou quatro dias, você vê o programa, as regras e procedimentos nesses seminários. Acabo fazendo a reciclagem duas ou três vezes por ano", conta.

Apesar de ver juízes dedicados e preparados para a função, Ilha reconhece que poucos vivem somente da arbitragem. Ele é administrador de empresas e tenta conciliar a vela em sua rotina. Em setembro, participará do Mundial na classe Soling. Para isso, teve de abrir mão do convite para arbitrar na Paralimpíada. A recusa também deve-se ao desejo de dar oportunidade para novos juízes brasileiros. "Temos uma turma boa envolvida com Olimpíada, dando suporte. Todos vão ganhar muita experiência."

 

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Cristiano Maranho torce para basquete brasileiro ficar entre os quatro

Árbitro destaca que já alcançou todos os seus objetivos na carreira

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

28 de março de 2016 | 07h05

Orgulho define o sentimento de Cristiano Maranho após ser um dos escolhidos para ser árbitro do basquete dos Jogos Olímpicos. "Participar de uma Olimpíada é o ápice do atleta, do técnico e também do árbitro que se forma no alto nível." 

O catarinense, que possui Pequim-2008 e Londres-2012 no currículo, vê a convocação como recompensa pelo trabalho que vem desenvolvendo nos últimos anos. E valoriza a oportunidade de ter a família a seu lado no Rio, já que sua mulher trabalhará como voluntária.

A experiência também lhe trouxe outras prioridades na carreira. Satisfeito com suas conquistas, Cristiano torce para que as seleções masculina e feminina façam um longo caminho na Olimpíada. Caso isso aconteça, sua vida na competição será mais curta. 

"Os objetivos pessoais que tracei na minha carreira, já alcancei. Hoje, eu torço muito para que o Brasil consiga ficar entre os quatro colocados. O basquete brasileiro precisa que a seleção consiga uma medalha. Espero que seja uma de ouro." Aos 42 anos, Maranho já apitou a final olímpica, vencida pelos Estados Unidos sobre a Espanha nos Jogos de Londres, e comandou a decisão do Mundial de 2010 entre o Dream Team e a Turquia.

O árbitro brasileiro é conhecido por seu estilo disciplinador em quadra e, para ele, essa postura desde o início da carreira foi fundamental para que atingisse um alto patamar no basquete. Cristiano também reconhece que recebe um tratamento diferenciado atualmente. "A gente tenta errar o menos possível, mas o erro faz parte do jogo. Quando você atinge um certo nível, essa margem diminui mais ainda. A responsabilidade aumenta, ao mesmo tempo também te abre portas."

Maranho descarta qualquer tipo de pressão na Olimpíada por parte do público. Segundo ele, o torcedor que vai assistir a uma partida de basquete tem como objetivo desfrutar do clima dos Jogos. Além disso, o juiz brasileiro afirma que a catimba se restringe aos times nos campeonatos nacionais e não há com que se preocupar com a rivalidade entre os participantes.

O juiz de Florianópolis apita em média 80 partidas do basquete masculino adulto. Cristiano se prepara para um jogo mais aéreo nessa situação. Por outro lado, ele se diz mais focado em jogadas de rápida movimentação e marcação durante uma partida do feminino. 

"Tem muitas interferências no masculino, os jogadores são muito velozes e saltam muito alto. O feminino é mais técnico e a agilidade é diferente. O árbitro tem de estar com um olhar mais refinado", compara. Nos Jogos do Rio, o Brasil também contará com Guilherme Locatelli no apito no basquete.

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Eduardo Paz sente ansiedade antes dos Jogos Olímpicos

Carioca é primeiro árbitro da história da luta olímpica nacional nos Jogos

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

28 de março de 2016 | 07h05

Primeiro árbitro brasileiro da história da luta olímpica nacional a participar da Olimpíada, Eduardo Paz Gonçalves vive aos 40 anos a expectativa da realização de um sonho no Rio: "Parece criança, é engraçado. Cada dia que passa a ansiedade aumenta, mas dá para controlar", afirma.

A possibilidade de arbitrar em uma Olimpíada estava perto de se concretizar quatro anos antes, em Londres, mas Eduardo viu a esperança se esvair depois de faltar ao último estágio para sua capacitação, na Croácia. O árbitro não tinha conhecimento de que seria excluído do grupo de convocados caso se ausentasse desta etapa e abriu mão da viagem após corte de verba da Confederação Brasileira de Lutas Associadas (CBLA). 

Para não deixar a chance escapar novamente, o carioca seguiu tudo à risca neste ciclo olímpico. Nesse processo, teve de deixar o filho recém-nascido aos cuidados da mulher, Letícia, que contou com o auxílio da família. Miguel nasceu prematuro, de oito meses, e passou um período no hospital. Logo após o bebê ser levado para casa, Eduardo teve de viajar para cumprir as exigências da federação internacional. "Foi muito difícil. Com o coração apertado, tive que ir para a viagem. Minha esposa, minha mãe e minha sogra que seguraram os momentos difíceis."

Agora ele espera ser recompensado pela dedicação à vida profissional e garante estar preparado para a grande responsabilidade que terá nos Jogos Olímpicos. "Não tem espaço para erro. No ano passado, a gente sofreu uma pressão enorme no Mundial em Las Vegas. Acredito que no Rio a pressão vai ser maior", projeta. "Tem muita coisa envolvida. É a preparação de uma vida toda, o país que investiu no atleta, os treinadores que se dedicaram. Ninguém quer perder ali e a gente fica no meio desse conflito", completa.

Apesar da preferência pela luta greco-romana, o brasileiro se coloca à disposição para apitar qualquer estilo. A luta olímpica dita o ritmo da vida de Eduardo, que também dá aulas para crianças na Ilha do Governador e coordena uma trabalho de base na CBLA. "Meu trabalho é ajudar a luta a crescer como esporte."

 

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