Issei Kato/Reuters
Issei Kato/Reuters

As esperanças nas Olimpíadas de Tóquio tornaram-se remotas

Em março de 2020, os organizadores adiaram por um ano os Jogos Olímpicos. Cerca de um ano mais tarde, as perspectivas são mais sombrias

Matthew Futterman, The New York Times

15 de janeiro de 2021 | 16h10

Os planos de adiamento  dos Jogos Olímpicos de Tóquio tornam-se cada dia mais incertos. Com o aumento dos casos de coronavírus em todo o Japão e nos grandes países da Europa e das Américas, em Tóquio as autoridades e também o Comitê Olímpico Internacional, começam a admitir que a realização de jogos em total segurança talvez não seja possível. Acabam assim os sonhos de que as Olimpíadas pudessem ser uma celebração global do fim da pandemia.

Em vez disso, o COI pode ser obrigado a cancelar os Jogos pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial. Será um enorme golpe financeiro para a organização olímpica e para o Japão, que gastou mais de $ 12 bilhões na construção de estádios e nas melhorias de sua infraestrutura em preparação do evento, e outros bilhões com o adiamento dos jogos por um ano.

Há semanas, as autoridades do Japão e representantes do COI insistiam que os jogos seguiriam em frente e que um novo adiamento não seria possível. Os organizadores tentaram apresentar planos para a realização do evento de maneira aceitável ao público japonês, com o anúncio de uma série de medidas de segurança.

Mas as pesquisas mostram uma crescente cautela. Em uma pesquisa realizada este mês, a emissora japonesa NHK mostrou que cerca de 80% dos entrevistados acreditam que os jogos deveriam ser adiados ou mesmo cancelados. Em outubro, menos da metade dos entrevistados respondeu a mesma coisa. Em dezembro, já eram 71%.

Na sexta-feira, Taro Kono, um membro do Gabinete do Japão, rompeu com a linha oficial do governo, afirmando que os jogos “poderiam se realizar de qualquer maneira”, segundo um informe da Reuters.

Os seus comentários seguiram-se a comentários semelhantes feitos esta semana pelo canadense Dick Pound, o membro mais antigo do COI, ao afirmar  à BBC que “não há nenhuma garantia” de que os jogos venham a se realizar.

Em março, os organizadores em Tóquio e do COI concordaram com o adiamento dos jogos por um ano. A festa dos esportes, a maior do mundo, deveria se realizar em julho e agosto passados. A cerimônia de abertura  para os Jogos agora está sendo marcada para 23 de julho próximo.

Thomas Bach, o presidente do COI, afirmou que o novo adiamento dos jogos não é uma opção e que, se o evento não puder se realizar no próximo verão (no hemisfério norte), não se realizará de modo algum. Toshiro Muto, diretor executivo  do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio, reafirmou esta posição esta semana. O COI já determinou que os Jogos de 2024 serão em Paris e os de 2028 em Los Angeles.

As esperanças nos jogos aumentaram enquanto vários importantes eventos esportivos se realizavam no mundo inteiro sem graves problemas, embora em uma escala muito menor e com poucos ou nenhum torcedor presente.

Por enquanto, o Japão promete à imprensa que prosseguirá com os preparativos. Em um discurso na terça-feira, Yoshiro Mori, presidente do comitê organizador de Tóquio, tentou tranquilizar os membros do staff.

“A primavera definitivamente virá”, afirmou. “Depois de uma longa noite, haverá finalmente um alvorecer. Confiando nisso, gostaria de trabalhar com afinco até o fim para que nós possamos  dar alegria e esperança a muitas pessoas”.´

E a mesma posição que Bach manifestou em um pronunciamento em Nova York, quando disse que considerava os Jogos de Tóquio “a luz no fim do túnel” da pandemia. Ele aplaudiu a criação de vacinas para  que se possa esperar que os jogos poderão ser seguros.

“Eles serão a celebração da solidariedade, da união da humanidade em toda a sua diversidade, e da capacidade de recuperação”, afirmou.

Entretanto, a aplicação de vacinas tem sido mais lenta do que o esperado, e neste verão, grande parte da humanidade continuará sem imunização. O Japão pretende começar a vacinação dos seus cidadãos no final de fevereiro, por se tratar de um processo que levará meses.

Segundo pessoas a par da estratégia, o COI e os organizadores de Tóquio não estão calculando as vacinas em seus planos para os jogos, pressupondo que muitos dos cerca de 10 mil atletas - e dezenas de milhares de treinadores e funcionários que viajarão para os jogos - não terão recebido a vacina. Segundo a direção, exigir que os atletas estejam vacinados não é uma posição realista.

Não ficou claro se os organizadores permitiriam a presença de espectadores nas provas, ou que viajassem de fora do Japão para assistir às Olimpíadas. O Japão instituiu a proibição das viagens para todos os viajantes internacionais, que deverá acabar no dia 7 de fevereiro, mas a data poderá ser adiada. Os atletas de elite não estão mais isentos disso.

Embora o Japão, um país de mais de 125 milhões de habitantes, tenha registrado apenas mais de 300 mil casos e 4.200 mortes - bem menos do que muitos países ocidentais - nos últimos dias, houve um total recorde de casos e de mortes. Na quinta-feira, as notícias davam mais de 6 mil novos casos.

Seiko Hashimoto, a ministra das Olimpíadas do Japão, disse aos repórteres na terça-feira que os organizadores estavam examinando “amplas medidas a fim de prevenir o contágio, como a necessidade de testes e a gestão do rastreamento para que possamos realizar jogos totalmente seguros  sem a vacinação como pré-requisito.” /TRADUÇÃO DE ANNA MARIA CAPOVILLA

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