Dado Ruvic/ Reuters
Dado Ruvic/ Reuters

A Olimpíada de Tóquio se iniciará talvez, daqui a um ano

Pandemia de covid-19 gera diversos questionamentos sobre realização ou não dos Jogos e mudanças no formato

Matthew Futterman, Motoko Rich e Andrew Keh/New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2020 | 10h00

Daqui a um ano, o mundo começará a se reunir no Japão para a abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, que deveriam começar esta semana. Ou talvez não. Quatro meses depois de o Comitê Olímpico Internacional e representantes do Japão terem adiado os Jogos em razão de taxas extremamente elevadas de contágio do coronavírus, e lockdowns no mundo todo, a incerteza predomina. A natureza imprevisível do vírus torna impossível para as autoridades afirmarem, de maneira definitiva, que os jogos acontecerão ou, se acontecerão, como serão.

Talvez não haja espectadores. Talvez somente torcedores que vivem no Japão possam assistir. Ou então somente espectadores procedentes de países nos quais o vírus foi controlado. Haverá uma Vila Olímpica, as tradicionais instalações onde se hospedam cerca de 10 mil competidores? Será que os atletas dos Estados Unidos, onde a pandemia não dá sinais de ceder, terão permissão para participar?

Em uma coletiva à imprensa realizada na semana passada, Thomas Bach, o presidente do COI, afirmou que o planejamento das Olimpíadas agora envolve várias opções. Todas elas, disse, dão prioridade à saúde dos atletas. “Isto inclui diferentes contramedidas”, falou Bach referindo-se ao planejamento. “Realizar os Jogos Olímpicos a portas fechadas é claramente o que não queremos. Estamos trabalhando para encontrar uma solução que proteja a saúde de todos os participantes e que também reflita o espírito olímpico”.

Bach disse que um novo adiamento não é uma opção no momento; se os Jogos não puderem ser realizados no próximo verão (no hemisfério norte), não se realizarão.

Enquanto as ligas esportivas de todos os países lutam para retornar a algo que se assemelhe com a normalidade, pesando os surtos do vírus e as preocupações com a segurança, os desafios que o planejamento de um evento global comporta a um ano de distância não param de aumentar – ou estão sendo exacerbados pelo constante deslocamento dos pontos mais afetados pelas infecções. “Neste momento, as pessoas estão preocupadas com a saúde dos cidadãos dos seus países”, afirmou Harvey Schiller, ex-diretor executivo do Comitê Olímpico e Paraolímpico dos EUA.

Não há nenhuma dúvida quanto à determinação do COI e dos seus organizadores no Japão, que querem desesperadamente realizar os Jogos, considerando os recursos que já investiram e o dinheiro em jogo. O Japão já gastou cerca de US$ 12 bilhões na preparação do evento. Por outro lado, se os Jogos não se realizarem, o COI poderá perder os bilhões de dólares da receita dos direitos de transmissão das competições, ingressos e patrocínios.

Apesar de um surto recente de casos do coronavírus e da proibição das viagens de 129 países, a posição oficial no Japão continua sendo que a abertura dos Jogos de 2020, adiada já uma vez, será no dia 23 de julho de 2021, em Tóquio. Yuriko Koike, a governadora de Tóquio que conseguiu um segundo mandato este mês, se reuniu com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, para discutir medidas de contenção do vírus. “Gostaria de realizar as Olimpíadas e as Paralimpíadas no próximo ano como prova de que nós vencemos o coronavírus”, afirmou.

Na quarta-feira, Tóquio elevou o alerta de pandemia para vermelho, sua classificação mais alta, em razão de um recente surto de casos, concentrado no distrito onde a vida noturna da cidade é mais intensa. Tóquio registrou dois dias consecutivos de recordes, na semana passada, atingindo o pico de 243 novos casos, na última sexta-feira.

Em comparação com outras cidades internacionais, Tóquio teve um relativo sucesso na contenção do vírus. Com uma população de 14 milhões de habitantes, ela registrou menos de 8,2 mil casos e 325 óbitos desde fevereiro, em comparação com mais de 3,5 milhões de casos e cerca de 140 mil óbitos nos EUA. Os Estados Unidos, tradicionalmente o motor financeiro de uma Olimpíada, hoje representam talvez a maior ameaça aos Jogos.

Parte da estratégia do Japão foi fechar suas fronteiras a cidadãos que viajavam de 129 países, inclusive os EUA e grande parte da Europa, África, América Latina e o restante da Ásia. O Japão anunciou recentemente planos de negociação de algumas viagens recíprocas entre o país e a Austrália, Nova Zelândia, Tailândia e Vietnã, mas não indicou quando pretende reabrir suas fronteiras a viajantes do restante do mundo. Os japoneses temem viajar mesmo dentro do próprio país: um plano para encorajar os as viagens internas  foi recebido com resistência porque as pessoas têm medo de que os habitantes de Tóquio possam espalhar o vírus em outras partes do Japão.

Algumas sondagens sugerem que o público também teme a realização das Olimpíadas. Em uma pesquisa realizada no final do mês passado pelo Asahi Shimbun, um dos maiores jornais do país, 59% dos entrevistados afirmam que querem que as Olimpíadas sejam novamente adiadas ou então canceladas. Yuriko, entretanto, foi reeleita governadora de Tóquio com uma ampla votação, embora ela tenha aderido à posição oficial para a realização dos Jogos em 2021.

Entretanto, em uma recente coletiva virtual com os atletas, líderes do Comitê Olímpico dos EUA tiveram poucas respostas concretas. Ninguém podia afirmar se os atletas ainda teriam de compartilhar quartos na Vila Olímpica, se o salão de jantar comum poderia ser um bufê que poderia favorecer a disseminação do vírus. Ou se a equipe americana – tradicionalmente o maior contingente em todos os Jogos – teria de ser hospedada separadamente dos representantes de outras nações. “Os atletas estão ansiosos por uma comunicação direta mais concreta do COI e de outras organizações”, disse Han Xiao, presidente do Conselho Consultivo dos Atletas do Comitê Olímpico dos EUA.

A equipe americana de mais de 500 atletas talvez seja menor, embora até o momento o COI mantenha que não pretende reduzir o número de eventos ou de participantes. “Há muita especulação e propostas, mas nenhum plano específico em que qualquer um possa focalizar”, disse Christian Taylor, por duas vezes medalha de ouro no salto triplo.

Rick Adams, o chefe de desempenho esportivo do Comitê Olímpico dos EUA, disse que a organização continua focada no Plano A – uma Olimpíada típica com a maioria dos atletas hospedados e fazendo as refeições na Vila Olímpica e usando o centro de treinamento que o Comitê Olímpico dos EUA montará no bairro de Setagaya City, em Tóquio. Mas a organização também considerou como se adequará se tiver de adotar um plano alternativo para hospedar e alimentar sua equipe e para reduzir seu staff de apoio.

“Compreendemos o que poderá representar uma mudança”, disse Adams. “Nós sabemos como nos adequarmos rapidamente e teremos condições de fazê-lo”. / Tradução de Anna Capovilla

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