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Noriko Hayashi/The New York Times
Noriko Hayashi/The New York Times

Atletas japonesas enfrentam obstáculos para perseguir sonhos no esporte

Olimpíada de Tóquio oferece chance de consagrar nova safra de campeãs para inspirar atletas

Motoko Rich e Hikari Hida, The New York Times

06 de julho de 2021 | 20h00

Kurumi Mochizuki é o tipo de jogadora de futebol habilidosa que consegue lançar uma bola da escápula para o topo da cabeça e direto para a ponta pé, mantendo-a no ar enquanto faz mais de uma dúzia de embaixadinhas. Ela faz isso parecer muito fácil.

Mesmo assim, quando ela treina com seu time no sudeste de Tóquio, seus treinadores às vezes a aconselham a fazer pausas mais longas do que seus companheiros de equipe, e a alertam para não pegar sacos pesados de bolas ao retirar o equipamento do campo. Tudo isso porque ela é uma garota.

Kurumi, 13 anos, é a única garota de seu time. Ela joga com garotos porque não há clubes com equipes femininas nas proximidades de seu bairro e nenhum time feminino em sua escola de ensino fundamental. Encontrar um time no ensino médio também não será fácil. Apenas uma das catorze escolas na região de Kurumi tem uma equipe feminina. Seu irmão mais velho, que joga futebol no ensino médio, não teve esse problema - quase todas as escolas do distrito têm times masculinos. “É mais fácil para os garotos”, ela disse. “Tenho inveja disso.”

Essa é a situação dos esportes para garotas e mulheres no Japão, onde as atletas muitas vezes precisam percorrer grandes distâncias para perseguir seus sonhos. As oportunidades são limitadas pelas rígidas normas de gênero da sociedade japonesa que definem as vidas das mulheres não apenas em campo, mas também em casa e no ambiente de trabalho.

As disparidades têm continuado gritantes, mesmo com as japonesas superando os homens do país Olimpíada após Olimpíada, e uma tenista nascida no Japão, Naomi Osaka, ter surgido como uma das maiores estrelas do esporte no mundo.

A Olimpíada de Tóquio, que começa em julho, oferece uma oportunidade de consagrar outra safra de campeãs para inspirar garotas com aspirações atléticas. Mas depois que os holofotes da Olimpíadas diminuírem, garotas como Kurumi ainda enfrentarão obstáculos poderosos.

O Japão não tem lei nenhuma lei como a Title IX, a lei americana que exige que as escolas que recebem financiamento público ofereçam oportunidades iguais para garotos e garotas, e não há dados públicos sobre quanto as escolas gastam com esportes extracurriculares ou como elas distribuem isso em termos de gênero.

As atletas que se mantêm no esporte frequentemente precisam superar estereótipos do passado de que estão fazendo algo pouco feminino, colocando em risco suas chances de atrair garotos e, mais tarde, de se tornarem esposas e mães. Até mesmo seus treinadores veem sua participação por esta perspectiva, em alguns casos dando a elas aulas de etiqueta para garantir que estejam prontas para a vida doméstica.

Essa é mais uma maneira de o Japão deixar de ajudar as mulheres a alcançarem todo o seu potencial como líderes em uma série de áreas, mesmo quando os políticos afirmam que o país deve promovê-las para tirar a economia de anos de estagnação. Embora muitas mulheres agora trabalhem fora de casa, ainda se espera que elas ocupem um lugar secundário em relação aos homens. E em suas vidas cotidianas, garotas e mulheres são pressionadas a se conformar com modelos de comportamento bastante limitados, como recatado ou delicado.

“Garotos que se dão bem nos esportes podem se tornar modelos a seguir”, disse Tetsuhiro Kidokoro, professor na Universidade Nippon Sport Science. “Mas a definição de feminilidade não inclui garotas se dando bem nos esportes.”

Independentemente das expectativas da sociedade, Kurumi espera jogar no futebol de elite como seu ídolo, Homare Sawa, a capitã da seleção japonesa que venceu a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2011 e conquistou a medalha de prata na Olimpíada de Londres em 2012.

Kurumi começou a jogar futebol aos seis anos por conta de seu irmão. “Nunca havia pensado nisso quando era mais nova”, ela disse a respeito de ser a única garota de seu time. “Mas depois que fiquei um pouco mais velha, tornei-me mais consciente disso.”

A equipe de futebol da escola pública onde ela estuda é tecnicamente mista, embora nenhum dos demais 40 jogadores do time seja uma garota. Kurumi decidiu ficar no time que ela vinha jogando desde o ensino fundamental em vez de tentar entrar em um novo grupo na escola.

“Existe uma diferença na força e na agressividade entre garotos e garotas”, disse Shigeki Komatsu, o vice-diretor da escola, parado na lateral do campo enquanto os garotos treinavam em um campo de terra, com suas chuteiras levantando nuvens de poeira.

Koko Tsujii, 17 anos, que mora no bairro de Suginami, no oeste de Tóquio, está determinada a jogar futebol desde o primeiro ano na escola, apesar da opinião de sua mãe de que o esporte não era para garotas. Ela agora joga no time feminino de um clube onde há uma média de quase 5 garotos para cada garota jogando.

Além de instruções sobre técnicas de chute e passe, as garotas do time recebem aulas de feminilidade. Durante um treinamento no período da noite, quando Koko estava no ensino médio, um dos treinadores orientou as garotas sobre como segurar seus hashis e tigelas de arroz de uma maneira que ele considerava delicada.

“Ele falou que teria preconceito se soubesse que uma garota com quem quisesse namorar jogasse futebol”, lembrou Koko, depois de terminar uma série de corridas intensas pelo campo durante um recente treino noturno.

“Não fiquei feliz com isso no começo”, disse Koko. “Mas agora que estou no ensino médio, sou grata. Percebi que alguns garotos se preocupam com coisas assim.”

De acordo com uma pesquisa de 2019 da Fundação Sasakawa Sports, 1,89 milhão de garotos com idades entre 10 e 19 - quase um terço de todos os meninos nessa faixa etária - jogavam futebol casualmente ou em um time pelo menos duas vezes por mês, em comparação com 230 mil garotas, ou pouco mais de 4%.

Apenas 48 das 10.324 escolas de ensino fundamental têm times de futebol feminino, de acordo com a Nippon Junior High School Physical Culture Association. A disparidade chega à idade adulta; apenas 5% dos jogadores registrados na Associação de Futebol do Japão são mulheres.

E, como nos Estados Unidos, as diferenças de salários são grandes. De acordo com relatos da mídia, os homens que jogam futebol profissional ganham mais de 10 vezes a mais do que as mulheres.

Além do futebol, os eventos esportivos que mais chamam a atenção do país mostram homens e garotos. No último verão, o Japão foi à loucura com um torneio de beisebol escolar, conhecido como Koshien, que tem mais de 100 anos. Logo após o ano novo, um grande público assiste ao Hakone Ekiden, uma maratona de revezamento universitária restrita a corredores do sexo masculino.

Existem poucas vozes públicas que defendam as atletas, e a maioria de seus treinadores são homens que muitas vezes não oferecem suporte para as mudanças físicas pelas quais as garotas passam na adolescência. A ideia de que as atletas precisam se preocupar com suas futuras chances com os homens está profundamente enraizada.

Depois que Hideko Maehata, uma nadadora olímpica, se tornou a primeira mulher a ganhar uma medalha de ouro para o Japão, o Asahi Shimbun, um dos maiores jornais do país, anunciou sua vitória na Olimpíada de Berlim de 1936 com a manchete: "Próximo passo: casamento".

Posturas como essa continuam até hoje. Yuki Suzuki, que jogou na Nadeshiko, a liga profissional de futebol feminino do Japão, e ensinou o esporte até dar à luz a seu filho, sente-se frustrada com as rígidas definições de gênero.

“As garotas frequentemente escutam 'sejam femininas, sejam femininas'”, disse Yuki, agora com 34 anos. “Acho que temos que mudar a cultura fundamental do Japão quando se trata de mulheres.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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