Marcio Fernandes|Estadão
Marcio Fernandes|Estadão

Atletismo e natação alavancam o Brasil nos Jogos Paralímpicos

Modalidades tradicionais devem render a maior quantidade de medalhas ao País

Nathalia Garcia e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2016 | 17h01

Se os resultados do Brasil na natação e no atletismo deixaram a desejar na Olimpíada, exceto pela medalha de ouro de Thiago Braz no salto com vara, a expectativa é de um panorama bem diferente nos Jogos Paralímpicos. No Rio, o País deve dar um salto no quadro de medalhas graças a nomes de destaque nas duas modalidades esportivas mais nobres, como os nadadores Daniel Dias e André Brasil, e os corredores Alan Fonteles e Terezinha Guilhermina.

Só para se ter uma ideia, nos Jogos de Londres, o Brasil conquistou 18 medalhas no atletismo (7 de ouro, 8 de prata e 3 de bronze) e 14 na natação (9 de ouro, 4 de prata e uma de bronze). Quatro anos antes, em Pequim, foram 15 pódios no atletismo e 19 nas piscinas. Isso coloca o País como um dos grandes nomes nas duas modalidades.

"Tradicionalmente o Brasil tem excelentes resultados em atletismo e natação. Essas devem ser as duas modalidades que o País conquistará seu maior número de medalhas", projeta Mizael Conrado, vice-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro e ex-atleta paralímpico de futebol de 5.

Além dos nomes mais conhecidos, o dirigente inclui Odair Santos, Petrúcio Ferreira e Yohansson Nascimento entre os destaques e conta com bom desempenho das modalidades coletivas, principalmente bocha, futebol de 5 e golbol. "O Brasil participa das 22 modalidades do programa e podem surgir boas surpresas, já que todas tiveram excelentes condições de preparação", afirma Mizael.

A maior estrela paralímpica brasileira é o nadador Daniel Dias, dez vezes campeão – seis ouros em Londres-2012, quatro ouros, quatro pratas e um bronze em Pequim-2008. O astro da natação nasceu com má formação congênita dos membros superiores e da perna direita e entrou para o paradesporto depois de assistir a Clodoaldo Silva em uma das provas dos Jogos Paralímpicos de Atenas 2004.

Daniel Dias, que compete em uma série de eventos na classe S5 – 50m borboleta, 50m livre, 50m costas, 100m peito, entre outros –, também ganhou sete ouros e uma prata no Mundial em Glasgow. Além disso, recebeu três vezes o prêmio Laureus, o "Oscar do Esporte".

Em uma brincadeira com seu técnico, prometeu deixar a barba crescer até o início da competição. E promete estar pronto para alavancar o Brasil no quadro de medalhas. "Não vou nadar assim não, é só uma brincadeira. De vez em quando mudar o visual faz bem", disse. "A expectativa é das melhores, não só individualmente, mas do Brasil como um todo. Vamos fazer o possível e o impossível para atingir o Top 5", continuou.

Outro nome importante da natação é André Brasil, que tem dez pódios olímpicos no currículo, nos Jogos de Pequim e Londres, incluindo sete medalhas de ouro. Quando tinha três meses de idade, ele teve poliomielite por reação à vacina. Com isso ficou com uma sequela na perna esquerda. Encontrou no esporte uma forma de reabilitação e agora é candidato a muitas medalhas no Rio.

No atletismo, Alan Fonteles vai em busca do bicampeonato olímpico nos 200m na classe T43. Sua façanha foi tirar a vitória do sul-africano Oscar Pistorius, favorito na prova, nos metros finais. Ele teve tanto destaque com aquele resultado que o vídeo da prova é mostrado sempre que se fala de Paralimpíada.

Ele teve de amputar as duas pernas quando tinha apenas 21 dias de vida, por causa de uma septicemia ocasionada por uma infecção intestinal. Aos 8 anos, começou a praticar o esporte e utilizava próteses de madeira. Quando tinha 15 anos, estreou nos Jogos de Pequim, em 2008, com sua prótese de fibra de carbono e ficou com a medalha de prata no revezamento 4 x 100 m.

Outra lenda das pistas é a velocista Terezinha Guilhermina. Aos 37 anos, ela já foi a três edições dos Jogos Paralímpicos (2004, 2008 e 2012) e acumula seis medalhas, sendo três de ouro, uma de prata e duas de bronze. No Rio, vai tentar mais pódios nos 100m, 200m, 400m e revezamento 4 x 100 m.

Mineira de Betim, ela nasceu com retinose pigmentar e foi perdendo gradualmente a visão. Começou no esporte pela natação, mas ao ganhar da irmã seu primeiro par de tênis, em 2000, deixou as piscinas e vem tendo bons resultados nas pistas.

CINCO PERGUNTAS PARA TEREZINHA GUILHERMINA

1. Qual é a sua expectativa para a disputa dos Jogos Paralímpicos? 

Minha prioridade são medalhas, não marcas. Vou usar tudo o que treinei e suei nesses quatro anos para fazer o resultado. A torcida faz toda a diferença, acredito que vai ser uma força a mais para mim.

2. Como é o seu trabalho com os dois guias para a competição? 

Tenho muita afinidade com o Rafael Lazarini e o Rodrigo Chieregatto. Há um profissionalismo grande nessa relação. O objetivo é o mesmo: somos o melhor goleiro, o melhor atacante, só é proibido fazer gol contra.

3. Como os Jogos podem impulsionar o esporte paralímpico?

A gente vai poder mostrar que o esporte é inclusivo e mudar a mentalidade da sociedade na questão de que temos deficiência, sim, mas somos iguais a qualquer atleta convencional.

4. Como você vê a forma como os para-atletas são retratados?

A gente é coitado ou super-herói. Somos tão humanos quanto qualquer pessoa, podemos errar ou acertar. Infelizmente esse estereótipo é uma pressão. 

5. Você já definiu se pretende disputar mais um ciclo paralímpico?

Chego pisando no acelerador e o objetivo é ir até Tóquio, com todo o comprometimento que tive até agora. Ainda não cheguei no meu melhor, tenho muita coisa para melhorar na minha condição física, na minha condição técnica. Acredito que posso fazer mais um ciclo bem feito.

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