Wilton Junior|Estadão
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Austrália troca problemas da Vila Olímpica por resort de luxo

Atletas são aconselhados a só entrarem na Vila quando as falhas de infraestrutura estiverem resolvidas

Gonçalo Júnior, enviado especial a Mangaratiba, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2016 | 05h00

Embora grande parte da delegação australiana já tenha entrado na Vila Olímpica, praticamente encerrando a polêmica sobre as más condições dos apartamentos, os atletas do rúgbi masculino e feminino ainda não vão para a casa dos atletas. Eles foram aconselhados pelo Comitê Olímpico Australiano a adiar sua entrada até que todos os problemas de infraestrutura sejam totalmente resolvidos. Nenhum dos 24 atletas e membros da comissão técnica vai reclamar. A equipe vai ficar mais tempo no Portobello Resort e Safári, em Mangaratiba, no sul do Estado, com praia exclusiva, piscina e clima de colônia de férias.

Os australianos do rúgbi chegaram ao Brasil na terça-feira à noite e nesta quarta-feira tiveram o primeiro contato com o hotel – que também foi o local da concentração da seleção da Itália durante a Copa do Mundo no Brasil. Ficaram extasiados. Depois de um treino leve e descontraído, que foi apenas uma atividade de recreação após a viagem de cerca de 20 horas, os atletas curtiram o local como se estivessem em uma colônia de férias. 

Primeiro, as meninas da seleção feminina fizeram questão de entrar no mar tranquilo da praia de São Brás, que tem boa parte de suas areias localizadas dentro do próprio hotel. Ficaram mais ou menos dez minutos, pois se incomodaram com a água salgada nas madeixas. Também esperavam que ela estivesse mais quentinha – nessa região, por causa de correntes marítimas, a água é gelada. Dez australianas fizeram festa mesmo na piscina, onde passaram grande parte da manhã. 

Elas tiraram selfies na piscina, brincaram de mergulhar e falaram alto. Extrovertidas, revivem lances do treinamento, momentos do voo e lembranças das competições anteriores. E tome gargalhada. Uma das mais expansivas é a artilheira da equipe, Ellia Green, que merece um parágrafo só para ela. 

Na adolescência, Green disputava provas de atletismo, principalmente os 100 m, 200 m e salto em distância. Chegou a bater 11s30 e sonhava com a disputa de uma Olimpíada. Só para comparar: Ana Claudia Lemos, a maior velocista do Brasil, correu neste ano na casa de 11s14, na melhor marca brasileiro do ano. 

Por causa de um primo, Green deu uma chance ao rúgbi sem nem conhecer as regras do esporte. Só seguiu o conselho de sua mãe: “pegue a bola e corra”. É quase uma versão esportiva do filme Forrest Gump. Depois de dois anos em um programa de esporte de alto rendimento, ela é artilheira e líder do time dentro e fora de campo.

De volta para a piscina. Agora, elas ocuparam o mesmo espaço dos hóspedes sem se cerimônia, numa boa. Nem se incomodar com a presença do Estado no primeiro dia da equipe no Brasil.

A integração com os hóspedes, obviamente, não foi às mil maravilhas. Em português, uma hóspede pediu o canguru emprestado para tirar uma foto para a filha. Foi ignorada pelas atletas, talvez por causa do idioma diferente. As duas (mãe e filha) demoraram para perceber que era gente de outro país de tão à vontade que elas estavam. 

MASCOTE DOIS EM UM

Companheiro de todas as atividades da atleta Evania Peite, o canguru é um mascote dois em um: bicho de pelúcia que vira mochila. O bichinho andou para cima e para baixo, do treino à areia da praia, da piscina ao sofá de couro do lobby do hotel. Mais que um acessório, se tornou símbolo da presença australiana. “Ele é meu filhinho”, disse sua dona, esquivando-se de uma entrevista. 

Devidamente instruídos pelos dirigentes, os atletas evitaram polêmicas sobre a Vila Olímpica. Pelo cronograma, as equipes só deixam o hotel no dia 4 de agosto. “Tivemos poucas informações sobre o aconteceu. Só sei que vamos fazer o período de aclimatação por aqui mais alguns dias”, diz a dona do canguru de pelúcia. 

Chama a atenção a descontração australiana por causa da sisudez com que outras delegações encaram a proximidade dos Jogos – e também os assuntos polêmicos. As suecas do futebol feminino, por exemplo, que também reclamaram das instalações e estão hospedadas no mesmo local, fugiram das entrevistas e dos registros fotográficos. Também passaram discretamente pela piscina, mas correram para treinar em um dos campos de futebol. 

Antes da descontração na piscina, as australianas colocaram som alto para embalar o treino. Com músicas que tocam nas rádios, principalmente black music norte-americana, elas se divertiam no amplo gramado verdinho. A alegria fazia contraste com o silêncio dos esgrimistas russos que estão hospedados no hotel desde o início da semana.

Esse bom humor também se estendeu à comissão técnica. Em uma das conversas com os funcionários do hotel, eles se esforçavam para aprender “obrigado” e “por favor”, o básico da boa educação em português. Foram igualmente polidos ao negar o pedido de entrevistas. 

SAUDADE

Seguramente os atletas vão lamentar quando tiverem de deixar o hotel cinco-estrelas para a viver na Vila Olímpica. Além dos campos de futebol, são inúmeras atividades de lazer disponíveis no local, como cachoeiras, piscinas naturais, floresta de bromélias e um palmital. São 152 apartamentos com vista para o mar carioca. 

O destaque é o safári que, segundo os funcionários, é o único do Brasil dentro de um resort. Lá estão animais divididos em três áreas. Na mais afastada, é possível se avistar zebras, cervos, antílopes e lhamas. A diária tem valor equivalente à infraestrutura: de R$ 1.100 a R$ 2.800. 

Nesta quarta-feira, os funcionários estavam atarantados. Somando australianos, suecos e russos, que também estavam hospedados no local, eram 150 atletas. Era difícil engatar conversa: a cada dois minutos era preciso sair para resolver algum pendenga dos gringos. Eles contam que a exigência de um atleta que busca medalha é diferente de uma família. Mas também se surpreenderam com a alegria das australianas. “Eles se parecem com a gente”, comentou um funcionário.

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Russos da esgrima também usam resort: para treinar

Escândalo de doping ainda pesa sobre a deleção russa e equipe evita falar com a imprensa

Gonçalo Júnior, enviado especial a Mangaratiba, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2016 | 05h00

No mesmo hotel em que estão os australianos, os atletas russos da esgrima fazem a preparação final para os Jogos do Rio. Nesse canto do gramado, compartilhado entre as duas delegações, dentro do Portobello Resort & Safari, em Mangaratiba, os risos são restritos e as brincadeiras, nulas. Os russos fazem todos os exercícios de alongamento e equilíbrio em silêncio. 

Ainda pesa sobre a delegação o escândalo de doping que impediu o país de disputar várias modalidades. Os esgrimistas foram liberados. Nesta quarta, a Federação Internacional de Esgrima permitiu que os 20 atletas (16 titulares e quatro reservas imediatos) disputassem os Jogos. A entidade analisou novamente os resultados de 197 testes antidoping feitos por esgrimistas em 35 países diferentes entre 2014 e 2016. Todos deram negativo. Antes disso, durante o Campeonato Europeu deste ano, realizado em Torun, na Polônia, todos os participantes já haviam testado negativo.

A delegação se hospedou em Mangaratiba antes mesmo do veredicto final, certos de que poderiam disputar a modalidade. Sob a alegação de que não entendem outro idioma além do russo, os atletas e membros da comissão técnica se esquivam das entrevistas. E, mesmo que compreendessem a língua, dificilmente falariam. Um dos auxiliares de preparação física ficou incomodado com a presença do Estado e perguntou se era “jornal” ou “tevê”. Só ficou aliviado quando percebeu que não havia câmeras. 

A esgrima é um dos esportes que mais dão medalhas para os russos. Já foram nove ouros, quatro pratas e seis bronzes. Como União Soviética, foram 49 pódios (18 ouros, 15 pratas e 16 bronzes), ficando atrás apenas de Itália (121), França (115) e Hungria (83).

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