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‘Banir a Rússia foi decisão política’

Para o escritor, o ‘moralismo do esporte puro’ é irreal e macula a aura do esporte ao excluir uma potência olímpica

Entrevista com

Hans Gumbrecht, escritor alemão

Monica Manir, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2016 | 17h00

No dia 24 de julho, sob a bandeira da Carta Olímpica, o COI permitiu à Rússia disputar a Rio-2016. Mas não sem antes repassar o bastão para as Federações Internacionais, que a cada dia vetam mais um destaque da equipe de Putin por doping. Quase um terço dos russos não poderá competir, entre eles a halterofilista Tatiana Kashirina e a nadadora Yulia Efimova. “Quando os russos dizem que o veto é uma decisão política, eu concordo”, diz Hans Ulrich Gumbrecht, professor de literatura em Stanford, na Califórnia, e autor de Elogio da Beleza Atlética (Companhia das Letras). 

Esse alemão aficionado por esportes diz que corremos o risco de reproduzir as Olimpíadas de Moscou e Los Angeles, quando americanos boicotaram soviéticos e vice-versa. “Sem os russos, perde-se um bom tanto da aura dos Jogos.”

Gumbrecht está longe de simpatizar com Putin e seu esquema de dopagem. Mas também está a jardas de concordar com o que chama de “moralismo do esporte puro”. Na sua visão, isso sim poderia contaminar o prazer com a performance dos atletas, uma experiência que, para ele, é o mesmo que se deleitar com um concerto ou uma pintura. A seguir, trechos da entrevista.

Depois que a Corte Arbitral do Esporte rejeitou a apelação de 68 atletas russos nos Jogos do Rio, a saltadora russa Yelena Isinbayeva disse que enterraram o atletismo. Enterraram mesmo?

Essa celeuma toda tem a ver com uma imagem idealizada do esporte como algo asséptico, limpo. Isso se baseia no esporte puro da Grécia Antiga. Mas essa imagem é totalmente falsa. Em primeiro lugar, porque o doping de atletas sempre existiu. Em segundo, os grandes vencedores dos jogos Pan-Helênicos da Antiguidade clássica eram profissionais quase como aqueles da antiga União Soviética, no sentido de que tinham patrocinadores estatais. Toda a poesia do Píndaro, por exemplo, é sobre isso: cantar a glória de um atleta do Estado. Então se pode dizer, irônica e criticamente, que tanto a antiga União Soviética quanto Putin estão reproduzindo a grande tradição grega.

De onde viria a imagem de pureza do atleta?

É uma ideia da alta burguesia aristocrática do princípio do século 19, dos colégios ingleses e americanos. Algo que Coubertin reciclou quando criou os Jogos Olímpicos. Vigorava a ideia de um atletismo “clean” e de amadores, mas também – é bom lembrar – de pessoas ricas, que custeavam seus hobbies. Por exemplo, a primeira equipe americana de 1896, em Atenas, era formada por alunos de Princeton. Quem patrocinava? A mãe de um deles, proprietária de um banco em Baltimore. Assim é fácil ser amador. 

O que é real para o atleta hoje?

Hoje, o atleta individual que quer performar muito bem sem depender do Estado precisa de um patrocinador. Ainda assim, mesmo que o patrocinador não seja público, há uma dependência. O atleta tem que chegar a um nível muito alto para ganhar bem. O atletismo, por exemplo, não dá muito dinheiro. Para atingir patamares mais altos, o atleta tem que vencer nas poucas competições disponíveis. Se não ganhar, não se classifica pra outras. Mas ganhar hoje no ciclismo ou na corrida de 100 metros, sem doping, me parece uma ilusão infantil. Um ano atrás, estive com o time nacional de ciclismo da Suíça, que não é o melhor do mundo, mas é bem forte. Perguntei a eles: “Sinceramente, qual o máximo que um ciclista que participa do Tour de France pode atingir sem doping?” Com um sorriso irônico, um deles disse: “Talvez ao Arco do Triunfo, mas em último”. Foi uma gargalhada cúmplice geral.

Como não enterraram o Tour de France ainda?

Cada vez mais a indústria da farmacologia desenvolve produtos complexos e difíceis de descobrir. Enquanto isso,o Comitê Olímpico Internacional usa métodos quase medievais. O especialista de uma grande empresa de fármacos está sempre muito mais à frente dos caçadores de doping. Esses caçadores são pessoas avançadas no moralismo, mas não na ciência.

Você propõe a desregulamentação total e irrestrita?

Eu proponho um choque de realidade. Se você se levanta com dor de cabeça, pede um remédio porque não quer ficar com dor. Se está deprimido, procura um psiquiatra e toma uma medicação. É normal. Então acho completamente absurdo que, para pessoas cuja profissão seja a mais alta performance física, estejamos formulando regulamentos de pureza. O meu argumento de desregulamentação é o seguinte: em primeiro lugar, ninguém pode dizer que o doping não existe. Em segundo lugar, a minha ideia, talvez utópica, seria a volta a uma responsabilidade individual maior do atleta. O problema desse sistema estatal soviético – e não só o soviético, o caso mais extremo foi na antiga Alemanha Oriental – é um doping do qual os atletas não têm consciência. Até hoje, na Alemanha, há documentação com dados de competidores cuja vida foi arruinada sem que eles soubessem o que acontecia.

Mas os atletas russos de agora não sabem que podem ser pegos no doping se tomarem esta ou aquela substância?

Não sei... Na Rússia, o lugar do Estado hoje é bem semelhante ao lugar do Estado na URSS. Acho plausível que uns 60% dos russos gostem do Putin, de um Estado que se impõe agressivamente. Nesse sentido, é triste, mas factível, que o atleta meio saiba, meio não queira saber o que acontece. O atleta russo com plena consciência do que está acontecendo me parece exceção. 

Há muitos atletas pegos no doping que são de países mais abertos, politicamente falando.

Sim, daí que a minha proposta é controlar de acordo com a legislação de cada país, uma legislação clara quanto ao doping. Claro que haveria certa desigualdade, mas nem tanta assim, porque muitas vezes o atleta de alto nível não treina no seu país de origem. Isso traria uma transparência maior e, a médio prazo, maior responsabilidade do atleta. 

A Isinbayeva insiste que não quer competir sobre bandeira neutra. Qual a importância do hasteamento da bandeira de um país para um atleta?

Acho que podemos voltar a Coubertin. Nas suas origens de aficionado pela pureza absoluta, ele também introduziu o conceito do internacionalismo como condição para os Jogos Olímpicos. Os primeiros Jogos, os de Atenas e de Paris, não tinham bandeiras nacionais – numa época altamente nacionalista. Veja que a Federação Desportiva Germânica de então, do Segundo Império Alemão, era inteiramente controlada por ginastas. E a ginástica foi uma invenção do patriotismo alemão. De modo que todos os participantes alemães da primeira Olimpíada, a de Atenas, foram excluídos da Federação Alemã por participarem de uma competição internacionalista.

Mas foram justamente os alemães que conseguiram sedimentar o hasteamento das bandeiras nacionais, não?

Oficialmente, a introdução dos rituais das nações olímpicas, inclusive a pira, foi uma invenção dos nazistas em 1936. Foram os primeiros Jogos em que se acentua o nacionalismo. Mas, se alguém quer se identificar com o seu país de origem, não tenho nada contra. Me parece uma lástima a Isinbayeva não querer participar sob uma bandeira neutra, mas ela tem esse direito.

Acha que, se alguém levar medalha de ouro sabendo que é inferior àquele que deixou de ir, isso diminui seu mérito?

É difícil afirmar isso. Mas, se eu fosse atleta, isso reduziria a minha alegria, sabendo que na Rússia existe um cara melhor que eu. Vou dar pra você um exemplo lindo, quase um romance. Nos Jogos de Atenas, em 2004, Markus Rogan, aluno aqui de Stanford, representava a Áustria, seu país de origem, que nunca ganha nada nos Jogos de Verão. Na prova dos 200 metros costas, ele terminou em segundo e o americano Aaron Peirsol, em primeiro. Mas Peirsol teria errado uma volta, e a delegação austríaca queria que ele fosse desclassificado. Rogan protestou. Disse que competia com o americano pelo menos cinco vezes ao ano e ele sabia que Peirsol era melhor que ele. Preferia uma medalha de prata honesta. Assim foi. Isso lhe deu, na Áustria, o status de santo.

Só de saber que há tantos atletas dopados tira um pouco do prazer de assistir à Olimpíada?

O que talvez esteja destronando a alegria da participação do público é o comportamento pretensiosamente moralista das mídias diante do doping. Quando percebo uma pessoa de princípios moralistas muito rígidos, levanto uma suspeita: essa pessoa está escondendo algo muito obscuro. Veja: Muhammad Ali morreu há pouco tempo. Se for fazer uma pesquisa histórica, é bem possível que se descubra que ele fazia uso de doping. Mas qual o meu interesse em reduzir Muhammad Ali a essa triste realidade? Nenhuma. Ele foi um atleta inacreditável, um cara importantíssimo para os EUA, uma figura de uma dignidade... Você se lembra da Olimpíada de Atlanta, em 1996, ele já com Parkinson, segurando a tocha olímpica? Eu me recordo que, aos 14 anos, ouvi escondido uma luta dele na rádio que me marcou pra sempre. Hiperbolicamente, acho que foi uma das maiores felicidades da minha vida ter compartilhado aquele momento e mais cinco décadas com Muhammad Ali. Não quero que um moralista destrua isso. Não quero.

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