Wilton Junior/Estadão
Christian Torres, Pedro Torres, Gabriel Paiva e Matheus de Oliveira Vieira: garotos estão empolgados por trabalhar nos Jogos Olímpicos. Wilton Junior/Estadão

Boleiros no tênis, garotos de projeto da Rocinha têm chance de conhecer ídolos

'Quero muito ver um jogo do Djoko, de preferência num duelo com o Tsonga', diz Mattheus

Marcio Dolzan, Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2016 | 05h00

No alto da Rocinha, a maior favela do Brasil, mais de duas centenas de crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos praticam tênis para, quem sabe um dia, estarem nos Jogos Olímpicos. Para sete deles, esse sonho se tornará realidade a partir da próxima semana. Alunos da Escolinha Fabiano de Paula, eles foram selecionados para serem boleiros do torneio de tênis dos Jogos do Rio-2016. E esperam por isso com ansiedade.

Gabriel Paiva, Luiz Carlos Medeiros, Mattheus Oliveira, Gabriel Lima, Daniel Melo e os gêmeos Christian e Pedro Torres fazem parte da escolinha que surgiu em fevereiro do ano passado. Ela foi idealizada pelo tenista Fabiano de Paula, que integra a Associação dos Tenistas Profissionais (ATP). Assim como os garotos, Fabiano cresceu na favela que fica ao lado do bairro de São Conrado, na zona sul do Rio. A escolinha conta com o apoio da Secretaria de Esporte do governo do Estado do Rio.

Os sete foram selecionados para trabalhar como boleiros – espécie de gandula – do torneio de tênis da Olimpíada pelo desempenho que apresentaram nas aulas, que acontecem duas vezes por semana. Além de comprovar frequência escolar, o que é uma obrigação para os 220 alunos do projeto, os garotos que trabalharão nos Jogos têm demonstrado bom comportamento e se destacam com a raquete em mãos.

O gosto pelo tênis, para alguns deles, começou de forma ocasional. O futebol costumava ser o esporte da preferência desses meninos da Rocinha, e há inclusive uma quadra de futebol a algumas dezenas de metros do saibro montado no alto do morro. Para chegar àquela do futebol, é preciso passar pela de tênis.

As quadras esportivas ficam próximas a uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). A todo momento, o contraste que se vê é enorme. Enquanto policiais militares sobem e descem pela viela empunhando fuzis para fazer a ronda, os garotos fazem o mesmo munidos de raquetes. A convivência é natural.

“Eu jogava futebol na quadra lá atrás. Mas um dia choveu e não tinha como jogar. Viemos assistir o treino da escolinha, eles nos convidaram para participar e acabei ficando”, contou Christian, de 14 anos. A prática do futebol parou naquela quadra molhada. “Agora eu só jogo tênis.”

Seu irmão, Pedro, também deixou o futebol de lado. A perna canhota agora só serve como apoio para suas rebatidas firmes com a raquete. Na Olimpíada, ele espera poder trabalhar em algum jogo do espanhol Rafael Nadal, por ora confirmado na competição. “Vou torcer por ele, que também é canhoto.”

O mais difícil para os gêmeos nestes dias que antecedem a Olimpíada é conter a ansiedade. “Dá um friozinho na barriga”, admitiu Christian, ao comentar a escolha para ser boleiro nos Jogos do Rio. “Mas é uma oportunidade única. Tanta gente querendo assistir aos jogos dos caras, e a gente vai estar lá, dentro da quadra.” Pedro, por sua vez, quer mais do que repor as bolinhas e assistir os ídolos. “É também uma chance de aprendizado. Vou prestar bastante atenção no que eles vão falar.”

Mattheus, 15, chegou à escolinha por indicação de alguns amigos que já praticavam no saibro da Rocinha. “Um dia um deles me convidou para assistir e curti muito”, relembrou. Hoje, demonstra bastante desenvoltura com a raquete. Mesmo de poucas palavras, Mattheus não escondeu a felicidade por ter sido escolhido para ser boleiro na Olimpíada. “Vai ser legal. A Olimpíada é um grande evento e vou estar nela vendo alguns dos meus ídolos. Quero muito ver um jogo do Djoko (Novak Djokovic), de preferência num duelo com o Tsonga.”

Para ele, a escolha para ser boleiro nos Jogos do Rio foi inesperada, mas Mattheus tem um palpite. “Acho que foi pelo nosso comprometimento. Somos esforçados, chegamos sempre no horário e prestamos atenção nas aulas”, pontuou o garoto.

O amigo Gabriel Paiva é o mais experiente do grupo. Aos 18 anos, ele não se enquadra nem sequer na faixa etária a qual é destinado o projeto, mas foi admitido pela intimidade com a bolinha amarela. “Eu treinava depois das aulas da escolinha. Um dia eles precisaram de um reforço e acabei ficando”, contou.

Gabriel se aproximou do tênis trabalhando como boleiro de um hotel de alto padrão localizado próximo à favela. Hoje, faz a mesma função na sociedade hípica, próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas.

A Olimpíada será sua segunda grande chance de estar perto de ídolos do tênis, e o garoto está na expectativa. “É maneiro. Eu já tinha participado do Rio Open, em jogos do John Isner e do (Pablo) Cuevas”, lembrou. Com a experiência adquirida,

Gabriel dá dicas aos seis amigos que estarão juntos nos Jogos. “Primeiro de tudo precisa ter velocidade. Tem que ser ágil, para não atrapalhar o jogo.”

O grupo terá um treinamento de dois dias no Parque Olímpico na próxima semana, mas Christian garante que já sabe o que precisará fazer durante a Olimpíada. “Tenho que ter responsabilidade. Já pensou estar no meio do jogo, errar a bola e desconcentrar o jogador?”, ponderou.

Um dos quatro professores da escolinha – que conta ainda com uma assistente social e uma psicóloga –, Vitor Hugo da Silva afirmou que a escolha dos sete meninos foi mais do que merecida, já que eles representam bem a proposta do projeto desenvolvido lá no alto da Rocinha.

“Nossa primeira intenção aqui é colocar os meninos para jogar, mantê-los ocupados”, contou. “O tênis muda muito esses moleques. É um esporte que dá muito disciplina. A gente faz reuniões com os pais, e eles nos relatam como mudou o comportamento dos filhos depois que começaram aqui no projeto.”

A chance de os sete meninos trabalharem nos Jogos como boleiros foi enaltecida por Silva. “É um prêmio para eles. No tênis ou em qualquer esporte é importante (para o aprendizado) estar perto dos seus ídolos.”

Segundo o professor, oito garotos já foram convidados a treinar na Tennis Route, uma academia de tênis instalada no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste carioca, e que se tornou referência para alguns dos principais tenistas do País na atualidade. Thiago Monteiro, Bia Haddad Maia e o próprio Fabiano de Paula treinam lá. Um indício de que, além dos boleiros selecionados para os Jogos do Rio-2016, talvez o torneio de tênis da Olimpíada de Tóquio-2020 também tenha seus representantes da Rocinha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.