Fábio Motrta/Estadão
Anna Shellen faz gesto característico de Usain Bolt ao comemorar os feitos nas pistas Fábio Motrta/Estadão

Bolt vira inspiração para jovens atletas de projeto na Mangueira

Corrida com Usain Bolt, em 2015, motiva estudante e auxiliar de escritório da Mangueira

Gonçalo Júnior, Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2016 | 17h00

Sabe aqueles dias perfeitos, que ficam na memória um tempão? Os atletas Felipe Ferreira e Ana Shellen compartilham o dia inesquecível de suas vidas. Em 19 de abril de 2015, eles correram 100 m ao lado do bicampeão olímpico Usain Bolt em um evento no Rio de Janeiro. Mais que inesquecível, o dia mudou a vida dos dois: Ana decidiu trocar a ginástica pelo atletismo e Felipe se inspira no momento mágico para trabalhar de dia e treinar à noite, sob a luz de um refletor instalado apenas para seus treinos solitários na vila olímpica da Mangueira, zona norte do Rio de Janeiro. 

“Foi um dia como qualquer outro. Eu tomei banho, almocei e vim treinar como fazia todos os dias. Eu achei estranho porque a pista estava lotada. Tinha um alvoroço. Meu professor chegou e disse: você vai correr ao lado do Bolt”, conta Ana, que ainda se lembra de tudo. “O Bolt falou que eu era muito linda e que deveria continuar no atletismo. Foi com um tradutor, porque não sei falar inglês”, explica a menina de 15 anos. “Estou seguindo o que ele falou”. 

Para a aluna da 8ª série do colégio estadual Umberto de Souza Melo, o contato com o astro no evento “Bolt contra o Tempo” embala um sonho. Ela deixou a ginástica artística e passou para a corrida, mas ainda está nos estágios iniciais. O encontro já proporcionou os primeiros minutos de fama. “Eu fui com a minha mãe em Madureira e uma mulher perguntou: você não é aquela menina linda que correu com o Bolt? É isso que eu quero fazer na minha vida”. 

Ana Shellen rouba emprestada a definição dada pelo cineasta Pedro Almodóvar para o ator Gael García Bernal: as câmeras também se apaixonam por ela. A menina abre um sorriso espontâneo de trinta e tantos dentes, faz poses, segue as orientações de fotógrafos e cinegrafistas e vive os dias de uma estrela mirim do atletismo. Ela fala bem, tem um vozeirão quase adulto e está acostumada às entrevistas. Nas pistas, o talento ainda precisa de lapidação. Ela insiste em correr com a cabeleira encaracolada ao vento e jura que não atrapalha. 

No dia da visita do Estado ao projeto da Mangueira, os funcionários disseram que os sorrisos estavam mais contidos. A explicação estava em um chumaço de algodão no ouvido esquerdo. Dor de ouvido. Depois de uma entrevista rápida, ela procura se proteger da garoa insólita que caía na tarde cinza do Rio de Janeiro. 

No caso do Felipe Ferreira, a visita do jamaicano é também inspiração, mas de um jeito diferente. Seu desafio é fazer o sonho caber dentro da danada da realidade. Quase como fazer um quadrado passar no meio de um círculo. E ele dá seus pulos. Literalmente. 

Sua prova é o salto em distância. No Troféu Brasil de Atletismo, ele ficou com a sexta melhor colocação e não conseguiu o índice olímpico. Ele chegou aos 7, 63 m e ficou distante da meta de 8, 15 m. O melhor que ele já conseguiu saltar foi 7, 81 m. 

Felipe sabe que essa distância pode ser explicada pela vida que ele leva. Aos 24 anos, ele não consegue se manter financeiramente com o atletismo. Como bolsista do projeto olímpico da Mangueira, ganha cerca de R$ 800,00. Para equilibrar as contas, trabalho adicional, há dois anos, como auxiliar de escritório em empresa de serviços ambientais. Com a boa vontade do chefe, seu Hilário, saídas para os treinos, assim que termina as atividades diárias. À noite, entre 18h e 20h30. 

Para contornar a falta de iluminação para uma prova específica como o salto em distância, os administradores da vila olímpica colocaram um refletor para iluminar a caixa de areia dos saltos. “Todo mundo diz que esse é o refletor do Felipe”, aponta o coordenador administrativo Samuel Belarmino. “Instalamos só para ele treinar”. 

O refletor fica no canto da pista de atletismo, pendurado no poste pintado de verde e rosa, as cores da escola. Para ajudar nos saltos, o professor Jomar Lino tinha outro truque. Usar a luz do celular para iluminar exatamente o local do salto, aquele limite até aonde pode chegar o pé do saltador. Era uma forma de Felipe também se guiar para diminuir o breu. 

Mesmo com todas essas barreiras, ele esteve em uma lista preliminar para os Jogos Pan-Americanos de Toronto e entre os dez atletas pré-convocados para os Jogos do Rio. Nos últimos três anos, também está no top 10 da modalidade no Brasil.  “Sei que as condições não são ideais. Tem gente que treina o dia todo, dorme bem, come bem. Estou correndo atrás do meu sonho. Meu coração não falou para desistir. A visita do Bolt deu mais força para continuar”, diz Felipe. 

Com a proximidade dos Jogos, a chegada das delegações e do clima olímpico, ele ainda lamenta ter ficado distante do índice. “Eu treinei um ano todo para conseguir, mas não deu”. 

Faltou falar da faculdade. Felipe ainda faz um curso da graduação à distância para se formar em Educação Física – ele está no 2º semestre. Isso significa que ele vai dormir à meia-noite e acorda às 6h30. Ele só consegue respirar no mês de julho, quando tem férias da faculdade e do treino na Mangueira. 

O atleta do salto sabe que está se aproximando de uma hora decisiva na vida. Mesmo com o apoio dos pais – Osmar é porteiro e Lucia costureira –, o saltador está preocupado com a idade. “Sou o mais velho do projeto olímpico. Em algum momento, eles podem cortar minha bolsa”, lamenta. 

Mentalmente, ele repassa o orçamento mensal. São R$ 350 do consórcio do carro, mais R$ 300 do plano de saúde (ele diz que precisa de um plano top por causa de uma eventual lesão) e outros R$ 360 da faculdade. Tem também a ajuda em casa e o namoro com a Barbara, que já tem um ano. “Às vezes, não dá nem para sair para namorar”, diz, levantando os ombros. 

CELEIRO

Seis brasileiros que vão disputar os Jogos começaram na pista onde estão Ana e Felipe. Nem todos permaneceram no atletismo, como as crias do local Tiago do Rosário e Fabiana Moraes. No basquete estão Erica Cristina, Clarissa Santos e Isabela Ramona; no handebol, Tamiris Morena. 

O objetivo principal do projeto é dar o primeiro empurrão para a carreira de atletas dos 5 a aos 19 anos em 11 modalidades. O drama é o mesmo de zilhões de locais como esse: falta de recursos.  O escândalo de corrupção na Petrobras, principal financiadora, dificultou a renovação do contrato. O médico é voluntário. Hoje, os atletas são mantidos apenas com o dinheiro da escola de samba. 

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