Fabio Motta|Estadão
Erica Sena e Caio Bonfim podem surpreender nos Jogos Olímpicos do Rio Fabio Motta|Estadão

Brasil é uma potência desconhecida na marcha atlética

Para técnico João Sendeski, ‘sementinha’ plantada há 20 anos pode render pódio

Nathalia Garcia e Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2016 | 17h02

Colocar Fabiana Murer, do salto com vara, como esperança de medalha nos Jogos Olímpicos já virou lugar-comum. A expectativa sobre a atleta aumenta à medida que seu desempenho contrasta com os fracos resultados do atletismo brasileiro nas competições internacionais. Mas a pressão no Rio tem tudo para ser dividida com dois talentos da marcha atlética: Caio Bonfim e Erica Sena.

"A gente não sofre a mesma pressão que a Fabiana, pois todo mundo acha que ela tem obrigação de ganhar. O Brasil é muito mal-agradecido a ela. A gente tem mais esperança do que expectativa, o que é uma coisa muito mais positiva. Talvez a gente possa dividir essa responsabilidade com a Fabiana, um vai ajudando o outro", afirma Caio.

Técnico especialista em marcha atlética, João Cesar Sendeski fica satisfeito com a projeção alcançada pela especialidade. "O Brasil hoje é uma das grandes potências da modalidade e isso muito nos agrada. Nos sentimos muito orgulhosos de ver que a sementinha que plantamos há mais de 20 anos está dando bons frutos, tanto no masculino quanto no feminino."

E ele aponta "grandes possibilidades" de pódio nos Jogos Olímpicos. "Estou muito confiante de que podemos ter a oportunidade de dar ao povo brasileiro uma medalha nessa prova tão solitária, porém solidária."

Sendeski ajudou a transformar Blumenau, em Santa Catarina, em um dos centros nacionais da marcha atlética. São Paulo, Recife e Brasília também são apontados pelo treinador como outros polos da modalidade. "No Sul, qualquer criança faz a prova de marcha atlética e não vai ser molestada na rua por algum desinformado dizendo que ela está rebolando", explica.

Na marcha, o movimento do quadril ganha notoriedade porque é preciso manter uma das pernas esticadas, sem dobrar os joelhos. Além disso, o atleta não deve tirar os dois pés do chão ao mesmo tempo e os braços dão impulso para o ritmo das passadas. Correr? Nem pensar.

Em busca de respeito dentro e fora do atletismo, a marcha atlética pode usar a visibilidade da Olimpíada para colocar fim à intolerância. "Preconceito está na cabeça do adulto mal informado. A realização dos Jogos Olímpicos vai mostrar inúmeras modalidades desconhecidas. É o que precisamos", diz Sendeski.

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Treino na altitude é a arma de Erica Sena, da marcha atlética

Cautelosa, atleta evitar falar em favoritismo na Olimpíada

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2016 | 17h02

Desde a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, o currículo de Erica Sena não para de aumentar. O sexto lugar no Mundial de Atletismo de Pequim, em 2015, e a quarta posição na Copa do Mundo de Marcha Atlética, no início do mês, ratificam a ascensão da atleta. Ela também é dona do recorde sul-americano nos 20 km, com 1h27min18. Se continuar nesse compasso, a brasileira chegará ao pódio nos Jogos Olímpicos do Rio.

Apesar dos bons resultados, Erica é cautelosa e prefere não falar em favoritismo. "Ainda tenho muito para evoluir. Acredito que posso brigar por um medalha. O mais difícil é se manter na frente e isso já está ficando mais fácil, mas na Olimpíada é outra coisa. Vamos estar em casa, tudo pode acontecer", afirma.

Sua "carta na manga" para baixar o tempo para 1h26 tem sido a altitude. A pernambucana vive no Equador desde 2011, onde conta com o auxílio do marido Andrés Chocho, atleta e treinador de alto rendimento, nos fortes treinos duas vezes ao dia. A parceria é um estímulo para seu crescimento. "Ele é meu ídolo, o admiro muito por ser um atleta extraordinário e dedicado. Eu devo a ele toda a minha evolução."

Mas ela descarta que seu desenvolvimento esteja vinculado somente à mudança de país. "Abri mão de tudo por um sonho e hoje estou colhendo os frutos", constata. Para Erica, seja qual for o estilo de treino do atleta, o que vai fazer a diferença nos Jogos Olímpicos é a dedicação.

A seriedade da atleta é reconhecida por João Cesar Sendeski, treinador especializado em marcha atlética. "Eles (Erica e Caio Bonfim) treinam muito duro. O segredo é trabalho, feito de forma organizada e muito planejada. Tem de continuar trabalhando com todas as adversidades, e as portas vão se abrindo."

Erica também sabe de seu potencial, mas procura conter a euforia. "Até o ano passado ninguém me conhecia, hoje já falam que sou a esperança do Brasil na modalidade no atletismo. Tento manter a calma e continuo fazendo meu trabalho."

Aos 31 anos, a brasileira vê como positiva a entrada da marcha atlética entre as modalidades que podem colocar o Brasil como protagonista na Olimpíada. Para ela, que sempre contou com seu esforço individual, essa projeção ajuda o esporte a ganhar apoio. "É bom saber que nossa modalidade está chamando a atenção da nossa confederação e da mídia. Ajuda a divulgar. Com isso, a modalidade só tem a crescer", diz.

A atleta também tem esperança de que os Jogos Olímpicos possam impulsionar a prática da marcha atlética no Brasil. E reconhece que ainda existe preconceito com a modalidade. "Os bons resultados sempre ajudam a divulgação. Acredito que podemos conseguir isso na Olimpíada", garante.

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Missão de Caio Bonfim é popularizar a marcha atlética no Brasil

Atleta pretende disputar as provas de 20 km e 50 km na Olimpíada

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2016 | 17h02

Caio Bonfim vem de uma família de atletas e foi criado para ser um destaque na marcha atlética. Aos 25 anos, ele tem alcançado bons resultados e sonha brilhar nos Jogos do Rio após ter tido uma experiência importante na Olimpíada de Londres. "Foi importante estar lá, venho desde aquela época treinando para chegar bem no Rio. Tomara que consiga um bom resultado. Os 20 mais bem colocados do ranking mundial vão brigar pelo ouro no Rio", diz.

Ele pretende disputar as provas de 20 km e 50 km na marcha atlética na Olimpíada e vê seu corpo preparado para o desafio. Caio conta que, como a distância mais curta vem antes no calendário dos Jogos, ele dará seu máximo para tentar uma medalha e depois vai buscar uma boa colocação nos 50 km. "Minha prioridade será a prova de 20 km, mas eu me recupero rápido para a outra disputa", avisa.

O atleta lembra que muitos competidores jovens começaram a praticar a distância de 50 km e com isso melhoraram na prova mais curta. "A gente sabia que o segredo estava aí, no método de treinamento. Então aumentamos esse volume. No final do ano fui fazer os 50 km e fiz o índice logo na primeira tentativa."

Ele sempre fala no coletivo, usando "a gente" ou "nós". Isso porque tem uma grande influência do pai João e da mãe Gianetti, que foi heptacampeã nacional consecutiva na marcha. Eles são seus treinadores e maiores incentivadores. "Eles tinham um alto nível e foram me colocando lá em cima também. Todo esse legado é dos meus pais."

Claro que Caio passou por diversas dificuldades, principalmente com falta de patrocínio, mas garante que nunca pensou em desistir do sonho. "Aqui em casa a gente tem um perfil de lutar, de não desistir. Minha mãe nunca largou e ela teve mais dificuldade do que eu tive. Por ser mulher, tinha um preconceito enorme por 'rebolar', além da falta de investimento e patrocínio. Quando ela entrou no atletismo, tinha preconceito com a marcha muito grande. Ela veio quebrando muita coisa e facilitou para mim", afirma.

Por isso, Caio tem uma missão: popularizar a marcha atlética no Brasil. Ele sabe que em diversos países não existe preconceito ou piadinhas com os praticantes. "Não é só na Europa ou EUA, mas se vai na Colômbia ou Equador não tem essa discriminação. E como popularizar a marcha? Com títulos e grandes resultados. É o que a gente vem tentando fazer. Quero mostrar para população que há outra modalidade que dá para ser praticada, que dá oportunidade aos jovens e é legal."

Nos Jogos do Rio, ele terá a chance de mostrar que todo o esforço da família valeu a pena. "É um grande sonho que a gente está vivendo. Quero fazer bonito e acho que chegou a hora", projeta o atleta.

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