Jonne Roriz/COB
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Falta de estrutura para atletas olímpicos do Brasil lembra o filme 'Jamaica abaixo de zero'

Ainda há muito para ser feito pelos competidores do País em Jogos e é fundamental levar as modalidades para as escolas e universidades

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 05h00

Lembra do filme de 1993, lançado nos EUA, chamado Jamaica abaixo de Zero? O enredo conta a história de quatro jamaicanos praticantes de bobsled que sonhavam em competir nos Jogos Olímpicos de Inverno, apesar de nunca terem visto neve. A história, transportada para os dias atuais, do século 21, da comunicação acelerada e instantânea, poderia muito bem ser contada por atletas brasileiros que mal sabemos os nomes ou reconhecemos nas ruas, mas que fazem suas malas e vão atrás de medalhas em Jogos Olímpicos, como os de Tóquio, por exemplo.

A bem da verdade, chegam com a cara e a coragem, cheios de esperanças e cientes de que só de estar lá já foi uma vitória. Basta assistir às entrevistas dos atletas que não conseguiram tempos, vitórias ou marcas para as finais de suas provas para comprovar isso. Festejamos os que subiram ao pódio, mas sabe-se lá como conseguimos tamanha façanha. Há, claro, algumas explicações para as vitórias e para os pódios, mas muito mais para as derrotas.

Começo com a parte alegre. Há investimentos do Comitê Olímpico do Brasil (COB) por meio das federações esportivas. Dinheiro que vem das loterias. Quanto mais o brasileiro aposta, maior é a fatia destinada às modalidades olímpicas, cujo porcentual permanece inalterado. Não é dinheiro suficiente. Cada atleta busca seus parceiros. 

Há ainda boas safras de competidores. A rapaziada do surfe é excelente. Ela lidera o circuito mundial há anos, fez nascer a Brazilian Storm e esse time vai sendo reformado a cada ano. Da mesma forma, essa garotada de roupa folgada do skate deu o que falar. São bons por natureza. Gostam do que fazem e fazem o que gostam para se divertir. Há modalidades cujos representantes estão na estrada há mais tempo, como o nadador Bruno Fratus e a judoca Mayra Aguiar.

As explicações para os ‘não-pódios’ são conhecidas de todas, estão na boca do povo a cada fim de Olimpíada e lembram os quatro bravos da Jamaica que encasquetaram em disputar os Jogos de Inverno treinando no seco, sem neve, sem carrinho, sem nada.

Os atletas brasileiros tentam melhorar suas condições com patrocinador particulares. Nem todos encontram um, sobretudo antes de colocar uma medalha no peito. Saem em busca de parcerias de porta e porta. Sofrem com as condições e equipamentos de treinos. Um caso mostrado nas redes sociais nesta semana foi o de Darlan Romani, um bravo representante do Brasil nas provas de arremesso de peso. Pai de família e cidadão respeitado. Durante a pandemia, ele limpou no braço, com ajuda de amigos, um terreno baldio perto de sua casa para treinar. Isso é possível somente para quem tem muita fibra no coração e determinação na alma. O cara ficou em quarto lugar na modalidade em Tóquio. Treinou no mato.

Não imagino um americano fazendo a mesma coisa. Um chinês. Ou mesmo um japonês com índice olímpico. Darlan poderia ser um desses quatro jamaicanos do bobsled. É o típico atleta brasileiro, que ainda tenta explicar por que não deu certo.

Nossos representantes do atletismo também estão dentro do bobsled. São vencedores por subir no avião e embarcar. Não podemos mais apostar apenas no talento deles, no ‘vai lá e dá o seu melhor’ ou nas desculpas pela falta de estrutura. O Brasil só será um país olímpico quando levar os esportes para dentro das escolas e universidades, dobrar o Bolsa Atleta, formar centros de excelência e abrir suas portas para as crianças.

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