MARCIO FERNANDES | ESTADAO CONTEUDO
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Brasil busca se manter como uma potência paralímpica

Expectativa é de ter Hino Nacional e pódio em todos os dias da competição que começa na quarta-feira no Rio de Janeiro

Marcio Dolzan, Nathalia Garcia e Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2016 | 17h01

Após o Brasil patinar na meta de pódios nos Jogos Olímpicos, os atletas nacionais entram nos Jogos Paralímpicos com a missão de ser Top 5 no quadro de medalhas e as chances são boas. Tanto que existe a promessa de ter Hino Nacional e pódios em todos os dias da competição. O evento começará na quarta-feira e irá até 18 de setembro, no Rio. O Brasil terá uma delegação recorde, com 287 atletas.

Mais do que pelo número portentoso, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) está eufórico pelo potencial da equipe. “A gente tem uma mescla de gerações, a de Londres-2012 com uma nova, pós-Londres, que vem muito forte. São atletas que já são campeões mundiais e esta é a nossa melhor delegação da história”, afirmou Andrew Parsons, presidente do CPB.

Além das modalidades com histórico de medalhas para o Brasil, como atletismo, natação e futebol de 5, o comitê aposta em esportes em que o País teve grande evolução no último ciclo, com medalhas em campeonatos mundiais. São os casos de ciclismo, golbol, canoagem, remo, tiro com arco, levantamento de peso e vôlei sentado.

O planejamento para a competição iniciou ainda em 2009, quando o Rio foi escolhido sede dos Jogos de 2016. Desde então, o CPB vem aumentando os investimentos e sua previsão de pódios a cada ano.

“Nós fizemos um planejamento visando aos Jogos do Rio com diversas etapas e várias metas intermediárias”, explicou Mizael Conrado, vice-presidente do CPB. “Fizemos a previsão de ficar em sétimo lugar em Londres e de ganharmos os dois Parapans, de Guadalajara e de Toronto. Isso tudo aconteceu. Agora, queremos o 5º lugar, que é o nosso maior desafio.”

O plano traçado pelo CPB incluiu investimento nas mais diversas modalidades paralímpicas e também uma “atenção especial” aos atletas com histórico de bons resultados. Competidores com mais chances de vencer as disputas tiveram investimento maior no último ciclo paralímpico. A intenção é assegurar o maior número de ouros, primeiro critério para a definição do quadro de medalhas.

A grande expectativa de pódios também animou o público brasileiro. Nas últimas duas semanas, quase um milhão de ingressos para os Jogos Paralímpicos foram vendidos, número quatro vezes maior do que havia sido comercializado em quase um ano. As entradas para as competições no fim de semana estão praticamente esgotadas.

Fora das arenas de disputa, a Paralimpíada também ajudou a garantir um legado para as próximas edições. Em maio, foi inaugurado em São Paulo um centro de treinamento orçado em R$ 300 milhões.

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Atletismo e natação alavancam o Brasil na Paralimpíada

Modalidades tradicionais devem render a maior quantidade de medalhas ao País

Nathalia Garcia e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2016 | 17h01

Se os resultados do Brasil na natação e no atletismo deixaram a desejar na Olimpíada, exceto pela medalha de ouro de Thiago Braz no salto com vara, a expectativa é de um panorama bem diferente nos Jogos Paralímpicos. No Rio, o País deve dar um salto no quadro de medalhas graças a nomes de destaque nas duas modalidades esportivas mais nobres, como os nadadores Daniel Dias e André Brasil, e os corredores Alan Fonteles e Terezinha Guilhermina.

Só para se ter uma ideia, nos Jogos de Londres, o Brasil conquistou 18 medalhas no atletismo (7 de ouro, 8 de prata e 3 de bronze) e 14 na natação (9 de ouro, 4 de prata e uma de bronze). Quatro anos antes, em Pequim, foram 15 pódios no atletismo e 19 nas piscinas. Isso coloca o País como um dos grandes nomes nas duas modalidades.

"Tradicionalmente o Brasil tem excelentes resultados em atletismo e natação. Essas devem ser as duas modalidades que o País conquistará seu maior número de medalhas", projeta Mizael Conrado, vice-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro e ex-atleta paralímpico de futebol de 5.

Além dos nomes mais conhecidos, o dirigente inclui Odair Santos, Petrúcio Ferreira e Yohansson Nascimento entre os destaques e conta com bom desempenho das modalidades coletivas, principalmente bocha, futebol de 5 e golbol. "O Brasil participa das 22 modalidades do programa e podem surgir boas surpresas, já que todas tiveram excelentes condições de preparação", afirma Mizael.

A maior estrela paralímpica brasileira é o nadador Daniel Dias, dez vezes campeão – seis ouros em Londres-2012, quatro ouros, quatro pratas e um bronze em Pequim-2008. O astro da natação nasceu com má formação congênita dos membros superiores e da perna direita e entrou para o paradesporto depois de assistir a Clodoaldo Silva em uma das provas dos Jogos Paralímpicos de Atenas 2004.

Daniel Dias, que compete em uma série de eventos na classe S5 – 50m borboleta, 50m livre, 50m costas, 100m peito, entre outros –, também ganhou sete ouros e uma prata no Mundial em Glasgow. Além disso, recebeu três vezes o prêmio Laureus, o "Oscar do Esporte".

Em uma brincadeira com seu técnico, prometeu deixar a barba crescer até o início da competição. E promete estar pronto para alavancar o Brasil no quadro de medalhas. "Não vou nadar assim não, é só uma brincadeira. De vez em quando mudar o visual faz bem", disse. "A expectativa é das melhores, não só individualmente, mas do Brasil como um todo. Vamos fazer o possível e o impossível para atingir o Top 5", continuou.

Outro nome importante da natação é André Brasil, que tem dez pódios olímpicos no currículo, nos Jogos de Pequim e Londres, incluindo sete medalhas de ouro. Quando tinha três meses de idade, ele teve poliomielite por reação à vacina. Com isso ficou com uma sequela na perna esquerda. Encontrou no esporte uma forma de reabilitação e agora é candidato a muitas medalhas no Rio.

No atletismo, Alan Fonteles vai em busca do bicampeonato olímpico nos 200m na classe T43. Sua façanha foi tirar a vitória do sul-africano Oscar Pistorius, favorito na prova, nos metros finais. Ele teve tanto destaque com aquele resultado que o vídeo da prova é mostrado sempre que se fala de Paralimpíada.

Ele teve de amputar as duas pernas quando tinha apenas 21 dias de vida, por causa de uma septicemia ocasionada por uma infecção intestinal. Aos 8 anos, começou a praticar o esporte e utilizava próteses de madeira. Quando tinha 15 anos, estreou nos Jogos de Pequim, em 2008, com sua prótese de fibra de carbono e ficou com a medalha de prata no revezamento 4 x 100 m.

Outra lenda das pistas é a velocista Terezinha Guilhermina. Aos 37 anos, ela já foi a três edições dos Jogos Paralímpicos (2004, 2008 e 2012) e acumula seis medalhas, sendo três de ouro, uma de prata e duas de bronze. No Rio, vai tentar mais pódios nos 100m, 200m, 400m e revezamento 4 x 100 m.

Mineira de Betim, ela nasceu com retinose pigmentar e foi perdendo gradualmente a visão. Começou no esporte pela natação, mas ao ganhar da irmã seu primeiro par de tênis, em 2000, deixou as piscinas e vem tendo bons resultados nas pistas.

CINCO PERGUNTAS PARA TEREZINHA GUILHERMINA

1. Qual é a sua expectativa para a disputa dos Jogos Paralímpicos? 

Minha prioridade são medalhas, não marcas. Vou usar tudo o que treinei e suei nesses quatro anos para fazer o resultado. A torcida faz toda a diferença, acredito que vai ser uma força a mais para mim.

2. Como é o seu trabalho com os dois guias para a competição? 

Tenho muita afinidade com o Rafael Lazarini e o Rodrigo Chieregatto. Há um profissionalismo grande nessa relação. O objetivo é o mesmo: somos o melhor goleiro, o melhor atacante, só é proibido fazer gol contra.

3. Como os Jogos podem impulsionar o esporte paralímpico?

A gente vai poder mostrar que o esporte é inclusivo e mudar a mentalidade da sociedade na questão de que temos deficiência, sim, mas somos iguais a qualquer atleta convencional.

4. Como você vê a forma como os para-atletas são retratados?

A gente é coitado ou super-herói. Somos tão humanos quanto qualquer pessoa, podemos errar ou acertar. Infelizmente esse estereótipo é uma pressão. 

5. Você já definiu se pretende disputar mais um ciclo paralímpico?

Chego pisando no acelerador e o objetivo é ir até Tóquio, com todo o comprometimento que tive até agora. Ainda não cheguei no meu melhor, tenho muita coisa para melhorar na minha condição física, na minha condição técnica. Acredito que posso fazer mais um ciclo bem feito.

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Planejamento e investimento de R$ 375 milhões pela meta

Comitê Paralímpico Brasileiro começou o plano em 2009 e agora quer colher os resultados nos Jogos do Rio

Thiago Fadini e Victor Rezende, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2016 | 17h01

O planejamento a longo prazo e o aumento de recursos, que passaram de R$ 168 milhões para R$ 375 milhões, representando um aumento de 123%, na comparação entre o ciclo paralímpico de Londres-2012 e o do Rio, foram as medidas tomadas pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) para atingir sua melhor colocação nos Jogos.

Ter quase o dobro do orçamento influenciou na evolução do paradesporto brasileiro. Com um planejamento sendo executado desde 2009, o CPB deu início à coleção de bons resultados, alcançando, além da liderança no Parapan de Toronto, com mais ouros que EUA e Canadá, um inédito sétimo lugar no quadro de medalhas de Londres-2012. Não à toa, os carros-chefe brasileiros, atletismo e natação paralímpicos, são regidos pelo próprio comitê.

"Para nós tem sido bem melhor. Ter o controle desde a iniciação até o alto rendimento é tão melhor que nós temos os melhores resultados nessas duas modalidades", diz o diretor técnico do CPB, Edilson Rocha. Além de natação e atletismo, o comitê também é o responsável pelo tiro esportivo, esgrima em cadeira de rodas e levantamento de peso. "Nada impede que tenhamos uma separação no futuro, mas hoje fazemos um grande trabalho", diz.

A dependência do Comitê Paralímpico do poder público é alta. Desde 2013, o órgão trabalha quase que exclusivamente com dinheiro público. Com a desistência de empresas como Unimed e Infraero em apoiarem o comitê, o poder público, nas instâncias federal e municipal, passou a repassar recursos diretamente ao esporte paralímpico por meio das leis Agnelo/Piva e Brasileira de Inclusão, de aportes do Ministério do Esporte, da Caixa Econômica Federal, do Time São Paulo (estado) e do Time Rio (município). A Braskem, que apoia o atletismo, é a única representante da iniciativa privada neste ciclo.

Na comparação entre o ciclo de Londres-2012 e o do Rio-2016, o orçamento aumentou 123%. A essa receita é somado o Bolsa Atleta, utilizado em massa pelos atletas paralímpicos brasileiros. Segundo Rocha, cerca de 90% dos esportistas utiliza o programa, enquanto 104 deles também recebem a Bolsa Pódio. Entre os atletas olímpicos, o índice dos que utilizam a Bolsa Atleta é menor: 77%.

Outro resultado do investimento é o Centro Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, inaugurado em 2016. "A vantagem é que muitos dos atletas que levaríamos para fora vão poder fazer um bom treinamento no Brasil. A nossa piscina é a melhor do mundo", diz o diretor técnico do CPB.

RESULTADO

Com mais dinheiro e, consequentemente, mais incentivo ao paradesporto, o País quer cumprir a meta de ficar entre os cinco países mais vitoriosos na Paralimpíada. O coordenador do atletismo paralímpico do Brasil, Ciro Winckler, vê como algo possível, mas bastante difícil. "Se o Brasil pleiteia a quinta colocação, o atletismo tem que alcançar essa posição. Com a saída da Rússia, é mais difícil fazer projeções devido à migração de medalhas, mas podemos nos beneficiar, assim como outros países", afirma o coordenador.

O resultado na Rio-2016 também será positivo na visão do coordenador da natação paralímpica brasileira, Rui Menslin. Segundo ele, os atletas estão sendo bem preparados física e psicologicamente e podem fazer os melhores tempos deles na Paralimpíada. Em relação ao top 5, Menslin é taxativo: "Nosso desejo é esse. Nos planejamos para chegar lá."

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