Marco Antonio Teixeira/Divulgação
Marco Antonio Teixeira/Divulgação

Campeãs paralímpicas vão carregar bandeiras de Brasil e Itália

Shirlene Coelho e Martina Caironi serão as representantes dos países na cerimônia de abertura

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2016 | 07h00

Duas campeãs paralímpicas do atletismo nos Jogos de Londres terão a honra de carregar a bandeira de seus países no Rio. Shirlene Coelho, do Brasil, e Martina Caironi, da Itália, vão puxar suas delegações na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos, nesta quarta-feira. A primeira ganhou o ouro há quatro anos no lançamento de dardo. Já a italiana chegou ao lugar mais alto do pódio nos 100m.

"Eu não esperava, foi uma notícia muito especial quando fiquei sabendo. Será minha segunda Paralimpíada, não sou uma veterana como são outros atletas, mas seguramente será uma emoção muito forte. Espero levar de volta para a Itália as medalhas", afirmou Martina, que tem 26 anos e compete também no salto em distância.

Quando tinha 18 anos, perdeu a perna esquerda acima do joelho em um acidente de moto. Não demorou para perceber no esporte uma maneira de lidar com as dificuldades. "Eu não era atleta. Gostava de praticar esporte, jogava vôlei, mas não em um nível nacional. Gostava também de futebol, patinação, mas não gostava de atletismo na escola, achava chato", conta.

Ela explica que foi uma necessidade natural tornar-se atleta. "A primeira coisa que tem de fazer é colocar na cabeça que a perna não vai voltar nunca, não cresce de novo como o rabo de uma lagartixa. Eu percebi que tinha tudo, menos a perna. Depois de um tempo, quando voltei a andar e caminhar, achei que estava faltando alguma coisa. Vi Oscar Pistorius em 2008, na minha cidade, um ano após o acidente, e ele me inspirou. Li o livro dele e vi em um centro de próteses várias fotos de atletas. Achei que poderia fazer aquilo também", completa.

O sucesso foi rápido. Em um mês de treinamento ganhou sua primeira competição. Aquilo serviu de estímulo para mais tarde conquistar a medalha de ouro nos 100m nos Jogos de Londres, na categoria T42, batendo o recorde mundial na época – desde então, ela já diminuiu a marca outras vezes e o recorde atual é mais de um segundo mais rápido que o de Londres.

Sonhando todos os dias com os Jogos do Rio, colou na parede do seu quarto um pôster do Cristo Redentor. Também começou a estudar português e se enrosca em algumas poucas palavras do vocabulário. Martina se mostra encantada com a beleza do Rio e sua natureza exuberante, que é bem diferente da cidade onde vive, Bologna, no norte da Itália. "Aqui a cidade tem muito verde, eu gosto disso."

Ela vem respirando a competição no Rio há alguns anos. Veio meses atrás para o Brasil, pela primeira vez na vida, para cumprir uma agenda da Ottobock, que fabrica as suas próteses. Não conseguiu visitar muitos lugares, mas conheceu o Engenhão, que receberá o atletismo na Paralimpíada. "Vi o estádio vazio e fiquei imaginando como seria se estivesse cheio. Fiquei arrepiada só de pensar nisso. Agora quero fazer, não quero ficar imaginando muito. Sei que o coração vai bater forte."

Uma marca registrada da atleta são algumas madeixas coloridas no cabelo. Ela costuma usar cores e fala que está sempre testando novas tonalidades. "Eu gosto de mudar. Sempre tiram fotos comigo e de tempos em tempos me canso de olhar para mim e ver que está do mesmo jeito. Na Paralimpíada, vou fazer algo colorido. Como a Terezinha Guilhermina", brinca, citando a também campeã paralímpica brasileira, que disputa as provas para cegos e costuma usar tranças coloridas.

PORTA-BANDEIRA

Pelo Brasil, Shirlene Coelho será a primeira mulher do País a conduzir a delegação nos Jogos Paralímpicos. Ela foi escolhida em uma votação com os 286 para-atletas nacionais. Aos 35 anos, a goiana superou na eleição outros 17 atletas, todos homens.

"Fico muito feliz por ter sido escolhida como porta-bandeira do Brasil, e mais feliz ainda por saber que eu sou querida pelos meus companheiros. Tenho uma ótima convivência com todos e acredito que isso e os meus resultados foram determinantes para eu ser premiada", afirmou a atleta.

Ela alcançou 20% dos votos e ficou à frente do judoca Antônio Tenório, que conquistou 18% dos votos e tem cinco medalhas paralímpicas, incluindo o tetracampeonato entre 1996 e 2008. Um dos critérios do Comitê Paralímpico Brasileiro foi de incluir na votação apenas atletas que tivessem medalha de ouro. Shirlene venceu em Londres, em 2012, e foi prata em Pequim, em 2008, no lançamento de dardo, na categoria F37 (para atletas com paralisia cerebral).

 

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