Chamas olímpicas, antes e agora

Depois de 28 anos, os Jogos Olímpicos se deparam com diferença de valores culturais e políticos

Serge Schmemann, The New York Times

28 de abril de 2008 | 18h46

Eu estava na Praça Vermelha, durante os Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, quando um protestante pobre tentou, aparentemente, atear fogo em seu corpo. Nunca descobrimos quem ele era ou o que realmente aconteceu por causa da incrível reação das autoridades, que foi registrada em filme por um turista.Veja também: O trajeto completo do revezamento da tocha pelo mundo Na primeira cena aparece uma grande chama e turistas chocados. Na próxima, Um carro sedã entra na praça, e um homem de meia-idade é colocado no porta-malas. Mas nas cenas subseqüentes, a atenção da multidão está em outro lugar - a cada quatro homens, um pega uma câmera, a abre e expõe o filme. O turista de quem eu vi o filme estava atrás de uma árvore. Eu suspeito que ele foi o único a registrar o que aconteceu. A maioria das testemunhas relembram apenas o fogo e os homens assustadores que pegavam as câmeras para retirar os filmes.Foi uma incrível demonstração da determinação soviética de não permitir que nada fosse estragar o seu grande show. "Esporte, você é paz" era o slogan estampado em pôsteres, souvenirs e camisetas, mas os Jogos haviam sido abertos sob o boicote norte-americano por causa da invasão soviética no Afeganistão. Isto pareceu apenas reforçar os esforços do Kremlin em aniquilar qualquer tipo de discórdia ou descontentamento com os Jogos.No final, os Jogos Olímpicos de 1980 revelaram muito mais a paranóia e dureza das autoridades soviéticas do que sua organização de eventos esportivos - pelo menos para o Ocidente. Agora, da mesma maneira, nós estamos aprendendo muito sobre a China. E, assim como muitos russos não viam uma conexão entre as políticas do governo e os Jogos, muitos chineses parecem nervosos e convictos que "inimigos estrangeiros" estão deliberadamente tentando arruinar sua festa. Eu suspeito que o Comitê Olímpico Internacional (COI) também não percebeu que uma conexão pode ser feita entre o histórico da política dos Direitos Humanos de um país com o fato de sediar os Jogos.Existem limites, é claro, na comparação entre o campo militar fechado que era a União Soviética há 28 anos atrás e a riqueza da China de hoje. Mas isto apenas faz com que as similaridades entre as reação dos dois partidos comunistas seja mais evidente.O Ocidente talvez veja a China como uma potência militar e econômica do século XXI, onde presidentes e magnatas tentam abocanhar um pedaço da abundância. Apesar disso, o partido reinante continua consideravelmente ignorante das regras das sociedades abertas com as quais lida, e bastante inseguro perante qualquer dissidente tibetano, qualquer ativista dos Direitos Humanos e qualquer crítico do mundo ocidental. Um estado que sentencia um dissidente como Hu Jia a prisão por "incitar a subversão do poder do estado" ao simplesmente vazar ao mundo a política chinesa em relação aos Direitos Humanos.Escondido numa secreta, suspeita, paternalista e altamente burocrática cultura, a elite comunista chinesa pode apenas presumir que as elites do Ocidente são como eles, que protestantes em Darfur, Tibete ou a perseguição de dissidentes são apenas manobras políticas de um incrível cinismo.Os ataques à tocha olímpica pode apenas ser o trabalho de "inimigos". Eles estão em todos os lugares. No dia 17 de abril, a agência de notícias do estado de Xinhua divulgou uma reportagem sobre um chamado de um grupo de alemães para a realização de protestos pedindo a libertação do Tibete. "Reforçou a impressão de que existe um show de marionetes acontecendo por onde passa a tocha olímpica, com o Dalai Lama e seus apoiadores no palco e as forças anti-China lutando contra uma China em crescimento", disse a agência de notícias. Declarações como esta que alimentam a noção comum no Ocidente que protestos e boicotes apenas fortalecem a visão chinesa e as pessoas em volta do partido comunista. "Diplomacia discreta", nesta "escola de pensamento" é a aproximação mais útil. Certamente é mais útil para governos e negociantes buscando contratos milionários na China. Mas isto é efetivo? Um diplomata ocidental deu a dica de que soltar um dissidente seria ótimo para a imagem da China, mas poderia apenas reforçar o sentido que direitos humanos servem apenas para relações públicas.No final, debater a efetividade de protestos em massa ou diplomacia discreta não atinge o ponto desejado. Os protestos ao longo do percurso da tocha, incluindo os acontecimentos na Coréia do Sul, não foram obra de alguns alemães, mas são a expressão do genuíno inconformismo das pessoas em sociedades livres. Isto pode não persuadir a visão chinesa em relação aos Direitos Humanos, mas eles podem aprender que o custo do cinismo pode ser alto.

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