Chineses que derem entrevistas serão investigados pela polícia

Documento mostra que guardas foram instruídos pelo governo a indagar cidadãos que falarem com a imprensa

Efe,

21 de agosto de 2008 | 08h19

As forças de segurança chinesas receberam ordens internas para investigar os cidadãos que derem informação à imprensa estrangeira, mas também para não interromper o trabalho desses jornalistas, algo que já foi desobedecido ao menos 12 vezes. Segundo circular policial interna recolhida pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o governo chinês enviou em 25 de julho ordens às delegacias para que não interrompessem o trabalho dos 20 mil jornalistas, mas que indagassem os cidadãos que fizessem declarações aos meios de comunicação estrangeiros.     "As recentes detenções de chineses que pretendiam se manifestar ou se expressar durante os Jogos evidenciam a existência dessa vontade de atacar seus próprios cidadãos, mais que aos milhares de jornalistas estrangeiros", avaliou a RSF. A normativa faz "temer que, depois dos Jogos Olímpicos, quando já tiverem ido embora os milhares de jornalistas credenciados, ocorram represálias", acrescenta a RSF.   O documento de 25 de julho, intitulado "Quatro normas relativas ao controle dos jornalistas estrangeiros", pede às forças de segurança que não atrapalhem o trabalho dos repórteres, não danifiquem seus equipamentos, não confisquem cartões de memória e não investiguem assuntos menores que não lhe digam respeito.   A ordem interna foi infringida por pelo menos 12 vezes, sobretudo quando jornalistas estrangeiros tentaram cobrir os supostos ataques terroristas em Xinjiang, dias antes da cerimônia de abertura dos Jogos, ou quando documentavam imensas filas para a compra de ingressos. No caso da cobertura dos protestos pró-Tibete, o jornalista britânico John Ray chegou a ser detido.   O segundo documento, com "oito diretrizes" de não-intervenção para o caso de um jornalista estrangeiro entrevistar um chinês, recomenda que não haja repreensões caso o profissional esteja credenciado, entre outros fatores. A polícia também não intervirá "se o jornalista perguntar por assuntos delicados mas o entrevistado não for muito famoso ou interromper a ordem pública, e se o entrevistado falar sobre Tibete, Xinjiang, Taiwan (...) ou criticar o Partido Comunista, mas não se comportar de forma escandalosa". A última ordem é não intervir quando alguém fotografa ou filma a polícia, "a menos que interrompa seu trabalho".   As normas contradizem as emitidas com grande publicidade por Pequim para a imprensa estrangeira em janeiro de 2007, nas quais haveria "liberdade de movimentos e liberdade para entrevistar". Em outra circular, datada de 7 de agosto e da qual RSF conseguiu uma cópia, policiais são ameaçados a dissolver imediatamente manifestações de caráter religioso.   A RSF lembra a campanha de intimidação promovida antes dos Jogos contra ativistas e militantes de direitos humanos, para assegurar a inexistência de reivindicações sociais, religiosas e políticas por parte de personagens destacados da dissidência.

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