ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Classificada para Tóquio, Aline Ferreira concilia rotina de atleta e dirigente

Principal nome do wrestling no Brasil se divide entre treinos e rotina de vice-presidente da confederação nacional

Alessandro Lucchetti, especial para o Estadão

02 de fevereiro de 2021 | 10h00

Envolvida com outras entrevistas, a reportagem liga 20 minutos depois do horário combinado para Aline Ferreira. Tarde demais. Educadamente, a atleta sugere que reagendemos a conversa. Não se trata de apego excessivo à pontualidade. Desde o último dia 7, ela divide seu tempo entre a preparação para os Jogos Olímpicos de Tóquio, a gestão de seu projeto social, o Mempodera, e o cargo de vice-presidente da CBW (Confederação Brasileira de Wrestling). "Tem que ser na hora. Não consigo dar conta de tudo sem cumprir com meus horários", justifica.

A chapa encabeçada pelo ex-atleta Flávio Cabral, a Keep Wrestling, com Waldeci Silva de Souza na primeira vice-presidência e Aline na segunda, obteve uma vitória contundente nas eleições para a presidência da Confederação Brasileira de Wrestling, em dezembro do ano passado. Arrebatou 26 votos, contra seis da chapa de Magno Barros e três da que era encabeçada por Sergio Roberto Lara de Oliveira.

O longo reinado da família Gama chegou ao fim. A entidade, criada em 2000, que atendia pelo nome Confederação Brasileira de Lutas Associadas, teve como primeiro presidente Pedro Gama. Depois de sua morte, quem o sucedeu foi seu filho, Pedro Gama Filho, que exerceu o poder por três mandatos consecutivos.

Aline diz que não está sendo alvo de críticas que mencionem eventual conflito de interesses. "O processo de classificação olímpica já estava definido pela gestão anterior, e eu obtive a vaga para Tóquio antes da eleição", diz a atleta.

A grande bandeira de campanha do grupo que ascendeu ao poder é descentralizar a luta, excessivamente concentrada no Rio e em São Paulo. A CBW ainda não tem os números dessa concentração, no entanto. "A gente ainda tem que mapear a luta no Brasil. Precisamos otimizar alguns processos", diz Aline, já versada no jargão de administradora.

Aline conquistou a vaga para Tóquio em março do ano passado, na Seletiva Olímpica Pan-Americana, em Ottawa, no Canadá. Na Rio 2016, a lutadora conseguiu chegar às quartas de final.

Desde a conquista da medalha de prata no Mundial de Tashkent, no Usbequistão, em 2014, Aline não conseguiu subir novamente ao pódio numa competição desse nível. Após tanto tempo sem competir, devido às restrições impostas pela pandemia, ela não se vê capaz de esboçar nenhum tipo de perspectiva quanto às suas possibilidades nos Jogos de Tóquio. "Não faço ideia do estado em que se encontram as minhas adversárias. Além disso, sempre compito sem pensar em resultado. A performance que vou apresentar lá vai ser consequência do dia a dia de treinamentos."

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Sempre compito sem pensar em resultado. A performance que vou apresentar em Tóquio vai ser consequência do dia a dia de treinamentos
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Aline Ferreira, atleta de wrestling

Flávio Ramos, treinador de Aline no Sesi de Cubatão, vê uma evolução da atleta, hoje com 34 anos. "A Aline é uma atleta mais madura. Compete de uma forma mais tranquila atualmente."

Ex-marido de Aline, Flávio tinha um outro papel fundamental na carreira dela: era também seu sparring, inclusive durante as viagens da atleta para a realização de training camps no exterior. Como faltam no país lutadoras grandes e fortes como Aline, ficava difícil para ela encontrar companhia à altura para os treinos. A insistência dela para que a CBW bancasse as viagens para Flávio era um dos fatores de desgaste com a direção da entidade.

Com o tempo, a equipe do Sesi, que se mudou da unidade de Osasco para Cubatão, criou um forte grupo de sparrings – são 20 atletas da base, com até 20 anos de idade. Devido à falta de opções para a prática de esportes na cidade, um contingente expressivo e qualificado foi desenvolvido no clube.

"Esse é o maior orgulho que esse projeto nos deu. O plano original era criarmos sparrings para a Aline, mas eles ganharam vida própria. Criamos aqui um grupo de meninos e meninas fortíssimos, que estão brigando pelo topo de suas categorias em nível nacional", diz Flávio.

Segundo o treinador, Aline não vai se dividir entre tantas atividades durante muito tempo. "A tendência é que ela encerre a carreira depois dos Jogos de Tóquio. Sua presença na Confederação é muito importante. Pensamos na luta do Brasil. Queremos muito que o esporte cresça, para termos mais praticantes."

Resta pouco tempo para quem quiser admirar a garra e a técnica da lutadora que pôs o Brasil no mapa mundial do esporte.

Tudo o que sabemos sobre:
Olimpíada 2020 Tóquio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.